quase milonga
02/10/2011
todas as vezes em que eu usar esse perfume hei de lembrar daquele vestido preto, e de você, numa ladeira da Lapa, me puxando pra vc, dizendo: “esse cheiro, esse cheiro, que cheiro é esse, menina?” (fazia tempo que eu não era mais menina).
e depois um beijo, outro beijo, um cheiro. Por dentro de mim, uma lembrança de buenos aires, de onde eu acabara de chegar, cheia de tango. Vc dançou comigo, sem saber, quase milonga: “me tira daqui, me leva, eu não sei dançar…”
E sabia. Sabia, sim.
Dancei
Ilusão de ótica
28/08/2011
Toda vez que você chegava perto de mim
Era um arrebol na minha frente
O vermelho de todos os crepúsculos
De todas as alvoradas
Nada se mantinha de pé no meu campo visual
De olhos obliterados
Eu me atirava
Como quem pula de uma janela, vendada
Como quem se joga de um trampolim
Numa piscina funda e dourada
Toda vez que você chegava perto de mim
Eu me sentia aberta
Como uma orquídea lilás
Como uma planta carnívora
Que espera, doce e molhada
Pela sua presa
Tudo se tornava quente à nossa volta
Derretíamos icebergs distantes
Provocávamos avalanches
As neves de todos os picos, melavam
Aguavam de tanto calor
Toda vez que você chegava perto de mim
Era a música de deus
Que me acordava
Trazendo-me de volta à vida
Preenchendo os meus silêncios com beleza
Os vizinhos acordavam com o nosso som
Acordávamos os dias, como os passarinhos
Chorávamos de rir
Mil faltas, mil excessos
E a nossa sensação de raridade
Por isso, naqueles dias
Depois que você saiu
Jurei que você voltava
Jurei que você voltava
that guy’s in love with u
16/04/2011
nos esbarramos, mais uma vez na vida, depois de tudo, agora na fila do banheiro.
vc está bêbado, eu estou bêbada. a música está alta. vc diz:
- “vc foi a mulher com quem tudo foi mais de verdade comigo, sem eu precisar mudar nada, e por isso eu acho que vc nem existe.”
sorrio, garbosa. acho que somos especiais, um quase-casal assim, de qualidade interestelar.
(nosso amigo bêbado diz, baixinho, abraçado a nós dois, na fila do banheiro: “vcs vão parar de tentar?” sorrisos, tapinhas, pô, qualé?)
Vc conclui: “mas se vc fosse a minha mulher, será que vc não seria igual a qq mulher?”
O benefício da dúvida, que bênção…
blow up (depois daquele sol)
27/03/2011
in a sentimental mood
16/02/2011
vc mostrando as coisas que eu nunca vi, eu mostrando as coisas que vc nunca viu. risadas. encontro mais que perfeito. na cozinha, mesa sempre posta, vinho, cerveja, queijo azul, pão sueco, tomatinho, azeite. a gente mudava de lugar e falava, falava, falava, falava. troca a música, ah, troca você. e de repente era perfeito não falar mais nada e eu cair dentro de vc, vc de mim. e depois a gente tomava sorvete de chocolate ou eu fazia ganache. e a gente fumava e bebia litros e mais litros de água, fosse naquele verão árido da despedida ou naquele inverno doce em que vc gostou de mim e disse: “Assim, me apaixono e fico”. “Fica, fica!”, eu desejava, fervorosa e muda, enqto a gente se abraçava e se beijava fundo e eu fechava os olhos com força, emanando: “Fica, fica”, e aí, antes que eu pudesse dizer qq coisa, vc me sedava, me enredava, me ganhava, me levava. Nada daquilo era meu, nem seu. Acho que foi por isso mesmo que eu nunca disse, em voz alta: “Fica!”.
E se tivesse dito? E se tivesse dito?
This is it
25/02/2010
“Cinemamente” falando, tô sempre atrasada. Só vi o filme do Michael Jackson, o This is it, ontem. Com atraso, me dei conta de tudo e chorei copiosamente, impressionada com a doçura, o profissionalismo, a humanidade, a dedicação, a humildade e a qualidade do artista que ele foi. O que me lembrou, claro, da cantora que manda o guru chegar antes, no teatro, pra limpar o ar que ela vai respirar. Ou da outra cantora que dá esporro ao vivo no seu esparro-diretor musical, a mesma que não se dirige pessoalmente a músicos e staff, mas qdo morrer quer virar um orixá, por ter uma vida espiritual imaculada. E haja novena e haja procissão pra lavar o pecado da soberba, um dos piores que conheço.
Mas o que me bateu mais fundo, o mais comovente, foi sentir o amor dele pelo que ele fazia. A felicidade dele em estar ali, dando vazão a toda capacidade, full power, cercado dos melhores do mundo em tudo. Profissionais competentes, dedicados e igualmente felizes por estarem ali no pico do cume do topo da cadeia da excelência. Oportunidade rara, que nós artistas perseguimos e muito raramente encontramos.
Chorei de peninha dele ao pensar que a morte roubou dele esse fazer. Pro artista, o fazer é soberano. Me senti próxima dele, porque sei o que é o prazer de cantar e estar no palco, mesmo nas minhas modestas condições. Temos algo em comum, afinal. Eu que não creio, pensei nele como uma espécie de anjo de todos os artistas, que por toda a eternidade deitará seu manto, cravejado de cristais swarovsky, sobre os palcos, como um espírito bom, só pra fazer circular e filtrar aquela energia tão peculiar e deliciosa. Ele deve estar em algum lugar, louco pra subir num palco e arrasar. Ah, deve…
Se ele quiser, no meu próximo show, humildemente me empresto pra ele matar as saudades do palco através de mim. Como um cavalo de santo. For the love, Maicon! L-O-V-E!
That’s it!
confessionário
23/03/2009
- e aí, amigo, tá melhor?
- ah, to bem melhor. Ontem acabei indo até pra cama com outra. Foi até bom, sabe? Divertida, a moça. Batemos um papo cabeça, rimos, ouvimos jazz, tomamos vinho, mas sem frescura. Mulher gostosa, maneira. Manda bem. Fiquei ali, curtindo, quase a noite toda na boa. De vez em quando é que, pô, vinha a cara da outra na minha frente, na hora H, lembrava das paradas da gente junto, sabe? Dava uma desconcentrada… Mas pensando bem, assim, tipo na noite toda, eu devo ter pensando nela o quê? Umas 18 vezes, no total… Pô, bem melhor. Eu tava pensando nela as 16 horas de vigília e sonhando as 8 do sono…

quem poderá, em vão, calar a voz do coração?
figura e fundo
27/11/2008
tenho pensado na passagem do tempo, na idade, na velhice. é a primeira vez na vida em que o mundo começa a me tratar com respeito, com deferências à minha experiência. Me sinto uma espécie de Tia Doca, uma senhora gorda, preta e boa de feijão, com voz de pastora, quando encontro uma cantora da jovem-guarda que vem bater cabeça pra mim. Me incomodo terrivelmente com isso e nao tenho o menor fair play com piadas sobre idade. Talvez eu me acostume quando isso deixar de ser novidade, com o tempo… Embora eu esteja melhor de aparência agora do que antes, a minha idade aparece e não vai desaparecer com uma boa noite de sono. Os sinais estão lá, estampados. Me lembro do dia em que me vi refletida na janela de um ônibus, à noite, eu do lado de dentro, a cidade escura por fora. Aquele vidro virou um espelho que me refletiu, iluminada pela luz fluorescente: it shows! pensei, está tudo lá. Todas as coisas que vivi. Não tem como a gente ludibriar a natureza. Se tivesse, a gente escolhia a quem amar e a quem não amar.
Minha mãe é uma mulher elegante, linda, cheirosa e vaidosa que, apesar de nunca ter feito uma plástica ou similar, sempre se preocupou em manter a beleza e a juventude em sua bela aparência. Sempre sorridente, simpática, carinhosa, é daquelas pessoas que iluminam o ambiente. Ela não está muito confortável com a passagem do tempo. Não estamos. Acho que a outra mulher da família, minha irmã, está maravilhosa e não me parece se incomodar como nós, somos mais fúteis e vazias do que ela. A outra, a afilhada, tem vinte e oito anos e tomou o primeiro toco da vida. Linda, jovem, vai se recuperar como todas nós. A outra, a sobrinha, ainda está encantada com tudo, vive pulando, falando alto, está em festa e com o colágeno e a elastina bombando. Como todo mundo que é feliz aos sete anos.
Na rua vi um homem de uns setenta anos, muito bonito. Altissimo, magro, ereto, olhos azuis, pele branca, cabelos brancos, barba bem feita, vestido de khaki e verde musgo. Chique. Cruzamos os olhares, profundamente. Vi, como num relâmpago do passado, o rosto dele quando era jovem: cabelos louros na infância, castanhos na vida adulta, bonito, atlético, esportivo. Pensei que a aparência e a idade são como um escafandro que vestimos progressivamente, que vai afastando nosso corpo daquilo que nunca muda. Como se a gente ficasse de dentro, pra sempre olhando o mundo com os mesmos olhos jovens, curiosos, ávidos, sensuais, desafiadores. Ele me olhou com o que nunca envelhece em nós. Eu retribui com o que nunca vai envelhecer em mim. Aprendi com a minha mãe que a nossa luz tem que servir para iluminar a vida. Sou uma mera aprendiz, mas chego lá…







