fulana de tal

05/11/2013

num dos corredores do supermercado, ali entre os ovos e os legumes, dou de cara com uma imagem familiar de mulher. minha memória paquidérmica corre atrás dos dados, fazendo um total scan muito veloz e me devolvendo a resposta na fila do caixa rápido de 15 volumes: é a fulana-de-tal!

fulana-de-tal foi minha colega de colégio. era das sete maravilhas da escola, atrás de quem se formavam filas de garotos, os mais lindos, os mais bacanas, os mais tudo. ela declinava com toda suavidade feminina, sua timidez perfeita, seu recato delicado e sua atitude de princesa disney: um meio sorriso de cabecinha torta, os olhos muito azuis virados pro chão. na festa, não bebia nem fumava nada. não tomava aquele pileque de martini com a gente. não falava palavrão. não cantava, nem tocava violão, não fazia teatro, nem entrava nos festivais e nunca chorou no banheiro abraçada à melhor amiga. ia embora cedo, sem beijar na boca de ninguém, o que aguçava o apetite de lobo mau pra cima dela. linda, tímida e virgem, praticamente uma santinha de novela das seis, uma prenda. e tirava 10 em tudo. insuportável.

fulana-de-tal era a mais linda das lindas. uma perfeita chata que eu invejava com todas as minhas forças. eu queria ser ela por um dia, saber como seria ser adorada e endeusada, aquela fila de lindos garotos, à beira do altar. eu, a gordinha que nunca fez sucesso com os meninos, que falava palavrão, bebia, fumava, era a última a sair da festa, já tinha perdido a virgindade sem glamur nenhum, tocava violão e cantava, ria alto e dava beijos escandalosos, e vomitava de madrugada, cuba libre, martini, cigarrinhos de vários tipos e culpa. muita culpa e uma vocação fatal pra ser mal amada.

pois é, senhoras e senhores, fulana-de-tal, que me perdoem os politicamente corretos, está um bagulho. um ba-gu-lho. sobre sua figura matrona paira apenas a sombra daquela feminilidade delicada. os olhos azuis estão lá, atrás de centopeias de rugas nos olhos. engordou, perdeu o viço, está com o pescoço empapado. tá, eu tb embagulhei, mas eu nunca fui uma princesa encantada. e agora eu sou cantora, sorry, fulana, aliás, baranga-de-tal.

o carrinho de compras da fulana-de-tal era modelo classe média standard: carne moída, coca zero, pão de forma branco, salsicha, margarina, bisnaguinhas, requeijão, macarrão, tempero pronto, molho pronto e muita mussarela. deve ser por isso que ficou esse bagulho, penso do alto dos meus 16 anos, rindo, por dentro, a bandeiras desfraldadas, finalmente vingando as dores da juventude e lembrando da fala da madrasta da branca de neve: “maldita, eu me vingarei!”

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