auto-combustão

19/08/2014

o nome parece fenômeno do folclore brasileiro: fogacho. daria perfeitamente pra dizer: “esta é a época do fogacho, muito comum nesta região do país…” ou “ela dança fogacho muito bem, tradição familiar” ou ainda “nas noites de fogacho, o cortejo atravessa a cidade e o cavalheiro bate na porta da donzela, convidando para a dança”.

mas que nada. o tal do fogacho é um calor que acomete mulheres, nem todas, a partir dos 40 e tal, e pode durar muitos anos. ali começa a derradeira revolução hormonal, que vira tudo de cabeça pra baixo, que taca fogo na mistura e deixa a cama, a casa, o mundo ardendo em chamas. só que por dentro.

ardo, de meia em meia hora, queimo. acordo no meio da noite, muitas vezes, pra arder. sou interrompida no meio do dia pela minha própria ebulição. que venenos estará meu corpo destilando? que lixos estará incinerando, nessa estranha queimada das entranhas? desejo que todos os resíduos nefastos da vida sejam trazidos à tona agora, para que as fogueiras das vaidades, das banalidades, das futilidades, das desimportâncias os queimem. e deixem ali, onde estava tudo empilhado em desordem, a redução, a essência do puro valor da vida. o que importa, o que é bom, o que afina o que está dentro com o que está fora. entropia eterna.

entendo, porque assim desejo, que os ardores são um ritual feminino de purificação, que prepara as mulheres para que se metamorfoseiem em índias velhas, em lobas, em corujas, em cavalas selvagens, em onças pintadas, em elefoas majestosas de todas as cores, em garças brancas, em borboletas azuis. E assim a mulher vai fazendo a passagem, a transmissão de energia, se transmutando num tipo peculiar de elemental, virando árvore, grama, líquen, limo. se diluindo na água, evaporando no ar, espalhando-se como a terra que cobre a Terra para acolher as profundas raizes das árvores, para finalmente, acha em brasa, lamber o céu, esfogueada, em labaredas. e subir alto, alto, onde a vista não mais alcança, onde nada se pode mais tocar, nem ver, nem ouvir. onde tudo é nuvem, magnetismo, eletricidade primordial, raios e trovões. e dali, dos tempos e espaços imemoriais, ela chove, seiva da vida. e as flores brotam da lama, mais uma vez.

7 Respostas to “auto-combustão”

  1. Cristina Rudgel said

    Essa foi uma das definições mais interessantes que já li sobre a temida “menopausa”….soou + q poético…

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  2. Isso aí, Cristina! Nada como tentar dar sentido ao caos, pra isso serve a poesia, né?volte sempre! beijo

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  3. Isso passa. Chá de amora ajuda. Em todo caso, dando uma (como sempre) de Pollyanna, isso é muito melhor que adolescência e cólicas… E tem homem friorento que adora😉

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  4. super pensei em vc qdo escrevi isso😉

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  5. Beth Lessa said

    Adorei o texto. Muito bonito esse jeito de ver essa fase e esses calores ! Um beijo !

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  6. beijao, minha querida!

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