“Telefone é pra uma emergência, não é pra ficar pendurada batendo papo. Conversar é ao vivo!” bradava meu pai, na minha adolescência, quando eu realmente passava o dia in-tei-ro no telefone. No tempo em que as linhas de telefone fixo custavam uma grana preta e as pessoas ficavam anos na fila do plano de expansão, que levava telefones aos lares brasileiros.

E também, obviamente, não havia celulares, nem computadores domésticos, nem fax, nem tv a cabo. Nem pager ainda não tinha existido. O que existia era um bip, que os médicos tinham. Era uma central de recados que te bipava. Se vc estivesse na rua, vc comprava uma ficha telefônica na banca de jornal, e ia procurar um orelhão que funcionasse. Qdo vc encontrava, ligava pra central e tirava o recado. Tudo isso entre pessoas humanas, que se falavam, anotavam recados, uma loucura! Era dura a vida da comunicação. A gente tinha que marcar hora com a telefonista pra fazer uma chamada internacional. E eu nem sou tão velha assim…

As notícias tinham que esperar pelo meio de transmissão mais próximo. A forma mais rápida de enviar uma notícia era ir ao correio, no expediente comercial,  e passar um telegrama. Aí vc expedia a notícia urgente e esperava o dia seguinte, o correio da outra cidade abrir, o carteiro entregar o telegrama blá blá. Depois, nem precisava mais ir até o correio pra passar, era telegrama fonado. Chiquérrimo. Essa era a coisa mais urgente do mundo.  Agora a urgência é soberana, a vida é em real time.

Depois teve o telex, mas não pra uso caseiro. Logo apareceram os pagers, que todo mundo tinha, não só médicos. A mensagem aparecia digitada na sua telinha. Logo depois, vieram os pcs, os celulares, a tv parabólica, a tv a cabo, os apaches, a manada de búfalos e estamos aqui, soterrados por meios de comunicação, nos ocupando de nós mesmos como nunca, nos exibindo em sites, blogs, twitters e facebooks. Falando e escrevendo pelos cotovelos.

Estamos tão íntimos dos nossos aparelhos, ninguém mais acha o menor problema em conversar online, namorar online, comprar online, fazer sexo online, tomar decisões online, fazer reunião de negócios caríssimos online. Tudo normal.

O ICQ morreu, quem lembra? E os chats do IRC? O Orkut está para o Facebook assim como a TV aberta está pra TV a cabo. Não vai acabar, não vai mudar e vai ter sempre um público alvo.

O fato é que não há uma única vez em que eu passe pela portaria da casa da minha mae, em que o porteiro dela não esteja no telefone. Pô, essa parada de celular é mó adianto pra porteiro, né? Aquela cena  igual, todos os dias sentado, vendo a vida passar… Pelo menos o cara bate papo com alguém. Se quisesse,  mesmo pelo celular, ele poderia estar fazendo uma universidade à distância ou visitando o museu do Louvre ou aprendendo a tocar pandeiro ou a cultivar orquídeas.

Mas acho que meu pai tinha razão: conversar continua sendo bom, mesmo, ao vivo

Orelhão  no bas fond de Copacabana é cheio de propagandas de profissionais do sexo de todos os estilos. Em geral são panfletinhos p/b xerocados e colados um em cima do outro, do qual constam uma foto, descriçao dos atributos do profissional/serviço,  nome e telefone para contato.

Na madrugada de sábado, saindo do Cervantes, vi os papeizinhos dentro do orelhão da esquina da Prado Junior com Barata Ribeiro. Quando me deparei com esse folheto aí,  bolei! Já vivi e vi muita coisa nessa vida, tenho amigos vividos e viajados, de todos os sexos e crenças e classes sociais. Tenho um diálogo aberto com todos eles, inclusive sobre sexo. Mas esse negócio de fazer “kelvi sem parar” é uma novidade absoluta pra mim e pra todos os amigos que estavam lá! Ficou todo mundo curioso e viemos embora. Na mesma hora pensei no blog e arranquei o papel pra escanear. As amiguinhas do kelvi ganharam inclusão digital…

Cheguei em casa às 6h30 da manhã e vim direto procurar na rede. Tá lá: kelvi é felação sem camisinha. Neste caso,  a duas bocas. Isso tudo por qua-ren-ta-re-a-is! E sem parar…

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