Lapa: samba, furdunço e mito
02/02/2011
Dia desses, ouvi alguem dizer que o “samba da Lapa” é da Lapa por uma questão circunstancial. Concordo. A Lapa era uma terra de ninguém, imóveis abandonados, caindo aos pedaços, desvalorizada e perigosa. Sem vizinhança pra reclamar como na Copacabana do Bip Bip, no Botafogo do Mandrake, em Santa Teresa, onde antes da Lapa havia rodas e mais rodas, desde que o samba é samba. Sem falar em todo subúrbio, baixada, zona norte e oeste que sempre tiveram suas rodas de samba. E desde os anos 80, doa a quem doer, muita gente já tinha começado a redescobrir o samba pelo viés do pagode, a música popular da moda naquele momento. Esse negócio de botar um chapéu pra se sentir malandro veio depois.
A Lapa começou a re-existir com o povo do Circo Voador, do Tá na Rua, da FEBARJ, uma soma de forças que chamou a atenção com o bafafá em torno da Fundição e do Corredor Cultural. Isso, quando o Semente era o melhor restaurante nipo-natureba do mundo, e o Capela era um boteco barato. O Arco da Velha tinha samba em meados dos anos 80, mas era pontual. Tudo é um grande processo, sem dono, nem nome, com bases em fatores menos românticos do que se vende. Não mitifico nada nem caio no papo da imprensa, que adora inventar um “movimento”. Quando o samba aterrissou ali, empurrado por vários fatores, a Lapa era um bairro neutro, barato, central e, portanto, sem os estigmas tradicionalmente atribuídos ao zoneamento da cidade.
O samba é a única cena musical que existe no Rio de Janeiro, concentrada na Lapa. E talvez por isso, sem desmerecer o poder do samba, haja tanto samba e tanto sambista na cidade. Esta cidade sem casa de show, sem teatro, sem bar com música ao vivo, sem respeito ao músico. Quem faz música pra ouvir, quem elabora roteiro de show, quem preza emissão, arranjo e dinâmica, não tem onde trabalhar sistematicamente. A Lapa não se equipou pra isso e nem pretende. Apesar disso, tem trabalho, palco, público, cachê e troca profissional pro músico. A tal da cena musical. Enquanto as casas da cidade fecham, uma após a outra, pq não aguentam os encargos, a Lapa sobrevive cada vez mais lotada e turística, cada vez se repetindo mais. Isso é ruim? Sei lá. Las Vegas é aquela cafonice, tem um bilhão de cassinos e megashows diários em várias sessões. Umas pessoas trabalham, outras se divertem, uns gastam, outros ganham e pronto, a roda gira. Mas em Vegas o som deve ser bom e não toca só um estilo. A Lapa não aprendeu essa lição pq ela vende diversão, zoeira, furdunço e mitos. O público adora os mitos. Com sua informalidade, a Lapa desconstruiu a imagem do artista. O samba é o grande artista.
A Lapa virou uma grife de inclusão na alegria e na brasilidade. Se vc não vai à Lapa, vc não sabe o que é se divertir de verdade. Muito além das poucas (boas) casas, a rua está cheia de vendedores de latão e cheiro de xixi. Muita roda de samba e boteco chinfrim, onde a cerveja é barata, onde tem “gente bonita em clima de paquera”, onde a música rola pra manter o consumo alto e a diversão. Mas não me iludo. O público acidental, aquele da diversão, pode migrar a qq momento para uma nova moda. E quem aprendeu a gostar de samba vai continuar gostando, pq samba quando é bom, é realmente a melhor diversão. Muito além da Lapa e seus mitos.
Meu Pãozinho de Açúcar
12/04/2010
Nosso Pãozinho de Açúcar saiu do forno. Esse é o nome do DVD do Arranco de Varsóvia cantando Martinho da Vila. O primeiro show é amanhã, dia 13, no Teatro Carlos Gomes, às 19h. Sou suspeita, mas o negócio é lindo de morrer, prove um pedacinho do Pãozinho aqui ó:
série cantoras – temporada 1
18/03/2010
Muita gente me pergunta o que escuto, em quem me inspiro, quais as cantoras que admiro. Isso realmente não importa, nem qualifica ou desqualifica ninguém. É questão de gosto pessoal. Mas, como diz um amigo: Gosto É O QUE se discute. Então vamos discutir.
Tentando definir o que gosto num(a) cantor(a), cheguei a algumas reduções. Uma vez eu ouvi a Leny Andrade dizer, das profundezas de seus graves: “cantora é timbre”. Concordo. Timbre é assinatura e, como tal, é intransferível, inimitável. E sangue. Cantoras exangues e assépticas não mexem comigo. E intimidade. Tem gente que não se apodera da própria voz, como se a voz morasse do lado de fora. Cantora, pra mim, tem que ser dona da voz. Sobre domínio da afinação, coisa rara, tenho um especial apreço. Desafinação e semitonação só se for por conceito. E por fim, a cantora tem que servir à música. A voz é apenas a ponte por onde a música passa, de dentro, pra fora. E a cantora dá a cor, o tom, o perfume.
Para inaugurar nossa série, vou começar pela Leny Andrade, que recentemente me fez chorar durante um show inteiro e voltar no dia seguinte. Coisa que não me acontece nun-ca! Aqui, ela canta Ilusão à tôa, obra-prima de Johnny Alf, que morreu recentemente. Para degustar.
mea culpa*
23/01/2009
de novo errei
mais uma vez, confesso, deslizei
de novo te pedi perdão
ouvi, pela primeira vez, da sua boca um não
antigamente, a sua porta estava sempre aberta para mim
eu ia e vinha, pintava e bordava ao meu bel prazer
agora é tarde
quando eu bato vc não está
perdi a graça pra vc de tanto vacilar
vc estava ao meu lado, me queria bem
andei errada, mas no fundo também não amei ninguém
não tem desculpa, mea culpa
aprendi uma lição
por querer tudo, perdi tudo
e fiquei com a solidão

*para ouvir, visite: www.andreadutra.com.br é a música de abertura do site. Letra e música de minha própria autonomia (né, amiga?), cantada por mim e tocada pelos meus amigos Henrique Martins, o maéééstro, no violão de 7 cordas, Wellington Monteiro no cavaco, Bruno Cunha e Bebeto Sorriso na percussão. Coisa fina: la garantia soy yo!


