no supermercado, no corredor de produtos de limpeza, vi uma velhinha negra, ressequida, magrinha, encurvada, caminhando arrastando os pés, em passinhos curtos e irregulares.

ela calçava um chinelo tipo pantufa, com meia surradinha branca, uma saia marrom, abaixo do joelho e uma camiseta, pra fora da saia, com uma nossa senhora flutuando em nuvens azuis. o cabelo branquinho estava mal amarrado num coque pequeno. parecia desprovida de vaidade, embora estivesse limpa. carregava uma sacola com uma outra santa estampada. fé, pensei, como pode ter fé? eu, que to aqui inteira (quase), bonitona (quase), nova (quase) não sei que deuses restituiriam a minha fé. adoraria encontra-la, para estampar no rosto aquele sorriso aparvalhado dos que crêem. ela, velha, de pantufas na rua, estampa a fé no peito.

acometida de uma compaixão humana que nem sei se ela merece ou deseja, pq a infelicidade dela é uma fantasia minha, me dou conta de que aquela velhinha já foi uma criança e, depois,  uma mocinha. saio do supermercado, mais uma vez, chorando pela rua, pensando nos vestidos que a mocinha queria ter,  mas não podia, nos sonhos que ela ousou sonhar, e não realizou, no futuro que ela desejava ter, mas não teve, nos anseios de amores não consumados. A certa altura vejo que meus sonhos frustrados se misturam com os que atribui a ela, e já nem sei mais por quem estou chorando, por que sonhos, por que fracassos.

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