mulheridade

24/02/2012

batom e unhas vermelhas. vestido estampado branco com hibiscus vermelhos, bem decotado, um pouco justo. flor de cetim no cabelo, argolas nas orelhas, anel de ouro e água marinha (nunca uso ouro amarelo), vinho branco. sonho com um velho amor. e o coração vazio.

Aqui no Rio, qdo entra o verão, reinam os sinônimos estabelecidos de alegria e diversão: beber até cair, ficar loucaça, beijar mil bocas, jogar altinha, tomar champagne na praia, felicidade urgente para todos. O verão é um grande carnaval que dura 3 meses.  Se vc não está nessa, desafina. Amo praia e posso beber e produzir falsa alegria e transe a qq hora, mas estar dentro de uma multidão suarenta,  cantando Vou festejar, realmente nao me diverte mais. Me sinto inadequada, passada, fora de esquadro.

Estou sem alegria e vou além: to cansada dessa necessidade de alto astral, de festejar, de comemorar, de ser feliz o tempo todo, de ser “pra cima”, de produzir um clima de felicidade permanente, de “encantar a vida”. Isso virou uma imposição dos esotéricos e neurolinguistas, que ameaçam a gente com os nossos próprios pensamentos e sentimentos. De hoje em diante vc só pode pensar coisas lindas e boas e prósperas e fofas e saudáveis e positivas! A vida real, cheia de defeito, feiura, dificuldade, celulite e dureza, essa vc desprograma dentro de vc e tudo muda! A celulite some e a grana aparece. ãhã. A gente vira culpada por tudo, é pior do que os crentes, o papa e seus rebanhos. E nem tento mais desabafar com amigos, pq começa a campanha pra “levantar o astral”: vc é maravilhosa, sacode a poeira, dá a volta por cima!

Vamos pular, vamos dançar, vai rolar a festa, vamos todos participar desse grande comercial de telefonia celular, dançando nas ruas, o astral lá em cima, cercados de gente bonita em clima de paquera! ‘Cause tonight is gonna be a good night. Não estou jovem, não estou bela, estou cheia de problemas e não espero nada de um sábado à noite ou de um carnaval, perdi a chave da diversão. Não me empolgo, não me interesso e nem me divirto com quase nada ou ninguém. Desencantei. Chega de maya, chega de ilusão, chega de esperar. Godot is not coming. Godot nem existe. Fuck Godot.

PS. ihhh, mó baixo astral esse texto

“Ele foi embora”, eu falei pra minha irmã. “então faz um post”, disse ela.

Era carnaval na Praça São Salvador, em Laranjeiras. Eu sentada numa mesa de boteco com amigos.

Ele* me olhou lá do balcão, abriu um sorrisão solar pra mim. Conheço ele de onde? pensei, retribuindo. Ele veio na minha direção: “Oi, tudo bem? Eu sou o fulano, muito prazer”. O sotaque é do interior de São Paulo? alguma coisa assim, que eu não reconheço.

Dois minutos depois a gente trocou mais sorrisos, ele pediu licença e sentou na mesa com meus amigos. Conversamos tudo, falamos sem parar, mãos dadas, namorando na pracinha, o samba ruim rolando por todo lado. “Vc acredita em vidas passadas?” – ele perguntou – “Não” eu disse. “Então como vc explica isso?”. Não sei explicar. Suingou, timbrou, deu samba.

No dia seguinte M, que tava lá, me ligou: “Rapaz valente, ein? Chegar daquele jeito…”. Pois é, deve ser coisa de vidas passadas.

Torpedos, telefonemas, emails, olho no olho, beijo na boca no bar, caminhadas de mãos dadas no calçadão, relatos da vida inteira vendo a tarde virar noite, lá do alto da Pedra do Arpoador, garrafas de vinho no Baixo Gávea, encontros no Leblon, beijos que nunca chegavam ao fim no corredor do supermercado, lágrimas de emoção, meio bêbados daquilo tudo: Vamos viajar pra Floripa, vamos pra Ilha do Mel! Fotos e mais fotos juntos, lindos, sorrindentes, sortudos!

Ontem ele voltou pra casa. Se vamos nos ver, não sei. Tudo pode acontecer, independente dos nossos planos, inclusive. Não estou triste. Porque eu sei que tem muita gente por aí que nunca nunca viveu nada parecido com isso. Isso é que é tristeza…


*Ele já foi citado aqui como “o menino de ontem”

Sai de casa cedo pra concentrar com o pessoal da ala. Comes e bebes, maquiagem. A fantasia, socorro, é quente demais!!! Entra no ônibus, salta dias antes, caminha dias carregando a fantasia. Nunca saí numa escola do grupo especial. Legal.

Chega à concentração. Concentra. Concentra, horas, coloca esplendor, asa e auréola. Tá pesado. O chapéu está fazendo um corte longitudinal na minha testa. Acho que vou sair da avenida sangrando, como os heróis da bateria. Legal.

O suor escorre pelas costas e pelas  pernas, sem falar do rosto e do pescoço. Mas vc nao tem nem a oportunidade de enxugar a testa, pq o esplendor não permite que vc alcance seu próprio rosto. O cabelo grudou. Arranco uma corda inútil de dentro do chapéu e amarro o cabelo. Melhor, bem melhor.

As asas e a auréola pesam nas costas e nos ombros, e a gola da roupa, de tecido sintético, promete que o carnaval vai deixar marcas no meu corpo. Ai, que calor, ai, que sede. essa escola não sai nunca?

Olha a fila da ala! não pode tirar o chapéu! não corre! espera! canta o samba! alegria! vamos lá pessoal!!!

Na esquina da direita, Zeca Pagodinho e Monarco de azul e branco, lembrando as cores da escola que eu dizia que era minha. Depois parei de falar essa bobagem, só estive na Portela duas ou três vezes na vida. Moro longe e nunca tenho cia pra ir. Perdeu, playboy.

Passam o governador, o prefeito, o secretário de governo, dúzias de globetes, muitas wannabe globetes, polícia, milhares de pessoas com camisa de apoio, diretoria, produção, harmonia. Ué, já estamos no recuo? Agora se chama recuo Jamelão. Chato isso, né? Morrer e virar logo nome de recuo… poxa…

A melhor do Jamelão, mal humorado clássico, foi a resposta que ele deu ao repórter que o apresentou como puxador. Ele disse:  “Meu filho, puxador, que eu conheça, tem dois. De carro e de maconha.  Eu sou cantor.”

Camarote da Brahma, camarote da Devassa, camarote dos ricos, famosos, playboys internacionais e suas amigas socialites com os braços pra cima, taça de champã em uma das mãos. Bicheiros, bandidos, ladrões, traficantes, putas, putos e políticos aos montes. Gringos, às centenas. Paulistas, aos milhares. O samba da Sapucaí é como o futebol do momento, técnica pura. Perdeu a arte e o charme.

Ué, a torre da TV, já?  Aquelas arquibancadas lá longe.  Olha a Apoteose aí, gente, dispersão, corre! corre! corre! Passaram-se 20 minutos desde a hora em que eu pisei na avenida. Caraca, é só isso?

Caminha 30 minutos pela Praça 11 e Estácio carregando esplendor, asa, chapéu, a roupa grudada, testa ralada. Sobe escada, atravessa passarela, entra no ônibus, engarrafa, volta à concentração, troca de roupa, chega em casa 4 horas depois.

Com essa, encerro minha carreira carnavalesca, como anunciado há uns posts.

PS:  se bem que o menino de ontem…

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