vida de bailarina

02/04/2013

diálogo entre dois gatinhos, entreouvido na academia:
“po, cara, tu tem que ver a comida que eu fiz hj (se olhando no espelho, levantando a camisa pra apalpar os gominhos do tanque): peito de frango grelhado, omelete de 6 claras, arroz integral e salada.”
o interlocutor, tb se olhando no espelho, responde: “po, e eu? peito de peru e um pratão de verdura sem azeite e sem sal. vou ficar sequinho, broder”
“podicrê, mermão”

quitandeiro, leva cheiro e tomate na casa do chocolate, que hoje vai ter macarrão

pesos e medidas

01/03/2011

na academia grudada no meu prédio a música está aos gritos. e os professores vociferam palavras de estimulo: “vamos lá, pessoal, o carnaval taí”.

cruzo na rua com um casal sobre-humano, com roupa de malhação. Ela toda aplicada. Aplique no cabelo, no peito, na unha, na boca, cara pálida de peeling. Ele parecia o minotauro.

vou correr na praia desesperada por resultados, amaldiçoando toda a minha cadeia genética por passar a vida toda correndo atrás desse prejuízo que nasceu comigo, me atormenta e não me larga.  já tem aplique de dna no mercado? to dentro!

lembro de uma mulher que vi na TV e nunca mais esqueci. Carioca, casada com estrangeiro, morando no interior de outro país, longe desse insensato balneário, ela me parecia perfeitamente feliz com sua sandália feiosa e confortável, com seu vestido larguinho, unsexy e confortável, com seus cabelos curtos enbranquecendo confortavelmente. Bem à vontade com suas formas fartas e com as grandes bochechas rosadas, quase infantis. O marido, amarradão. Lá ela era uma mulher. Aqui seria apenas uma baranga.

Aturdida por tantos pesos e medidas, cruzo com um menino de uns 14 anos, todo arrumadinho, perfumadinho, bermuda impecavelmente branca, puxando de uma perna, como se tivesse tido pólio (inda existe?). Acompanho o esforço que ele faz pra atravessar a rua com dignidade, mesmo com aquele balanço claudicante semi-cômico. Sinto uma dor asfixiante como se, de uma vez só, eu sentisse toda a rejeição, toda a repulsa de que ele é alvo, toda revolta secreta que ele vai sentir na vida por não entender porque isso aconteceu justo com ele. Sinto um amor profundo cujo nome não sei. E lá vou eu, chorando pela rua, com meu passo firme, minhas pernas perfeitas e meus probleminhas.

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