complete makeover

09/05/2017

Adoro maquiagem, desde sempre e, como já fiz de tudo um pouco, andei por aí maquiando amigas sem o talento pro negócio, e algumas mulheres da família, em ocasiões especiais.

Comprei uma maleta de ferramentas, enchi de maquiagem e acessórios e lá ia eu, quando tinha 20 e poucos anos, maquiando amigas em camarins e festas. Nos anos 80, comprei um delineador no brechó pq, estranhamente, não havia delineadores à venda no Rio e fazia olhos muito pretos, com o delineador bem puxado, olhos de Marylin. Logo depois, a moda voltou. Aos 17 anos, eu usava sombra preta, degradée, esfumada, muito kajal e levava o lápis preto na bolsa, para retoques e o brilho roll-on Lip Potion, sabor chocolate com menta, pra dar aquela finalizada no look 80’s.

Quando eu maquiava minha mãe, lá pelos seus 40 e tal,  percebi que, com o tempo, foi se tornando necessário puxar o olho pra esticar a pele da pálpebra, que não tinha o tônus dos meus 20 aninhos. Discreta, pra não chatear a minha mãe, nunca fiz qq comentário sobre o assunto e fui o mais cuidadosa possível com as marcas do tempo na sua linda pele e seu lindo rosto. Minha mãe é linda ainda hoje, aos 80, provavelmente pq nunca fez um botox ou uma plástica na vida.

Dia desses, me maquiando para um show, percebi que uma pálpebra está mais caidinha que a outra, e que preciso dar aquela puxadinha pra esticar a pele e a maquiagem ficar perfeita. E nem fica muito, pq a gravidade é uma realidade inexorável que me faz entender porque existe cirurgia plástica e porque tantas pessoas recorrem a ela. Não é fácil ver o rosto mudar de forma, a pele mudar de textura, de cor, de tudo. Não é fácil fazer a passagem para a maturidade, ainda mais quando a gente se sente tão jovem, com a vida inteira pela frente. Meus olhos não correspondem ao meu fogo interior.

Por fora sou uma jovem-coroa gordinha de Copacabana, com cabelos cor de fogo. Desglamurizada do meu nome, da minha profissão, da minha distinção. Apenas mais uma coroa ruiva, gordinha e simpática de vestidinho florido e sandalinha, passeando pela rua de Copacabana, com meus brincos, minhas pulseiras, mais uma. O anonimato é uma bênção. Que conforto simplesmente ser uma qualquer. E ver que o tempo deixa a pele cansada, mas revigora a alma.

um post de peso

25/10/2011

Qdo minha mãe me levou, pela primeira vez, ao médico de regime, eu tinha uns 13 anos. Ele disse: “tadinha, está horrível!” Ela disse: “A família do meu marido é de gordos…” Ele disse: “É… a culpa é sempre do marido…” Fui a mil médicos desde então.

Uma maldição genética. Guardei, a vida toda, temor e ódio profundo dessa herança. Eu só comecei a ser gorda, mesmo, a partir dos 9 anos, quando comecei minha primeira dieta. Aos 3, qdo eu tinha apenas bochechas de bebê, meu tio – gordo – me apelidou de Gorda. Era um jeito de ser carinhoso. Gorda.  Se fosse hoje, seria bullying.  Ser gorda me aterrorizou a vida toda, aquele shape familiar me assombrou e, enfim, meu pesadelo se realizou!

Engordei muito, cada vez mais, emagreci muito. Inúmeras vezes, sempre achando que era a última vez. Me exibi, me escondi. Desisti da dança: gorda não dança. Vivi a maior parte da minha vida envergonhada de mim, andando na beirinha do mundo, mudando de calçada, tentando me recolher à minha insignificância de casta inferior, de gorda-sem-vergonha. Silenciei. Sonhei. Fracassei. Não é nada fácil ser uma garota gorda no Rio de Janeiro, cidade onde é obrigatório ser gostosa e passar a vida de biquíni, de vestido de alcinha e de shortinho. Passei dez anos de roupa preta e pele branca, uma saída honrosa do imperialismo tropical carioca. Sofri bullying de mim mesma, odiei meu corpo a vida toda. Sempre tive minha deficiência apontada pelos olhares e comentários da família, dos amigos, e até pelo porteiro desconhecido: “Tem uma moça forte aqui na portaria”.

Fui agredida como A gorda, na rua, muitas vezes. Houve pessoas q pararam seus carros, abriram os vidros, desaceleraram, só pra me sacanear qdo eu estava pedalando ou caminhando ou até correndo na praia: “Vai, baleeeia, tu tem é que correr até a África” ou “Vai arriar o pneu da bicicleeetaaaaa, sua escroooota!” Nunca contei pra ninguém porque, de certa forma, achei que era o que eu merecia ouvir. Tomava aquele tiro frio e chorava na bicicleta, mas continuava. Sempre que emagreci, pessoas que nem falavam comigo me enxergaram, outras quiseram até me namorar. Eu sempre achei que eles estavam certos. Tento entender todos os lados, meus e deles. Todos os pesos e medidas. Coisa de gordo isso de ser compreensivo demais.

Se houvesse um milagre, me candidataria, mas não acredito em milagres. Nem naqueles que eu mesma operei, pq dentro de mim, existe alguma coisa que jamais mudou e que, a essa altura, acho que jamais mudará. Antes, nem queria emagrecer, para não passar pela infelicidade certa de engordar. Hoje, sem forças pra mudar tudo de novo, vejo aquele velho pesadelo tomar o lugar do meu sonho, no espelho. Na minha idade, será que não está na hora de começar a me aceitar?

Pra conseguir sobreviver, armei uma carapaça de poder e coragem e subi no palco. Perdi alguns trabalhos por ser gorda e compreendi, pq sempre carreguei a sensação de ser “nigger of the world”, e me recolhi, com a submissão dos que se compreendem inferiores. Semi-invisível, desfeminilizada pelo mundo, aprendi a ser uma gorda legal, de personalidade. A confidente do amigo gatinho que tava a fim da amiga gatinha. A boa cia, bom papo, bom copo, um tipo de mulher-cão, melhor amiga do homem. Mas nunca a convidada para o reservado do restaurante japonês. Fui infeliz no amor a vida toda. Minha sensação de inferioridade pautou a minha vida afetiva.

Sofri, mas inventei um lugar pra existir. Fiz de tudo pra mudar, mudei por alguns períodos em que quase acreditei na transformação definitiva, mas sempre sucumbi e, dentro de mim, alguma coisa sempre me impulsionou de volta à velha forma. Nunca foi confortável ser eu mesma, mas sobrevivi, mesmo deficiente. Meu handicap foi ser inteligente, multitalentosa. E como todas as pessoas sobre a terra, mesmo as marcadas, tenho meus momentos de distração e felicidade.

Leio as pessoas falando do sobrepeso, do outrora amado Ronaldinho, com nojo, com desprezo, com sarcasmo. As pessoas têm horror a gente gorda, mulher gorda, então… piadas, livros, humor negro. Também tenho preconceito contra gordo, é óbvio, depois de tanta discriminação, rejeição e infelicidade. Mas estou aqui escrevendo sobre isso, tornando pública essa intimidade, pq de repente senti essa necessidade. Pq sei que tem um monte de gente que passa por isso e pq todas as outras pessoas não têm a menor idéia do que é passar por isso. Nesta sociedade, não acredito que seja possível ser gorda e feliz. É proibido estar acima do peso. A gente sublima, desiste, disfarça mas, no fundo, não abandona o sonho do milagre da metamorfose, de se misturar na multidão, de vestido de alcinha que, aliás, nunca usei.

Cansei de me desprezar, de me odiar, de me desculpar, de me esquivar, de me esconder, de sofrer por não ser quem eu não consigo ser. Por mais que todos os olhares, revistas, jornais e sites me mandem ser, desde que me entendo por gente. Cansei de viver tentando me entender e me explicar. Mais de 10 anos de terapias. E a vida toda de buscas, de tentativas silenciosas e disciplinadas de reprogramação, de rezas, esperanças e promessas, de projeção astral, de auto-sugestão, de hipnose, de deprê, de mudanças, dietas, bolinhas, drogas e radicalismos. Tudo.

Vivo tentando encontrar a cura para o meu defeito – ou seria pecado? – original. 30 anos lutando contra mim mesma. Rejeitada por mim mesma e pelo mundo, durante 30 anos, sem conseguir me modificar nem um milímetro. Até a astróloga fala: “com esse mapa, vc sempre vai ser farta”. Dureza.

Isso já doeu de arrancar pedaço. Agora dói um pouco menos. Sei que a recaída de um gordo é a maior entre os grandes viciados em drogas: 90% emagrecem e, depois de um tempo, reengordam. A vida tb comprova: quantos gordos, que vc conhece, emagreceram e nunca mais engordaram? Dos meus, nenhum, nem os que operaram o estômago. Então pq o mundo não pode simplesmente admitir que há gordos e magros e pretos e brancos e altos e baixos e gays e heteros. Todo iguais nas suas diferenças.

Antes que eu me condene à infelicidade da exclusão perpétua, de me recolher à vergonha do fracasso, e escolher viver à sombra permanente, me escorando nos cantos onde me sinto invisível, ou num personagem visível demais, hors concours, eu queria só conseguir me aceitar, relaxar, pra viver em paz. E queria falar sobre isso, pq esse tem sido um segredo insuportável de guardar. Sou a evidência física da sua existência. Olhando em volta, depois de tudo o que já vi, buscando algum conforto na inevitável maturidade, tenho certeza de que a vida é muito maior do que um número na balança ou numa etiqueta do guarda roupas. Talvez falando isso em voz alta, assumindo isso publicamente, eu consiga acreditar e me libertar para, enfim, ter paz.

Autoestima, voz, vida, talento, fazer meu trabalho, fazer sexo, amar e ser amada, correr, pedalar gorda ou magra, ir à praia de biquíni, pular carnaval, ser mulher. Quero o meu direito de ir e vir.

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