depois daquele nascer do sol

o mirante do Leblon

debruça-se sobre o leito seco

onde houve o mar

sobre as pedras

onde houve areia dourada

e o sol

nunca mais nasceu

nem lá

nem cá

vc mostrando as coisas que eu nunca vi, eu mostrando as coisas que vc nunca viu. risadas. encontro mais que perfeito. na cozinha, mesa sempre posta, vinho, cerveja, queijo azul, pão sueco, tomatinho, azeite. a gente mudava de lugar e falava, falava, falava, falava. troca a música, ah, troca você.  e de repente era perfeito não falar mais nada e eu cair dentro de vc, vc de mim. e depois a gente tomava sorvete de chocolate ou eu fazia ganache. e a gente fumava e bebia litros e mais litros de água, fosse naquele verão árido da despedida ou naquele inverno doce em que vc gostou de mim e disse: “Assim, me apaixono e fico”. “Fica, fica!”, eu desejava, fervorosa e muda, enqto a gente se abraçava e se beijava fundo e eu fechava os olhos com força, emanando: “Fica, fica”, e aí, antes que eu pudesse dizer qq coisa,  vc me sedava, me enredava, me ganhava, me levava. Nada daquilo era meu, nem seu.  Acho que foi por isso mesmo que eu nunca disse, em voz alta: “Fica!”.

E se tivesse dito? E se tivesse dito?

fever

13/11/2010

o sangue dispara em alta velocidade, como um tiro quente de éter por dentro das veias, percorrendo o corpo todo e bombando feito um surdo de marcação no centro de tudo. o corpo meio tremulo, a boca entreaberta e demi sec, a pele macia, tudo em pleno fervo. Rápido, é urgente.

paixão

09/11/2010

Tem gente que fala que a paixão é um inferno, mas eu discordo. Pra mim, a melhor coisa da vida é ficar apaixonada. Depois que passa a paixão a pessoa vira gente e é aquilo, né? Todo mundo tem pentelho, só a bailarina que não tem.

Eu fico maravilhosa apaixonada. Emagreço, componho, escrevo sem parar e me sinto linda, pronta, quente, animada, energizada, no topo da cadeia alimentar. Até o cabelo brilha, os olhos irradiam luz e do centro do peito sai uma rosa vermelha e perfumada. Cafona e superior, é assim que me sinto apaixonada. E livre.

Da ultima vez em que me apaixonei mesmo, bom, deixa pra lá, até hoje nao anotei a placa do veículo que me abalroou.

Sinto no ar um cheirinho de paixão. Como uma adolescente fico pensando que magias eu poderia fazer para trazer a pessoa amada em três dias. Ou menos. Não tenho cara de pedir uma coisa dessas pros deuses, pq depois que a gente lê umas coisas aí, a gente aprende que nem sempre o que a gente quer é que é o bom. Ai, que saco.

Entao  mudo a reza: Atenção, deuses do amor, afrodite, vênus, cupido, lembrem-se de mim e joguem uma flor com meu cheiro no colo daquele moreno. Se ele gostar, ele é meu!

Eles trocaram uns 4 segundos de olhar profundo. Viveram, no passado, uma intensa, conturbada e boa história de sexo e paixão. Em 4 segundos, o olhar que trocaram abriu a cortina e deixou passar o filme. Os olhares disseram, um para o outro: eu sei daquilo tudo. O olhar foi direto ao centro das emoções sem moral e sem racionalidades, onde tudo se justifica pelo que o corpo pede, pelo que o coração sente, pelo que é impossível julgar ou proibir. Mesmo que tudo indique que nada daquilo vai se repetir, mesmo assim. Provavelmente, nunca tocarão no assunto. Mas os olhos se tocarão. E tocarão, eles mesmos, no assunto e falarão a lingua do olhar.

A fala do olhar desconhece censuras e disfarces. O olhar não sabe mentir como as palavras sabem. Quantos segredos se manterão guardados à beira do olhar, compartilhados apenas por quem os viu? Trama de olhares. Olhares inconfessos. Olhares e segredos trocados em silêncio, consentidos.  Votos confirmados, amores confessados, saudades, desejos. Tudo lá.

Foram apenas uns 4 segundos. Talvez 3.

meu melhor amigo está deprimido, perdido nos labirintos da vida. Vida adulta chata, realidade. A vida adulta tb tem me assustado e suas atribuições me metem medo. Eu e minha irmã temos nos preocupado com a família. Falar nos aproxima e conforta. Às vezes eu choro escondida.

meu outro melhor amigo vai ter um encontro. Torcemos pra que seja tudo lindo gostoso e feliz,  pessoa legal, que mereça ele e trate ele bem. Estamos todos  muito cansando de tantas tentativas e erros (e qtos erros…)

minha melhor amiga está ansiosa, apaixonada, sofrendo, fumando um cigarro atras do outro.  está desesperada para ser feliz, como todos nós: “mas por que não posso ter tudo ao mesmo tempo?” pode, claro. então,  vamos encantar a vida

eu tb ando buscando a centelha da paixão que nos faz melhores compositores e cantores e torna a vida mais colorida.  vou atrás das emoções, estou tentando me manter bem viva.

enquanto tudo isso, a manhã expulsava a noite que pairava sobre a princesinha do mar. you see, eles não sabiam que era impossível…


retrato

26/01/2010

Na fotografia estou sorrindo um sorriso que nem me cabe na boca, os olhos acesos, ao lado dele. Ele passa o braço em volta do meu ombro, espaçoso e confiante, com os olhos mareados de tanta fumaça e noite. O sorriso é de plenitude e cerveja.

Em cima da mesa, erguemos uma estranha catedral de bolachas de chope. Em volta de nós, a Lapa e nossos amigos incríveis. Malandras e malandros no salto alto, colares de sementes, guias de todas as cores e todos os orixás. Figas de guiné e ouro no pescoço. Os instrumentos estão apoiados nas mesas e cadeiras. Nos divertimos na pupila do olho do vulcão onde tudo é puro fervo e adrenalina e altas gargalhadas.

Dentro de mim a fogueira arde, o fogo lambe, estalando as achas no meu epicentro. Estou em plena combustão, fulgurante e viva como uma brasa.  Unhas vermelhas, cabelos de cobre, pele dourada. Eleita e pertencente. Depois, amanhecemos em todos os pontos da cidade, Aterro, Diabo, Mirante do Leblon.

Já vejo o pessoal recolhendo as mesas, colocando as cadeiras de pernas pro ar, amontoadas.  A água, cheirando a Creolina, molha os pés do pessoal da saideira, lavando o chão, empurrando os restos da noite pros bueiros das ruas, onde os primeiros trabalhadores já estão indo trabalhar e onde os postes já se apagam. O sol varre, da rua, os boêmios que nunca querem ir pra casa dormir. Ligamos o ar bem gelado e nos enfiamos debaixo de um edredon branco e fofo, o blackout vedando as frestas das janelas. E a felicidade lá.

vi, sim

Rio-Santos

06/12/2008

fluxo borbulhante que não pára de correr nem pra descansar, nem pra dormir. calor que sai da pele pelos poros. vapor dentro de mim, maresias. da janela da van vejo pessoas a cavalo, carros velhos, casas feias, bicicletas levando crianças na escola, cachorros de rua, cidades pequenas, uma após a outra, passando pela estrada ao longo de nós, pessoas comuns. passam montanhas verdes, praias douradas, mares azuis, estradas de asfalto, rodas de samba, baixo Leblon. passa tudo e não passa vc. 

Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone

Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone

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