aceito a generosa oferta de um amigo para fazer, na base da amizade,  um video release sobre minha carreira, peça publicitária fundamental e cara nos dias de hoje, uma espécie de cartão de visita virtual, chamado por alguns de EPK, electronic press kit.

– Reúne tudo seu, de todos os tempos, videos, fotos, recortes de jornais, o que vc tiver documentado.

Apreensiva, fico parada em frente ao armário onde guardo 20 anos de fitas velhas de video, recortes de jornais elogiando, metendo o malho, documentando a vida toda. As fotos estão numa mala imitação de Louis Vuitton, que ganhei e nunca usei pq acho uó de cafona.

Tenho medo de abrir a porta e ser soterrada por uma avalanche de lembranças, de saudades, de frustrações, de esquecimentos confortáveis. Detesto rever o passado. Sou contra filmar festas de aniversário. Não gosto de rever nada. O tempo grita comigo e eu abaixo a cabeça, vencida. Meu tempo é right here right now.

Decido que hoje não tenho condições emocionais de rever minha carreira, muito menos de ser simplesmente técnica e mandar ver na arqueologia pessoal sem me envolver. Eu sou do tipo que chora quando arruma estante de livro, pq vou lembrando de situações, de pessoas, de coisas que enriqueceram a minha bi(bli)ografia.

Continuo, como diz o joão, making memories, mas quase não guardo recortes de jornal, pq aquela papelada amarela vai me dando uma sensação de antiguidade que me lembra a casa do Serguei, em Saquarema, onde todas as paredes eram revestidas por recortes de jornal sobre ele, bandeiras com a língua dos Stones, autógrafos da Janis… coisas antiquíssimas, testemunhas da passagem inexorável do tempo, o pior inimigo da minha atualidade. Embora eu esteja num momento feliz da minha carreira, não estou pronta para rever o grande amor. Hoje, só amanhã…

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