Aqui no Rio, qdo entra o verão, reinam os sinônimos estabelecidos de alegria e diversão: beber até cair, ficar loucaça, beijar mil bocas, jogar altinha, tomar champagne na praia, felicidade urgente para todos. O verão é um grande carnaval que dura 3 meses.  Se vc não está nessa, desafina. Amo praia e posso beber e produzir falsa alegria e transe a qq hora, mas estar dentro de uma multidão suarenta,  cantando Vou festejar, realmente nao me diverte mais. Me sinto inadequada, passada, fora de esquadro.

Estou sem alegria e vou além: to cansada dessa necessidade de alto astral, de festejar, de comemorar, de ser feliz o tempo todo, de ser “pra cima”, de produzir um clima de felicidade permanente, de “encantar a vida”. Isso virou uma imposição dos esotéricos e neurolinguistas, que ameaçam a gente com os nossos próprios pensamentos e sentimentos. De hoje em diante vc só pode pensar coisas lindas e boas e prósperas e fofas e saudáveis e positivas! A vida real, cheia de defeito, feiura, dificuldade, celulite e dureza, essa vc desprograma dentro de vc e tudo muda! A celulite some e a grana aparece. ãhã. A gente vira culpada por tudo, é pior do que os crentes, o papa e seus rebanhos. E nem tento mais desabafar com amigos, pq começa a campanha pra “levantar o astral”: vc é maravilhosa, sacode a poeira, dá a volta por cima!

Vamos pular, vamos dançar, vai rolar a festa, vamos todos participar desse grande comercial de telefonia celular, dançando nas ruas, o astral lá em cima, cercados de gente bonita em clima de paquera! ‘Cause tonight is gonna be a good night. Não estou jovem, não estou bela, estou cheia de problemas e não espero nada de um sábado à noite ou de um carnaval, perdi a chave da diversão. Não me empolgo, não me interesso e nem me divirto com quase nada ou ninguém. Desencantei. Chega de maya, chega de ilusão, chega de esperar. Godot is not coming. Godot nem existe. Fuck Godot.

PS. ihhh, mó baixo astral esse texto

neste verão quero uma fonte de água fresca, uma fábrica de iogurte frozen, uma plantação de verduras bem crocantes, um pomar com frutas madurinhas e muita sombra, um lugar lindo pra cantar todas as noites e praia todo dia. À tarde, literatura, para nao amolecer demais. ah, e um namorado, que eu tb sou filha de deus, ué.

diluvianas I

07/04/2010

Na locadora ao lado de casa, num momento de brevíssima estiagem:

“E aí? Quando é que tenho que devolver os filmes?”

“Quinta. Mas só se o mundo não acabar.”

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