para ouvir não é necessário apenas ter ouvidos. é necessário saber escutar. quando a gente coloca a nossa palavra à frente da palavra do outro, a gente não escuta. qtas vezes a gente deixa de ouvir o que uma pessoa está tentando nos dizer, só pq a gente acha que sabe o que ela pensa e, portanto, o que ela vai falar, e atropela e afasta o outro com a nossa presunção?

sem escutar, como é possível desfrutar da grande preciosidade da existência: as pessoas, suas verdades, suas visões, seus ângulos? sem ouvir, como é possível conhecer a vida, perceber que tudo há, que tudo pode, que o mundo é um carrossel de diferenças, todas do mesmo valor, todas ímpares? ouvir é uma libertação. sem ouvir não há troca, e a vida se torna um monólogo autorreferenciado, uma exposição de eus, uma interminável galeria de espelhos para narcisos desfilarem, orgulhosos, sua surdez retumbante. é um mal do tempo? é um reflexo de como as famílias se dão? de onde vem essa deficiência auditiva? incrível o contingente de surdos-mudos do egocentrismo absoluto, da mesquinharia auricular, do universo infértil onde não há alteridade.

tagarela, extrovertida, eloquente que sou, todos os dias me esforço para silenciar, para ouvir, não só com os ouvidos, mas com os olhos, com o tato, com o paladar, com o olfato. é no silêncio que mora a chance de aprender. mas para querer aprender, há que ter a consciência da ignorância e do seu monocromatismo tedioso. na surdez, mora apenas o vazio da vaidade, a esterilidade do ego, o falso movimento da galeria de espelhos.

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