tanto

28/12/2012

2012 está no top 3 dos anos mais agudos da minha vida:

nunca estive tão pobre, tão fudida, tão sem perspectivas;

nunca tinha tido um problema sério de saúde e essas coisas que nos humanizam;

nunca fui tão prestigiada como artista, tão amada, tão respeitada, tão incrivelmente bendita entre aqueles que admiro;

nunca tinha tido um produtor tão amável, que me deu um disco que eu desejava tanto fazer;

nunca tive tanta certeza do que estou fazendo;

nunca fui tão ajudada;

nunca fui tão despojada, tão desguarnecida, tão desapegada e tão plena;

nunca fui tão inteira. e tão crua.

é muito, é tanto….

Eu sempre quis muito Mesmo que parecesse ser modesto Juro que eu não presto Eu sou muito louco, muito Mas na sua presença O meu desejo Parece pequeno Muito é muito pouco, muito

fui cantar numa casa na Lapa, baile começando depois de meia noite, acabando depois das 3. Trabalho normal pra um cantor da noite.  Vez por outra pinta uma empreitada dessas e eu vou, pq vcs sabem: eu poderia estar roubando, mas prefiro ganhar meu dinheirinho cantando.

A casa estava fervendo, faixa etária sub-30. Quando eu subi no palco, reparei que os meninos eram bonitos e malhados, camiseta justa pra mostrar o bração. As meninas também bonitonas, vestidinho, cabelão. Todos tiram fotos de si mesmos o tempo todo. Fazem boquinha, entortam a cabecinha e clic! Tudo sexo, tudo sedução.

Eles bebem, como bebem! Bebem, literalmente, de cair. E olha que eu ando com gente que bebe, com bacharel em boemia, gente grande. Mas os meninos e as meninas compram um combo de garrafas de vodca com latas de red bull e bebem até perderem os reflexos.

Passei a noite inteira sendo assediada, interrompida, incomodada por uns 4 ou 5 débeis mentais que estavam navegando por instrumentos, sem conseguir mais nem ficar em pé, me chamando, querendo subir no palco, me pedindo pra tirar foto com eles, insandecidos sem noção. Completamente dopados e inconscientes e alcoolizados. Testosterona, energético e álcool em mega doses, quadro feio de se assistir. (penso na mãe da criatura vendo o filho nesse estado. Ela nem sonha…)

Valentes, se achando lindos e lindas, foi um perdendo a linha depois do outro, tropeçando, arrumando confusão, gatinhas passando mal no banheiro, um strike de mal gosto. Eu vejo tudo do palco, ao longo da noite. É assim, não é bom nem ruim.

No andar de baixo, missão cumprida, peço o x-músico com guaraná. No telão, um campeonato de Vale Tudo mostra lutadores que fazem cara de mau e armam o pavão pra bater e apanhar na frente de todo mundo. Aquela cara de mau, sabe? Que a gente faz quando é criança? Eles fazem essa cara seriamente, um pro outro, como se fossem dois cachorros de rinha rosnando, dois galos de briga atiçados, prontos pra matar e morrer. A mim parece cômico, ridículo.

O brasileiro ensopapa o chicano de bigodinho chinês, soca a cara dele salivando de prazer até o sangue jorrar e a torcida agradecida se encantar. Meu estomago virou e revirou com a sequencia de socos, me arrepiei, virei de costas. Violência aplaudida e cultivada, que vale milhões, em nome do esporte. Tipo a Santa Inquisição, em nome de deus.

Pela escada lateral do bar um menino rola e cai ao lado da lata de lixo, outros vêm correndo e gritando, um deles cai de cara no chão, outro pega o cone de segurança pra tacar no adversário. A turma do deixa-disso aparece, eles saem ganindo como cães, fazendo aquela mesma cara de mau que eu tinha visto na TV. Essa é a noitada maneira do cara, que ele repete semanalmente. A night to remember e pra contar pra todo mundo: “mermãão, bebemos pra carai, saímo na porrada, véi, irado”.

Quando a câmera se aproxima do lutador vitorioso, ele capricha na cara de mau e passa o polegar de um lado a outro do pescoço, como quem diz: cortei a cabeça dele fora. E com as duas mãos faz, pra lente, um gesto chamando o mundo pra porrada: pode vir, vem se tu é macho. E sai triunfante, carregado nos ombros por meia dúzia de mucamos orgulhosos.

It’s war. Salve-se quem puder, e aos seus.

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