to aqui pra isso, mesmo. pra me apropriar do que tá sobre a terra, minha casa. pra me apropriar da cultura de outros povos, meus irmãos. compartilhar, repartir, somar, dividir, imitar, ser imitada, copiar e ser copiada. se eu quiser usar turbante, eu uso. se eu quiser falar tupi-guarani, eu falo. se eu quiser cantar jazz, eu canto.

existe esse movimento que diz que um ocidental não deve aprender japonês, que mulheres brancas não devem usar turbantes, que gordos não podem falar de magros, que homens não podem falar de mulheres e assim por diante, na maior pregação popular de segregação e alijamento sócio-cultural.

todo o saber humano, toda catalogação da cultura, todo estudo, toda literatura, toda bibliografia pra nada. seculum seculorum de transmissão oral de cultura, de escribas, de monges, de iluminuras, de penas e nanquim, de escolas peripatéticas, de seminários, de  renascimento. aulas, sábios, mestres, mentores, doutores honoris causa, bibliotecas, universidades. nada. todo saber acumulado pela humanidade em sua aventura neste planeta, nesta forma de vida, sobre esta terra, confinado, escondido, trancafiado no seu lugar de origem. depois reclamam de censura, de estado religioso, de ditadura, de fundamentalismo. um mundo que cerceia a apropriação cultural é um mundo que cultiva a ignorância, as fronteiras entre os povos, as guerras de poder.

dá licença, rezo pro deus que eu quiser, na língua que eu bem entender. é tudo meu. e nada me pertence.

tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior, com todo mundo podendo brilhar num cântico

arte*

16/08/2013

Há um lugar onde só a arte nos leva. No seu colo generoso, sem etnia, sem gênero, sem estratificação social, sem educação e sem pátria, só ela é capaz de convidar a mergulhos inomináveis, e provocar sentimentos sem precedência; em todo o léxico nenhuma palavra a descreve. E por isso a experiência da arte é peculiar, arrebatadora, orgânica e individual. Acorda o corpo, desperta os sentidos, sacode a poeira, instaura novidades. Desafia o entendimento e faz perguntas que não sabemos responder com a pequenez da nossa vivência adestrada para gostos, sabores, achismos e definições. Só arte é capaz de, sem compromissos, afirmar a essência da natureza humana. Só a arte nos compreende, só a arte nos traduz, só a arte nos redime.

A arte projeta luz na matéria anterior ao pensamento, incita sinapses, cutuca e conforta. Como uma reza, apazigua a alma dos incompreendidos e acorda os mortos do mais-ou-menos da existência cheia de limites do corpo, da forma, da medida, do saber, dos nomes, dos predicados, dos sujeitos. A arte é o homem em toda a grandeza das suas possibilidades.

A arte é a divindade a quem me rendo, na frente de quem me ajoelho e peço, em oração, para jamais cair na solução fácil do pequeno poder do saber pífio, das reduções. É na arte que me largo nos braços da dança cósmica, que me liberto para ser filha do universo, criatura criadeira, um ser uno em consonância com todos os tempos, irmã de todos os mistérios ainda por revelar, sem a pretensão de dominar segredos ou formular soluções. Ante sua arrebatadora majestade, choro de amor, humilde súdita. Só beleza, perplexidade, entrega, aprendizado, alegria e doação. A arte é deus.

*este post foi provocado pelo musical Gonzagão – A lenda. Uma das coisas mais lindas que eu vi na vida. se derem a sorte, vejam.

%d blogueiros gostam disto: