a entrevista em que a Mônica Salmaso fala sobre a situação atual da mpb é um sucesso! todo mundo concordando: indigência, Lepo lepo, Anitta, popozudas etc.

 

Daqui do meu lugar de cantora, há 25 anos em plena atividade praticamente ignorada pela mídia oficial, tenho minhas observações a fazer, advogando, também, em causa própria.

 

Voltando rapidamente ao passado, depois de ter feito milhares de shows em todas as casas bacanas do RJ, tendo feito 10 anos de coisas incríveis ao lado de músicos idem, cantei durante cinco anos na Modern Sound, onde fiz 275 shows. Nenhum jornalista de música foi me ver. A imprensa, que quase não há nesta cidade e, salvo exceções, é monotemática, não dava nem tijolinho sobre o show, pq alegava ser atividade permanente, fora do interesse dos cadernos de cultura. Os jornalistas especializados nunca apareceram, apesar de fartamente convidados por mim. Nunca uma linha numa coluna pra dizer: existe, no Rio, uma cantora que fez 275 shows lotados, sábados à tarde, no templo adorado da Modern Sound.

 

É uma delicada rede de silêncio: sem o jornalista dar uma nota, sem a imprensa falar, o público fica desinformado e eu e todos na minha situação, deixamos de existir oficialmente, tendo que correr por fora, eternamente clandestinos, iniciantes, aspirantes. Inventando formas de existir num universo paralelo ao da mpb oficial.

 

Nestes 25 anos, lancei 5 discos solo, cujos shows de lançamento foram solenemente ignorados pela mídia (não estou falando de crítica aos discos, que tive). Independentemente da qualidade do meu trabalho, ele existe, não estou louca. A apreciação vai de cada um. Mas como provar que ele existe, se ele não existe oficialmente? No nosso ambiente, só existe oficialmente o que tem a anuência da imprensa, da tv, do rádio. O público espera essa autorização, essa recomendação. E nós não aparecemos na TV, não tocamos no rádio e não saímos no jornal. Logo, não existimos.

 

Sou do Arranco de Varsóvia, há 13 anos, lançamos três cds e um DVD neste período. Que eu saiba, também nunca tivemos a presença de um jornalista de música na nossa plateia. Mesmo com prêmios, com parcerias nobres e uma atividade permanente e pioneira, há 20 anos.

 

Há 4 anos sou a única artista residente da única casa de jazz internacional desta cidade. Um templo da música boa, dessa sobre a qual se falou tanto hoje nas linhas do tempo. Isso é um lugar raro de se estar, como cantora, numa cidade como o Rio de Janeiro. Já recebi a canja de artistas incríveis, de músicos de todo o mundo, de plateias vip, mas nunca, jamais, em tempo algum, vi um jornalista de música na plateia da casa, com exceção da Eugenia Rodrigues. Essa pauta, que já tentei vender mil vezes, não interessa a ninguém. Ok, então, não precisa falar sobre mim. Mas, sobre a casa, sim! É obrigatório falar, pq ela é um lugar da excelência, onde a música e o músico são tratados com um respeito que não se vê nesta cidade. Não é uma casa de festa, com música pra vender cerveja, Mas nem tijolinho a gente consegue. “não sobra espaço”, dizem.

 

Vivo escutando, das pessoas que gostam da minha música, que eu não divulgo meu trabalho, que o mundo deveria conhecer meu disco novo, que o que faço é maravilhoso demais pra ser ignorado. Como se eu quisesse manter meu trabalho em segredo, pra meia dúzia de admiradores. Como se eu não estivesse tentando, querendo, precisando e merecendo essa expansão. Tento sem parar, quero, preciso e mereço, mas não tenho braços pra, sozinha, remar esse barco. Nenhum artista tem. Dinheiro ajuda, mas não resolve. Cada vez q eu vejo um show maravilhoso com plateia vazia, eu lembro do quanto as pessoas reclamam do panorama da música ruim, sem levantar da frente do óbvio para ir ver o mundo real, onde artistas reais criam, vivem, trabalham e renovam, sim, a boa música brasileira de cada dia.

podem me prender, podem me bater e podem até deixar-me sem comer que eu não mudo de opinião. daqui do morro eu não saio, não.

acordei travada. nunca na vida tive a sensação de que não conseguiria andar. status:

a p a v o r a n t e

tentei metaforizar: será um desejo inconsciente de não prosseguir, medo da pista ou uma evidência metafórica, física, dos percalços do caminho? logo agora, neste momento produtivo e crédulo, em que a reverberação dos meus movimentos se propaga em círculos cada vez mais amplos, como desejei? sos médico, injeção, bomba analgésica.  zonza, capenga, lá fui eu fazer meu show semanal, no Semente, Lapa. a casa começou a encher. muitos músicos chegando com seus instrumentos, todos da novíssima geração, gente que nem conheço, só conheço de nome ou de vista. Isso tudo junto deve ter algum significado, pensei, principalmente porque o hoax do momento, presente em todas as rodas de conversa on e offline, era o tal fim do mundo, a partir da 00h de hj.

começa o som, a perna reclamando, eu respirando: vamos, amiga, vamos lá. o oxigênio entrando lavando tudo, água, muita água, suor descendo pelas costas e pelas pernas, música entrando pelos ouvidos, a voz brotando de tudo, a vibração modificando o ambiente. mais músicos chegando. um desembainha seu sete cordas, outro sapeca o pandeiro, outro afina o bandolim, outro ataca de sax. qto tempo se passou, qtas músicas tocamos, qtos solos maravilhosos e qtos músicos talentosos tocaram com a gente? nem sei. o público chegando junto. inebriada pela música, pelo coro da plateia, pelos sorrisos em todos os rostos, pelo fim do mundo, me sinto carregada no colo pela vida. trégua. mais uma vez eu fui salva pela música. eu, meus companheiros de tantos anos de fé, meus novos amigos, meus futuros amigos, todo mundo ali pela música, sem nome, sem idade, sem pressa nem vontade de chegar no fim. se eu tivesse sucumbido à dor, teria vivido plenamente a dor e perdido a delícia. então é por isso que o show tem que continuar, é por isso!

nós iremos achar o tom, um acorde com lindo som, e fazer com que fique bom, outra vez!

 

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