estou participando de uma espécie de congresso de música vocal, de 3 dias de duração. É um encontro internacional, com palestras e workshops o dia todo, tudo em torno dela: a voz. Dei de cara com meu passado de estudante, dos tempos da Pró-Arte. Meus colegas, que eram aspirantes, agora são eles os professores. Revi o filmezinho da minha história e me comovi. Não é que eu realmente fiz o que eu queria? não é que realmente vingou aquele desejo delirante? 25 anos depois, eu sou realmente cantora profissional, reconhecida e respeitada por isso, como um dia eu ousei querer ser. Ah, sou! e isso me enche de emoção e felicidade, pq eu fui lá e fiz, com todas as pedras do caminho, e isso é meu só meu.

coincidentemente, no mesmo CCBB tá rolando uma grande exposição sobre a vida da Elis. Hj sentei pra ouvir e ver Elis com olhos e ouvidos da cantora adulta que agora sou (onde coloquei esses 25 anos? que vertigem que me deu agora… como se eu tentasse subir uma escada rolante na contramão: esforço vão).

Ouvi Elis bem pouco na vida, nunca pra estudar. Na verdade, nunca ouvi cantoras pra estudar. Eu colocava os discos e cantava em cima, mas do meu jeito. Eu era a estrela. Nasci sem o dom de imitar e com excesso de personalidade. Hj, arrepiada dos pés à cabeça, surpreendida com lágrimas nos olhos, boquiaberta, vi uma Elis estupenda, num telão gigante, onde é possível ver toda a articulação do seu canto, a trajetória do ar, a embocadura, o corpo que se dá inteiro ao cantar, um bloco de emoção e técnica, tão perfeitamente natural e orgânico… E o amor profundo de todo o ser dela por cantar, o gozo, a completude. A gente adivinha a coluna de ar espiralada ascendente que atravessa a cantora (só as de verdade), e a eleva àquele lugar onde só a música coloca a gente, uma dimensão imaterial onde só existe respiração e som, e o vento bate por dentro, o sangue quente borbulha nas veias e a gente simplesmente se entrega à canção. Me peguei aos prantos, como se eu sentisse aqui a dor da Elis, a dor do silêncio da Elis.

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.*frase da Elis

Elis Regina é unanimidade, certo? Todo mundo acha Elis a melhor cantora do Brasil, certo? Errado. Cada vez mais tenho ouvido gente falar que não gostava da Elis, que achava ela debochada, antipática, que não gostava do repertório dela. Apesar de conquistar o público com sua emotividade e entrega, ela nunca foi uma cantora fofinha, namoradinha do Brasil. Tinha personalidade forte, escolhia músicas de compositores desconhecidos. Pra nós o repertório dela é hiper conhecido e  palatável. Na época não era. Mas a Elis cantava de rachar. Ontem, no rádio do taxi, fui surpreendida por uma Curvas da Estrada de Santos sinuosa, arrojada, quente, apaixonada. A voz fazendo milhares de percursos diferentes, de emissões, sem nunca perder o fio da interpretação, Elis se integrava ao que cantava, se misturava, la sangre…

Aqui, as curvas da estrada de Elis que, gurinha mermo, teria feito apenas 65 anos. Imaginem como ela estaria cantando agora? Ai, ai…

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* As curvas da estrada de Santos, de Roberto e Erasmo

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