água de moringa*

11/01/2010

Coloquei os lábios ao redor do bico do apito de cerâmica em forma de galinha que, quando é soprado cheio d’água, soa como o trinado de um pássaro. Mágica. Enchi o apito de água, encostei-o nos lábios e soprei, querendo ouvir novamente o som que ouvi na pracinha de Tiradentes, no dia em que comprei minha moringa, um domingo ardido de sol. Meus lábios úmidos grudaram naquela cerâmica fria, porosa, seca. Delicadamente fui descolando a pele fina, da boca, daquela aspereza desértica do barro cozido e rústico, sem acabamento, sem verniz. Puxei o lábio com cuidado, muito lentamente, pra não romper a pele da boca. Desgrudei com sucesso o lábio inferior e, depois, o superior. E mergulhei com pressa o apito inteiro dentro de um pote cheio de água. Ele borbulhava, sorvia a água, mudava de cor, fazendo uma musica peculiar, parecida também com canários piando. Deixei o pássaro submerso e fui me ocupar da moringa.

Vinha de viagem, encantada com as maravilhas do barro cozido, recipientes, potes, panelas, apitos. Mãos moldando o barro, um deus moldando o homem, a ciranda da criação, de mão em mão.

Sempre quis ter uma moringa na minha mesinha de cabeceira. Pra olhar pra ela, por anos e anos a fio, e pensar: envelheci. Envelhecemos. Ter uma moringa na cabeceira é coisa de gente velha.

Por hora, quero a minha água com jeito de sombra, apesar do verão tórrido que se anuncia. E a moringa, cheia de sombra e água fresca, na minha cabeceira.

Penso em varandas por sobre um gramado em leve declive, com umas duas ou três árvores frondosas no sopé, e um pneu pendurado por uma corda, fazendo as vezes de balanço em uma delas. Um banco troncho de madeira na sombra generosa da outra árvore, onde se desejava mesmo uma cadeira de balanço pra Pixinguinha, pra Clementina, pra Villa-lobos. Pra montar uma mesa e colocar uma jarra de limonada muito gelada, de suco de pitanga, e um prato cheio de laranjas bem madurinhas pra se chupar cuspindo os caroços em algum alvo no meio do mato.

E ver a brisa fraca da tarde quente soprando, de vez em quando, as pontinhas das folhas. Os galhos imóveis, a superfície do lago sem marolas, os peixes de boca aberta, as abelhas abelhando, as jabuticabas jabuticabando, e o cachorro.

Mesa na sombra, sobre a qual se coloca uma moringa cheia, de onde se serve um copo de água pra tomar pensando. A moringa, quando está seca, precisa ser preenchida de água, como se ela mesma estivesse sedenta daquela primeira sede, plena da mesma secura que me grudou os lábios no apito. Quando se enche uma moringa de água pela primeira vez, ela canta. O canto da moringa é um dobrado delicado, que soa a ondas do mar, a uma revoada de pássaros por sobre as nossas cabeças e a respiração. A moringa também morre de sede.

Até agora guardo nos lábios a secura do barro. Tomo um gole d’água e penso, precoce: É… O tempo… Passou…

*provavelmente já publiquei isso, mas mudei umas vírgulas… melhorou

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3 Respostas to “água de moringa*”

  1. Soraya said

    Andréa, mesmo se não tivesse no texto a palavra “barro”, ele teria me lembrado Manoel de Barros. Mas melhor até, o texto é do teu punho. Além da garganta, o punho. Quanto talento em você, meu deus.

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  2. ai, soraya, to precisando tanto desse afago, obrigada, querida…

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  3. googala said

    lindo.
    tb queroooooooo

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