se eu pudesse eu ia, mesmo

25/05/2009

eu tava na portaria do meu prédio esperando duas amigas virem me pegar pra irmos pro samba, quando passa uma vizinha de sei lá, 18 anos, toda arrumadinha. Como eu conheço ela desde bebê, eu brinquei: “E aí? bora pro samba?” E ela respondeu, olhos bem gulosos: “Se eu pudesse eu ia, mermo.” E passou. Família religiosa, essas coisas. Morri de pena dela.

Imediatamente me voltou a sensação horrível de impotência que eu sentia por ter que pedir permissão para fazer alguma coisa, na infância e na adolescência, e ainda ter que negociar as condições. Também senti a dor que dava ouvir a bateria do baile de carnaval ao longe, imaginando o negócio pegando fogo no salão, as pessoas sendo terrivelmente felizes  e having the time of their lives, enquanto eu deitava de olhos abertos no escuro e via a sombra dos galhos do eucalipto sendo projetadas, nas paredes do meu quarto, pela luz bruxuleante do poste do jardim. Monitoramento, de qualquer tipo,  sempre foi claustrofóbico pra mim. Tenho dificuldades com hierarquias e obediências dogmáticas. Que felicidade incrível me deu, naquela portaria, por eu poder estar indo fazer simplesmente o que eu queria fazer: hoje eu fui ao baile carnaval.

Agradeço por poder escolher. Escolher é um luxo. 

não me pegue, não, me deixa à vontade

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6 Respostas to “se eu pudesse eu ia, mesmo”

  1. Nada melhor do que chegar à tal maioridade, ou maturidade e poder ter a tal da liberdade que nos acenava lá de longe na adolescência. Muito chato mesmo ter a vida determinada pelos outros. Chato pra caralho!!!

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  2. Alziro, eu detesto aqueles filmes tipo Orgulho e preconceito, em que a mocinha é uma inútil que fica bordando o dia todo, à espera de que alguem decida o que será feito da vida dela. Só de pensar que o mundo já foi assim, me dá falta de ar! Socorro!

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  3. Dona Lapa said

    Ah… eu sei bem o que é isso… eu brincava com minhas amigas que éramos presidiárias do nosso prédio. A gente não podia sair do prédio. Daí a gente cantava o hit, segurando na grade do portão: ‘o que é que ela tem que eu não tenho?’uhuuu…Ou seja, já que a festa não podia ser fora, a gente tentava reinventar…ahaha éramos felizes e não sabíamos! Bem…hoje em dia sou Dona Lapa…ahahahahha

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  4. flá, hj em dia vc é muito mais feliz e sabe!

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  5. sonia vieira said

    Andrea,querida

    chorei litros quando li esse post.
    Me dei conta (nao que eu nao soubesse)
    do que um casamento de 15 anos é capaz.
    Eu nunca mais fui a um baile de Carnaval.
    Saudade eterna.

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  6. sonia, que bom te ver por aqui! Sigo bailando. saudades tb! bjs

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