Quase páscoa, entro num taxi. No rádio, mulheres conversam sobre como fazer para não perder a forma na Páscoa, como congelar ovos de páscoa e ir descongelando aos poucos, pra que durem o ano todo, mais ou menos até chegar o Natal, dica estranha…

Confesso que  estou cansada. Tanta regra, tantas ordens, tantos do’s & dont’s. Me sinto uma megera indomável, the untamable shrew. Dentro de mim mora um dragão que solta fogo pelas ventas a cada vez que alguém me dá uma ordem, inclusive eu mesma. Sempre chamuscada, vivo  pra amansar o dragão. “Calma-te carinõ!” pra cá, “Calma, Conga!” pra lá… Cansa.

O fato é que eu comentei com o motorista: “… chatice de mundo, tanta regra pra atender, não é mais possível ser feliz! Meu sonho é ouvir um conselho assim: Se for da sua preferência, devore todos os ovos no mesmo dia, um após o outro, sem a menor culpa. Exercite ultrapassar limites e desafie o establishment de vez em quando. Contrarie sua mãe, seu chefe, o padrão estético, seu médico, sua melhor amiga, sua crença e seu deus. A Páscoa é ótima pra isso, só tem uma vez no ano…  Eu quero vida com prazer”.

O motorista virou-se pra me olhar, e disse, enfático: “É isso aí, é isso que eu acho tb! A vida foi feita para ser vivida, para ter prazer. O cara td certinho é um chato, faz tudo que a mamãe aplaude, que o papai se orgulha, que a sociedade acha lindo. Um chato que não admite erros. Nós somos cheios de faltas.”

Vendo que uma loja de sapatos que eu amo estava liquidando, doida para cometer um pequeno excesso, gritei: “Pára aqui, moço! Vou descer!”. E ele: “Mas já? O papo tava tão bom… vou te dar meu telefone pra vc me ligar pra bater papo. Difícil um papo bom assim…”

Pela tangente, respondo: “Ih, eu sou comprometida, não vou pegar seu tel”

E ele, objetivo: “Mas não é pra compromisso, não”

A libertina que abriga um dragão agradou o motorista. Mas, talvez, por obediência ao establishment, sinhá pagou a corrida e saiu sem pegar o tel do cara. Mas que sapato lindo!

 

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