Fatima Guedes reina soberana, rainha imperatriz da composição popular brasileira. Ela borda lindas melodias, doma harmonias e preenche o palco com a certeza absoluta de tudo o que é. Intérprete vigorosa e entregue, ela paira muito acima de nós, humildes servos, ajoelhados aos seus pés. Ela é o topo da cadeia alimentar.

Fatima merece um trono todo de ouro, uma estátua em praça pública, um monumento. A música dela sempre me encantou. Mas agora que eu sou uma mulher feita, a música dela reverbera dentro de mim com propriedade. Ali estão todas as filigranas de tudo, decupadas pelo olhar arguto dela.

Fatima faz música para adultos, para os vivos, para nós, os aprendizes. Quase acabei com os guardanapos da Lapinha, de tanto que chorei. Um choro que começava com a música e ia ecoando lá dentro de mim, cantora, mulher, vida difícil, a minha coleção de frustrações, os mil sonhos que nunca se realizarão. Os amores que não tive, os que tive, os que perdi. Tudo passou dentro de mim, rio caudaloso da minha emoção aflorada, vinho tinto, solidão retumbando dentro do peito.

Olhando pra ela ali, cantando as músicas mais lindas do mundo, chorei por ela, pensando em quanta frustração ela deve colecionar neste país de surdos, esse mercado risível, esse amadorismo permanente com que se trata a boa música e os bons músicos neste país. Dificilimo encontrar um CD dela para comprar. No youtube, só material caseiro. Ela, a mais genial, linda, completa, inteira. Uma mulher preciosamente comum, sem firulas, sem brincos, sem sapato, vivendo aos turbilhões. Fatima, no meu altar vc é deusa. De mim, vc tem todo o reconhecimento que merece. E, humildemente, junto minha voz ao seu canto: “Eu também quero ser, quem não quer? Quero ser feliz”.

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