saÍ de casa atrasada para o casamento. ainda tinha que passar no caixa, tirar dinheiro, passar no supermercado e comprar uns não-perecíveis que os noivos pediram como colaboração para a comunidade espiritual da qual fazem parte. botei vestido novo, pintei cabelo, fiz as unhas, me maquiei. merda, não tenho sapato! fui, afobada, meio capenga, me sentindo vazia, uma solteirona incorrigível, feia, velha, gorda, pobre. hopeless.

casamento lindo, velas, esteirinhas e almofadas de chitão espalhadas pelo gramado, a descontração da festa e das pessoas, a alegria genuína sem pose, sem boá de plumas e óculos ridículos e sandálias havainas de brinde. ninguém se fantasiou para ir a essa festa, ninguém fez um cenário de cindelera. era a vida simples, colorida e linda como ela é. depois da choradeira, a alegria foi coroada com uma linda roda de samba, da qual participei cantando coisas de amor. fui contagiada pela felicidade do casal, pelo vinho, pelos amigos. sosseguei.

de repente, numa roda de amigos, me chama a atenção uma mocinha morena, muito sorridente e magra, em cujo colo se podia ver, sob a finíssima pele, um marca passo. de algum lugar da memória, vem a lembrança de uma campanha para arrecadar fundos para uma moça que havia descoberto um câncer terrível, em estado bem avançado, com uma chance de tratamento na Alemanha. O rosto dela veio num flash. Era ela. lutando a favor da vida, há anos, incansável, determinada, sorrindo no samba.

o marca passo aparente evidenciava, como uma bomba relógio, os tiques e taques do tempo que se apressa, não só pra ela, para todos nós. uma ampulheta silenciosa correndo e avisando, como o coelho da Alice: é tarde.  é a morte que faz a felicidade urgente.  chorei, no banheiro da festa, pela moça do marca-passo ali sorrindo, conversando, como se nada estivesse acontecendo, com a vida por um fio, mas querendo, com todas as forças, continuar no samba. desejei ter super poderes pra mudar o rumo da história. lembrei, imediatamente, de abraçar meus amigos, de ser grata pela vida, de cuidar da saúde. e de parar de reclamar do sapato ou de ter que pintar os fios de cabelo branco, que me avisam duas coisas: o tempo passa. mas você está viva. vamos sambar.

fumo

06/03/2012

Preciso ler um poema arrebatador, preciso ouvir uma música que me penetre a alma, preciso ver um filme que me faça chorar muito. Preciso ajudar crianças em risco social, preciso dar atenção à minha família, preciso consertar o piso do meu apartamento e o pedal de sustain do piano. Preciso urgentemente ouvir os CDs que comprei e nunca, os livros que se amontoam na minha cabeceira e nada, os amigos que não vejo, a paz que nunca encontro.

Ontem ele passou o dia, a noite e a madrugada comigo, me vendo trabalhar, jogando beijos de longe. Me beijou na boca, na frente de todo mundo e disse: “vamos ter um filho, vamos logo? Imagina os cílios…”, ele disse, piscando aqueles olhos cinza-azeitona, com kajal de nascença, as pestanas espessas e longas, coisa mais linda que eu já vi. Pisquei os meus, porque também nasci de rímel: “Vamos, vamos sim!” “E se for menina, ele disse? Tem um nome?” “Cecília, Clarissa, um monte”, eu disse. “E menino?” “Menino quero o nome do meu pai”, romantizei. “Tá ótimo”, ele disse. Era a primeira vez que nos beijávamos. Era a primeira vez que nos beijávamos.

“Vamos ensaiar”, eu disse, “antes de ter um filho vamos ensaiar?”. “Sim, vamos marcar uns ensaios”, ele falou, como se a gente estivesse armando de montar uma banda nova. “Mas filho, só tenho com marido”, eu disse. “Então, vamos casar”, ele disse.

Palavras saem da boca como se escapulissem de dentro por vontade própria, vazias de sentido caem no chão, misturam-se ao som alto do bar, sobem à cabeça com vodca e lima da pérsia. Feito fumaça, rarefeitas, volatilizam e caem no esquecimento um minuto depois

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alguém comenta que a fulana perdeu o marido pq “não se cuidou”. Não se cuidar, aí, significa que a mulher não manteve a aparência que devia: malhada e magra. “A concorrência é forte”, dizem, “mulher tem que correr atrás, senão perde o marido” blá blá.  Carinho, amor, amizade, parceria, tesão, nada disso importa, só o corpo com tudo em cima. Não adianta ficar bonitinha, arrumadinha, cheirosinha. Não adianta ser gente fina, companheira, trabalhar feito uma escrava pra pagar conta, criar filhos, nada disso adianta. Tem que estar com tudo em cima. Fico imaginando que essa mesma pessoa deve achar que, por estar fora desse padrão, eu não mereço mesmo ter um marido. Se quisesse ter um marido, eu deveria “correr atrás” pra ganhar da concorrência. Interessante essa seleção natural de gente. Mulheres não magras e malhadas merecem mesmo perder o marido. Talvez devessem ser eliminadas, para aí termos uma sociedade toda de “gente bonita”. Neguinho inverteu completamente os valores ou é impressão minha? E o homem? Pra esse tipo de mulher, homem pode tudo, pode qq coisa, pode até ter outra(s) mulher(es) na rua, contanto que volte. A mulherada sempre perdoa. Qualquer semelhança com os anos 50 é mera coincidência.  Coisas do modernérrimo sec XXI…

 

 

 

 

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