empoderada

01/04/2016

vi um video, com bilhões de curtidas e compartilhamentos, estimulando mulheres a aprenderem a se divertir consigo mesmas. Sugerindo que uma mulher deve experimentar sentar sozinha em um restaurante e pedir um prato maneiro, ou ir ao cinema sozinha e chorar num filme emocionante, ou ver arte num museu, ou simplesmente passear num parque para aprender a apreciar a própria companhia. Como se elas nunca tivessem feito isso antes. Para meu espanto, lendo os comentários, vi que muitas realmente nunca se divertiram ou tiveram prazer sozinhas. Me parece que a mensagem subliminar é: tente! vc tb existe sem um homem à tiracolo pra te qualificar como mulher.

As novas mulheres falam tanto em empoderamento. Mas precisam começar pelo começo. Mulher é mulher do momento em que nasce até morrer. Mulher não é sinônimo de beleza, de juventude, de gostosura ou charme. A mulher não desaparece quando amadurece, nem precisa ficar se afirmando, aprendendo como amar depois dos 40, como se renovar depois dos 50, como começar uma nova atividade depois dos 60. A vida é uma linha continua que só para quando acaba. No meio pode ter família, filhos, namoros, casamentos, viagens, trabalhos diferentes, mudanças de casa, de direção, de crença, de preferência sexual, de hobby, de profissões ou atividades. esse papo é coisa de cartilha feminina americana dos anos 50, que rezava que mulher tem que ter um homem só na vida, mesmo que o homem tenha mil mulheres, viver para a família, se dedicar a uma única atividade e depois, quando as leis trabalhistas definirem, parar e começar a se perguntar como foi perder tanto tempo precioso, correndo pra ver o que ainda é possível fazer enquanto a morte não vem. A vida da gente acontece em camadas, em dimensões variadas, não tem monoplano nem pra quem gostaria que tivesse.

As mulheres, enquanto vivas estiverem, podem amar, mudar, recomeçar, renovar, sem se explicar, sem precisarem se sentir diferentonas porque estão vivendo a vida! Esse papo de que os 50 são os novos 40 só dizem respeito à aparência, fazendo, mais uma vez, o jogo do patriarcado. Ufa, em vez de perder o marido para duas de 20, aos 40, agora ganhamos 10 anos. Nada disso! Não vou admitir ser tratada como uma veterana, como coroa, como tia secundária, como velhinha, só porque não tenho mais 40 anos. eu sou mulher. e vou ser mulher até morrer. sem papo de idiotizar a “melhor idade” (expressão que todo velho detesta, claro), sem precisar saltar de paraquedas e falar a gíria da moda pra parecer jovem, sem fazer plástica e sem ter que ser a coroa excêntrica que se veste como uma árvore de natal, de cabelos brancos, pra dizer que assumiu a idade e não tá nem aí. vai ser do jeito que eu quiser. eu que decido. fim.

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através do espelho

25/02/2014

linda! penso, me olhando pelo lado de dentro do espelho. flawlessme amo. nenhum dos meus defeitos aparece nesse espelho, embora odeie, mortalmente, muitas partes de mim. meu espelho filtra imperfeições e destaca qualidades. nele sou transparente, com tudo que tenho de bom à tona, no nível da pele, no brilhos dos olhos, nos cachos dos cabelos. uma beleza amorfa que me encanta exibir, narcisa de qualidades abstratas. 

saio pelas ruas, do país do espelho, ostentando minhas belezas sublinhadas pela subjetividade. qdo exercito o espelho do lado de dentro, sou linda pelada, apetitosa, uma fruta perfumada e suculenta. se me mordiscam, ali desabrocha um sorriso, se me sentem o cheiro, nalgum lugar brota uma flor perfumada, e uma borboleta vem, correndo, visitar. entre mim e eu, sou a mais linda das mulheres cariocas, uma beldade original do Brasil, miscigenada, um pouco armênia, um pouco índia, sou toda predicados, toda adjetivos. ninguém me vê como me vejo. for my eyes only.

do lado de dentro do espelho me desejo, me afago, me consolo da invisibilidade do lado de lá. não importa que uns não me olhem, outros me critiquem, que eu não esteja dentro de nenhum padrão de nada. devo admitir que, mesmo sendo quem sou, como sou, ainda assim, sou a mulher mais perfeita do mundo, qdo saio por aí, cabeça erguida, desavessada, desfilando aquilo que sou e que meu corpo esconde.

tenho uma tia que não vai à praia por causa das varizes, que não quer exibir. A outra tia, morrendo de rir, fala: “na praia do leblon, com aquelas meninas lindas de morrer, vc tem que dar graças a deus se alguém olhar pra sua cara! ainda mais pras suas pernas!” e quá quá quá.

Eu passei a vida brigando com meu peso. sanfona, sanfonérrima, sanfoninha, acho que nunca passei um ano inteiro com o mesmo corpo. estou sempre indo ou vindo. mas hj, gordinha, o sol brilhou depois da chuva no feriadão. e sol, procuro pegar todo dia, pedalando e dando um mergulho-axé no arpoador.

a minha vida não está fácil, mas tb nao está difícil. to inteira, faço o que gosto, tenho boas perspectivas e gente amada em volta. e posso ir à praia, que fica a 3 quadras da minha casa. tá reclamando de quê? da celulite? aham. crianças sendo bombardeadas por aí e vc preocupada com a celulite? herdei aqueles braços gordos da vovó, que odeio fervorosamente. Mas de uns tempos pra cá, dados os fatos da vida, comecei a achar que, independente da aparência, o importante é ter braços. num ímpeto de maturidade e autoestima, resolvo: vou botar uma camiseta, braço de fora, pq quero desfrutar desse sol, me bronzear.  Nuuuuunca usei braços de fora, mas hj vesti minha camisetinha e fui pedalar e pronto! comemorando o dia da consciência, nêga! biquini por baixo, pro santo mergulho no final do percurso, saí de casa me sentindo linda, gostosa, braços de fora, feliz, entre outras coisas, por uma recente conquista de mulher, dessas que te elevam à 20ª potência. subi no meu camelo (gíria do meu tempo pra bicicleta) e fui por aí,  em pleno sol, pista fechada pro feriado passar. gatinhos, adultos, velhinhos, bebês, magrinhos, gordinhos. o rio de janeiro sorrindo para o planeta. e eu.

desfruto de um lindo dia de sol e verão e mar e arpoador. encontro amigos pelo caminho, vou ouvindo músicas lindas, vejo uma roda de capoeira, tiro fotos, vejo o sol se por. mais tarde tenho ensaio. que bom. na volta pra casa, me vejo refletida numa vidraça de portaria.  os braços gordinhos de fora. e feliz, linda e gostosa pra mim mesma.

 

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