machismo

07/06/2017

O cara namorava uma gordinha, como eu, que ele julgava “mais largada” do que eu. Como trabalhássemos juntos, de vez em quando, pra desestabilizar a namorada, sugeria que tinha rolado “um lance” entre mim e ele. Lance que nunca rolou. A mulher passou anos achando que eu tinha sido a safada que ficou com o namorado dela, nas barbas dela. E nunca fiquei. Soube disso porque ela me contou.

Esse cara é uó, sempre dois degraus afundado na lama, sempre parece sujo, virado, doidão, desagradável. Nenhuma mulher do mundo merece um homem como ele. Como vive no meio de músicos, tradicionalmente a classe mais machista que conheci na vida, ninguém se importa de ele ser um escroto, é um queridão da galera. Um escroto.

Teve filho com uma, e largou pra lá. Teve outro filho. Que ele vai largar assim que a criança começar a chorar na cabeça dele. Paquerar por hábito é a lei desse tipo de homem. Sempre uma palavrinha safadinha, uma insinuaçãozinha, como se ele estivesse sempre pronto para um sexo selvagem e inesquecível que vc nunca experimentou na vida.

Outro dia entrei sozinha num bar. Lá estava ele, o seboso. Sentei em outra mesa. Ele virou pra falar comigo, sorrindo, como se eu talvez não tivesse visto que ele estava lá. Mas eu tinha visto. E não falei com ele porque ele é um escroto.

A verdade é que tinha falado com ele outras vezes, mas me dei conta do meu machismo, da minha própria falta de decência e de senso de coletividade e respeito por mim mesma e pelas outras mulheres, e decidi parar de ser legal com ele e com todos os outros desse tipinho. O machismo que a gente engole, sublima, justifica, multiplica e apoia é o mais nocivo, porque credencia o cara a continuar, com aval de mulher. To de olho em mim mesma, a cada minuto, tentando aprender a ser uma mulher melhor.

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