arte*

16/08/2013

Há um lugar onde só a arte nos leva. No seu colo generoso, sem etnia, sem gênero, sem estratificação social, sem educação e sem pátria, só ela é capaz de convidar a mergulhos inomináveis, e provocar sentimentos sem precedência; em todo o léxico nenhuma palavra a descreve. E por isso a experiência da arte é peculiar, arrebatadora, orgânica e individual. Acorda o corpo, desperta os sentidos, sacode a poeira, instaura novidades. Desafia o entendimento e faz perguntas que não sabemos responder com a pequenez da nossa vivência adestrada para gostos, sabores, achismos e definições. Só arte é capaz de, sem compromissos, afirmar a essência da natureza humana. Só a arte nos compreende, só a arte nos traduz, só a arte nos redime.

A arte projeta luz na matéria anterior ao pensamento, incita sinapses, cutuca e conforta. Como uma reza, apazigua a alma dos incompreendidos e acorda os mortos do mais-ou-menos da existência cheia de limites do corpo, da forma, da medida, do saber, dos nomes, dos predicados, dos sujeitos. A arte é o homem em toda a grandeza das suas possibilidades.

A arte é a divindade a quem me rendo, na frente de quem me ajoelho e peço, em oração, para jamais cair na solução fácil do pequeno poder do saber pífio, das reduções. É na arte que me largo nos braços da dança cósmica, que me liberto para ser filha do universo, criatura criadeira, um ser uno em consonância com todos os tempos, irmã de todos os mistérios ainda por revelar, sem a pretensão de dominar segredos ou formular soluções. Ante sua arrebatadora majestade, choro de amor, humilde súdita. Só beleza, perplexidade, entrega, aprendizado, alegria e doação. A arte é deus.

*este post foi provocado pelo musical Gonzagão – A lenda. Uma das coisas mais lindas que eu vi na vida. se derem a sorte, vejam.

ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. Mora na lapa, trabalha na lapa. Pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. Em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. Embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. É a excelência da raça, tentar outras saídas. Meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

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