acordei travada. nunca na vida tive a sensação de que não conseguiria andar. status:

a p a v o r a n t e

tentei metaforizar: será um desejo inconsciente de não prosseguir, medo da pista ou uma evidência metafórica, física, dos percalços do caminho? logo agora, neste momento produtivo e crédulo, em que a reverberação dos meus movimentos se propaga em círculos cada vez mais amplos, como desejei? sos médico, injeção, bomba analgésica.  zonza, capenga, lá fui eu fazer meu show semanal, no Semente, Lapa. a casa começou a encher. muitos músicos chegando com seus instrumentos, todos da novíssima geração, gente que nem conheço, só conheço de nome ou de vista. Isso tudo junto deve ter algum significado, pensei, principalmente porque o hoax do momento, presente em todas as rodas de conversa on e offline, era o tal fim do mundo, a partir da 00h de hj.

começa o som, a perna reclamando, eu respirando: vamos, amiga, vamos lá. o oxigênio entrando lavando tudo, água, muita água, suor descendo pelas costas e pelas pernas, música entrando pelos ouvidos, a voz brotando de tudo, a vibração modificando o ambiente. mais músicos chegando. um desembainha seu sete cordas, outro sapeca o pandeiro, outro afina o bandolim, outro ataca de sax. qto tempo se passou, qtas músicas tocamos, qtos solos maravilhosos e qtos músicos talentosos tocaram com a gente? nem sei. o público chegando junto. inebriada pela música, pelo coro da plateia, pelos sorrisos em todos os rostos, pelo fim do mundo, me sinto carregada no colo pela vida. trégua. mais uma vez eu fui salva pela música. eu, meus companheiros de tantos anos de fé, meus novos amigos, meus futuros amigos, todo mundo ali pela música, sem nome, sem idade, sem pressa nem vontade de chegar no fim. se eu tivesse sucumbido à dor, teria vivido plenamente a dor e perdido a delícia. então é por isso que o show tem que continuar, é por isso!

nós iremos achar o tom, um acorde com lindo som, e fazer com que fique bom, outra vez!

 

Dia desses, ouvi alguem dizer que o “samba da Lapa” é da Lapa por uma questão circunstancial. Concordo. A Lapa era uma terra de ninguém, imóveis abandonados, caindo aos pedaços, desvalorizada e perigosa. Sem vizinhança pra reclamar como na Copacabana do Bip Bip, no Botafogo do Mandrake, em Santa Teresa, onde antes da Lapa havia rodas e mais rodas, desde que o samba é samba. Sem falar em todo subúrbio, baixada, zona norte e oeste que sempre tiveram suas rodas de samba. E desde os anos 80, doa a quem doer, muita gente já tinha começado a redescobrir o samba pelo viés do pagode, a música popular da moda naquele momento. Esse negócio de botar um chapéu pra se sentir malandro veio depois.

A Lapa começou a re-existir com o povo do Circo Voador, do Tá na Rua, da FEBARJ, uma soma de forças que chamou a atenção com o bafafá em torno da Fundição e do Corredor Cultural. Isso, quando o Semente era o melhor restaurante nipo-natureba do mundo, e o Capela era um boteco barato. O Arco da Velha tinha samba em meados dos anos 80, mas era pontual. Tudo é um grande processo, sem dono, nem nome, com bases em fatores menos românticos do que se vende. Não mitifico nada nem caio no papo da imprensa, que adora inventar um “movimento”. Quando o samba aterrissou ali, empurrado por vários fatores, a Lapa era um bairro neutro, barato, central e, portanto, sem os estigmas tradicionalmente atribuídos ao zoneamento da cidade.

O samba é a única cena musical que existe no Rio de Janeiro, concentrada na Lapa. E talvez por isso, sem desmerecer o poder do samba, haja tanto samba e tanto sambista na cidade. Esta cidade sem casa de show, sem teatro, sem bar com música ao vivo, sem respeito ao músico. Quem faz música pra ouvir, quem elabora roteiro de show, quem preza emissão, arranjo e dinâmica, não tem onde trabalhar sistematicamente. A Lapa não se equipou pra isso e nem pretende. Apesar disso, tem trabalho, palco, público, cachê e troca profissional pro músico. A tal da cena musical. Enquanto as casas da cidade fecham, uma após a outra, pq não aguentam os encargos, a Lapa sobrevive cada vez mais lotada e turística, cada vez se repetindo mais. Isso é ruim? Sei lá. Las Vegas é aquela cafonice, tem um bilhão de cassinos e megashows diários em várias sessões. Umas pessoas trabalham, outras se divertem, uns gastam, outros ganham e pronto, a roda gira. Mas em Vegas o som deve ser bom e não toca só um estilo. A Lapa não aprendeu essa lição pq ela vende diversão, zoeira, furdunço e mitos. O público adora os mitos. Com sua informalidade, a Lapa desconstruiu a imagem do artista. O samba é o grande artista.

A Lapa virou uma grife de inclusão na alegria e na brasilidade. Se vc não vai à Lapa, vc não sabe o que é se divertir de verdade. Muito além das poucas (boas) casas, a rua está cheia de vendedores de latão e cheiro de xixi. Muita roda de samba e boteco chinfrim, onde a cerveja é barata, onde tem “gente bonita em clima de paquera”, onde a música rola pra manter o consumo alto e a diversão. Mas não me iludo. O público acidental, aquele da diversão, pode migrar a qq momento para uma nova moda. E quem aprendeu a gostar de samba vai continuar gostando, pq samba quando é bom, é realmente a melhor diversão. Muito além da Lapa e seus mitos.

 

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