morada eterna

16/08/2016

A única certeza da vida é a morte. Ao pó retornaremos. Ainda assim, todo mundo se espanta com ela. Já tenho idade pra ter entendido que a morte tem que acontecer de qq jeito. E acontece. Nem sempre limpinha e bonita, nem sempre à altura do merecimento do morto, para o bem e para o mal. As pessoas têm um sonho cristão, de uma morte que transpareça a qualidade de quem morre: “…era um santo! morreu dormindo…”. No fundo, sempre fica uma esperança de ascenção, quiçá ressurreição ou de um reconhecimento premiado, agora e na hora de nossa morte, amém.  Se bem que,  uma morte digna, a esta altura do mundo, está muito mais ligada a questões sociais que espirituais. Viver e morrer ainda é melhor para os ricos que para os pobres.

A real é que a morte tem que ocorrer, do jeito que for. Uns morrem como uma luz que se apaga, outros em metáforas menos poéticas. No final, morte é morte. Acabou, fim. A energia retorna à matriz e volta a circular por aí. Pra mim, isso é que é vida após a morte. Com o passar do tempo, vemos nossas pessoas desaparecendo em progressão geométrica, mas nem todas na razão da idade. Muitas, na razão da vida que levaram, ou das surpresas do inesperado. Não tem lógica morrer uma menina de 12, com tudo pela frente e um velhinho com alzheimer vegetar pra sempre. Esquece a lógica. Entendi que o negócio é escolher como a gente vai viver, morrer é o imponderável. E deve ser bom, pq ninguém nunca voltou pra reclamar, nem pra matar saudades.

2014-08-22 17.38.01-2

 

 

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Quase páscoa, entro num taxi. No rádio, mulheres conversam sobre como fazer para não perder a forma na Páscoa, como congelar ovos de páscoa e ir descongelando aos poucos, pra que durem o ano todo, mais ou menos até chegar o Natal, dica estranha…

Confesso que  estou cansada. Tanta regra, tantas ordens, tantos do’s & dont’s. Me sinto uma megera indomável, the untamable shrew. Dentro de mim mora um dragão que solta fogo pelas ventas a cada vez que alguém me dá uma ordem, inclusive eu mesma. Sempre chamuscada, vivo  pra amansar o dragão. “Calma-te carinõ!” pra cá, “Calma, Conga!” pra lá… Cansa.

O fato é que eu comentei com o motorista: “… chatice de mundo, tanta regra pra atender, não é mais possível ser feliz! Meu sonho é ouvir um conselho assim: Se for da sua preferência, devore todos os ovos no mesmo dia, um após o outro, sem a menor culpa. Exercite ultrapassar limites e desafie o establishment de vez em quando. Contrarie sua mãe, seu chefe, o padrão estético, seu médico, sua melhor amiga, sua crença e seu deus. A Páscoa é ótima pra isso, só tem uma vez no ano…  Eu quero vida com prazer”.

O motorista virou-se pra me olhar, e disse, enfático: “É isso aí, é isso que eu acho tb! A vida foi feita para ser vivida, para ter prazer. O cara td certinho é um chato, faz tudo que a mamãe aplaude, que o papai se orgulha, que a sociedade acha lindo. Um chato que não admite erros. Nós somos cheios de faltas.”

Vendo que uma loja de sapatos que eu amo estava liquidando, doida para cometer um pequeno excesso, gritei: “Pára aqui, moço! Vou descer!”. E ele: “Mas já? O papo tava tão bom… vou te dar meu telefone pra vc me ligar pra bater papo. Difícil um papo bom assim…”

Pela tangente, respondo: “Ih, eu sou comprometida, não vou pegar seu tel”

E ele, objetivo: “Mas não é pra compromisso, não”

A libertina que abriga um dragão agradou o motorista. Mas, talvez, por obediência ao establishment, sinhá pagou a corrida e saiu sem pegar o tel do cara. Mas que sapato lindo!

 

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