Fui interrompida por dois acidentes consecutivos nos ultimos 20 dias. Uma queimadura de 2º grau na mão, que me deixou parcialmente fora de combate (e daqui) e agora um acidente de carro, que deixou o saldo (barato) de uma costela quebrada e, pelo menos, mais duas semanas de repouso, desconforto e tal. Quando o carro veio na minha direção, achei que fosse morrer ali, na esquina de casa, voltando de um show. Mas cá estou, tinindo, a costela trincando.

O contato com a delicadeza da saúde, a fragilidade do meu corpo e as fatalidades, o acidente per se, me pareceram energéticamente pertinentes, pq estou toda interrompida, em todas as áreas da minha vida, desguarnecida, hopeless. Parece que a vida resolveu me botar de castigo e me deixar de fora. Se eu pudesse e se meu dinheiro desse, aceitaria o momento com passividade, e passaria tranquilamente 3 meses dada como desaparecida, fazendo uma expedição no Xingu, um voto de silencio no Tibete ou um curso maravilhoso de harmonia intensiva em Juilliard. Mas o mais longe que posso ir é mesmo à praia (se o sol, algum dia, voltar), o que já é uma grande maravilha, perto do que vi nesses dias. O lado mais feio, sujo e fedido da vida, o que ninguém quer ver. A pobreza é um deles, a doença é outro. Ver os dois ao mesmo tempo dá arrepios e reforça a certeza que eu sempre tive. Claro que não existe deus. Nem paraíso pra ir se refrescar  depois, nem inferno pra mandar quem deveria ir pra lá.

Atendida na emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, assisti a cenas de terror. De equipamentos e funcionários que não funcionavam, de filas de horas e horas e horas de espera, de um ambulatório fétido, lotado de gente sangrando, doentes, velhinhos sem atendimento, um médico aturdido, enfermeiras enfastiadas e muuuuita pobreza. Banheiro sem porta, papel higiênico, nem pensar. E esse, dizem, é o que tem de melhor no município, a melhor emergência possível, melhor até do que os hospitais particulares. Mentira. O técnico de raio -x que me atendeu nao sabia como me radiografar e nem sua colega. Tentaram adivinhar, enquanto eu segurava com o queixo uma parte do equipamento que despencava pela parede.

Se a vida andava me achando mimada demais, precisada de ver umas tais verdades, ok. Embora eu seja mimada, em geral, eu sou um tipo grato, que sabe quando é feliz e vc que é meu leitor, sabe o qto vejo de beleza na vida. Mas ando realmente paralisada e infeliz e se era pra eu me sentir feliz com o contraste, pra dar graças a deus pelo que tenho, nao deu certo. Se essa era a lição pra aprender, sorry, nao foi dessa vez. Fiquei ainda mais infeliz e revoltada do que já estava, com mais vontade de desaparecer.

Completamente descrente de tudo, não acredito em ninguém e acho que nada vai mudar ou melhorar. Ao contrário, acho que tudo fica sempre muito pior. Imagino o Rio de Janeiro, em dez anos, coberto de favelas, no sopé do Cristo Redentor, no morro Dois Irmãos, no Pão de Açúcar. Os cartões postais da cidade tomados de barracos e pobreza, de muito mais gente invisível na fila do Miguel Couto. E os políticos assistindo passivamente a tudo e dizendo: Não temos recursos.

E quando entro naquele hospital, com aquela gente desesperada, feia, pobre, suja, sem saída e sem recursos, num país que, dizem os números, é a última coca cola do deserto, tenho vontade de queimar uns ônibus, sequestrar uns embaixadores e deixar o prefeito, o governador e toda a sua linda família de mauricinhos e patricinhas, dormindo uma noite no Miguel Couto, para que esses filhos de puta tomem um sacode e façam alguma coisa pelos palhaços que os elegem. Meu voto não levam. Nem eles, nem ninguém, pois não pratico mais esse esporte.

Serginho Cabral e  Eduardo Paes, shame on you! Só lamento realmente que não haja um inferno, para vcs arderem lá para sempre!

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