o primeiro trabalho que fiz, como cantora, foi de vocalista de um cantor, já falecido, chamado Robson Teixeira. Ele fazia um trabalho autoral que seria incrível até hoje. Pop rock anos 80 com influencias de bandas bacanas europeias. A primeira vez que meu nome apareceu no jornal, como cantora, foi em 1983, justamente num show dele, num local chamado Beco da Pimenta, na Real Grandeza.
Esse cara foi um guru pra mim. Mais velho, gay, casado, viajado, culto, me apresentou um mundo sem mimimi, sem frescura, sem preconceitinhos, cheio de novidades incríveis, de zen budismo, de pão feito em casa, de miles davis e amigos. Éramos vizinhos, em Ipanema, e eu e os músicos vivíamos na casa dele, dia e noite, usufruindo da liberdade toda que não tínhamos nas casas dos nossos pais. A gente tinha menos de 20 anos de idade…
A banda que tocava com ele era de músicos que hoje são profissionais top de linha, todos muito jovens, Glauton Campello, Alexandre Carvalho, Kadu Menezes, Felipe Reis. E foi com eles que comecei na profissão, ensaiando no “Tijucão”, casa alugada pela galera pra usos musicais e sócio-recreativos de todos os tipos.
Tenho as melhores lembranças desse momento da minha vida, e só me lembro do meu guru dizendo: “bonita, vc precisa enlouquecer, enlouquecer muito!” Tinha toda razão! E mesmo depois de todos esses anos, querido Robson, ainda não enlouqueci o suficiente.

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asas da liberdade

02/11/2010

Eu nunca desejei voar de verdade. Sofro de vertigem. Me contento em voar em sonhos, mantendo a altura por debaixo do teto do pátio coberto do Colégio Notre Dame e, por vezes, era mesmo o teto branco, meio descascado, da garagem do nosso prédio na Joana Angélica. Outras, vai saber, era no Chiswisck Town Hall que eu voava, depois da aula de balé, na volta para casa. Agora dei de sobrevoar cidades que nem conheço. Ora voo baixo. Ora voo alto. Mas nunca deixei de sonhar com o voo.

E quando pela primeira vez fumei haxixe com um namorado e depois sentamos num bar da Lagoa e eu, comfortably numb, bebia aquela bebida muito gelada e doce, enquanto via a mim mesma flutuando sobre uma lagoa azul-noturno iluminada, seu lodoso fundo cheio de monstros do Loch Ness e de lontras e de Iaras, sereias e Iemanjás. As margens piscosas dadas aos duendes, aos pixies, aos elfos e todos elementais do fogo terra água e ar. Eu ali, bebendo aquela coisa mexicana, e eram tacos com salsa de tomates, uma bem simplinha e a outra com chilli ardido.  O ar era meu, tudo estava quente. Tinha eu 18 anos de idade.

Depois encontrei a música,  nem precisei mais voar.  Nado por debaixo de mares e atravesso oceanos em apneia, sem nunca perder o ar. Coisa de sonho. Mergulho aqui  no Leblon e saio vezes na Lapa, vezes no Arpoador, aonde já encomendei que joguem minhas cinzas, pq nobreza maior não há de haver do que ser fertilizante de fogo terra água e ar. O doce retorno.

Meu superpoder conheci hoje, durante um ensaio, quando cantei junto com passarinhos de cantos frondosos, eloquentes, vigorosos, ensaiados. Enchendo aquela sala amarela e seus ramos verdes de canto. O nosso, os deles.

Eu, que nem pensara em voar, por um momento fui alada, singrando os céus de azul da cor do mar do Rio de Janeiro, batendo rapidamente as minhas pequenas asas amarelas, sobrevoando a Baía da Guanabara. Cristo Redentor, as luzes quase se acendendo, Ipanema, Arpoador, Leme, Urca, Botafogo. A cidade toda se dourando à tarde, enquanto nós, os pássaros, cantávamos voando de galho em galho.

Lá embaixo os carros correndo, já meio quase na hora de acender os faróis, a rua vazia pelo quase-feriado, painéis azuis, taxímetros vermelhos. Algumas pessoas esperavam para atravessar as ruas com guarda-chuvas de todas as cores, mas não chovia mais.

Era azul, verde, dourado. Era música. Meu superpoder é cantar.

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