velha senhora

03/04/2012

acho que é da idade. tá bem, esse papo de idade já cansou, to ligada. mas sempre que tento mudar de assunto, como por exemplo, trabalho, vem ela, a idade: “… vc tem que se acostumar, temos que dar lugar a outras gerações”, ouvi, “agora é a vez deles, não tem jeito.”, chapei, “bom mesmo era no nosso tempo”, engoli.

meu tempo é hoje, tentei dizer, mas calei, por falta de firmeza. acho que falta de firmeza não é coisa da idade, que deveria dar firmeza, se não nas pernas, no propósito. calei. mas na verdade, fico aturdida pq não acho nada disso, sofro do Complexo de Peter Pan (ou seria de Wendy ou de Sininho? será que não tem nenhuma personagem feminina que não quer crescer? logo as mulheres, que precisam ficar jovens pra sempre? estranho paradoxo.)*.

(corta)

nas duas últimas semanas morreu um tanto de gente à minha volta, não gente suuuper próxima, mas próxima o suficiente. a mãe de uma amiga, o pai do ex, o Ericson Pires, um amigo das antigas. Ademilde Fonseca não era minha amiga, mas a conheci num momento especial e lamentei a morte dela. Chico Anísio, Millor… todo dia, uma morte. qdo to esquecendo, lá vem outra! o assunto rondando, assombrando, ameaçando: batidas na porta da frente, é o tempo. resisto: não adianta bater, que eu não deixo você entrar.

(corta)

em oposição ao tempo, o agora.

em oposição à morte, a vida.

não!

oposto à morte é o nascimento, diz o poeta.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

não há oposição à vida.

 

*já reparou que, nos contos de fada, homens são maduros e as mulheres, eternas meninas? enqto isso, aqui na terra… nem inventaram um feminino pro tal complexo forever young…

idades

21/11/2010

quando uma pessoa fala: “quantos anos você acha que eu tenho?”, eu nunca respondo o que acho. Primeiro pq eu nao vim com esse dom da adivinhação, não sei dizer qual a idade de uma pessoa pela cara dela. Depois porque, mesmo se eu tivesse esse dom, eu não diria. Uma pessoa que formula essa pergunta, sempre espera uma resposta X que pode não ser a que você vai dar. Uma menina de 15 anos adora parecer ter 17, mesmo que pra vc isso nao faça a menor diferença. Já uma pessoa mais velha, em geral, quer que vc diga: “Nããããõ! Não é possível que vc tenha essa idade com essa carinha e esse corpinho!” Quem quer assumir a idade, fala logo. Na dúvida, o silêncio será sempre o maior dom…

na faixa*

17/05/2010

“…seu problema é de faixa etária”, diz minha amiga, tentando me dizer que eu devia ir procurar a minha turma.

Com os pés na areia, começo a pensar que o tradicional método cronológico de classificação etária está errado. A parada deveria ser como na capoeira.  O cara joga, joga, joga (na escola da vida, né, moy?). Um dia, ele vai pra roda e joga com várias pessoas diferentes, de níveis diferentes, pra mostrar o que aprendeu. Se ele se der bem na roda, troca a cor da corda da cintura. Isso independe da faixa etária dele, só depende do jogo. O cara vai jogando, ficando mais esperto, mais treinado e vai trocando de faixa. Mas só se ficar mais malandro.

Nem sempre os mais velhos são mais malandros, nem sempre os mais novos são mais ágeis. O que importa é a qualidade do jogo.

* aproveito para esclarecer para os cariocas que, em SP, uma coisa “na faixa” é uma coisa grátis, tipo assim: damas grátis até meia noite = minas na faixa até meia noite.

aceito a generosa oferta de um amigo para fazer, na base da amizade,  um video release sobre minha carreira, peça publicitária fundamental e cara nos dias de hoje, uma espécie de cartão de visita virtual, chamado por alguns de EPK, electronic press kit.

- Reúne tudo seu, de todos os tempos, videos, fotos, recortes de jornais, o que vc tiver documentado.

Apreensiva, fico parada em frente ao armário onde guardo 20 anos de fitas velhas de video, recortes de jornais elogiando, metendo o malho, documentando a vida toda. As fotos estão numa mala imitação de Louis Vuitton, que ganhei e nunca usei pq acho uó de cafona.

Tenho medo de abrir a porta e ser soterrada por uma avalanche de lembranças, de saudades, de frustrações, de esquecimentos confortáveis. Detesto rever o passado. Sou contra filmar festas de aniversário. Não gosto de rever nada. O tempo grita comigo e eu abaixo a cabeça, vencida. Meu tempo é right here right now.

Decido que hoje não tenho condições emocionais de rever minha carreira, muito menos de ser simplesmente técnica e mandar ver na arqueologia pessoal sem me envolver. Eu sou do tipo que chora quando arruma estante de livro, pq vou lembrando de situações, de pessoas, de coisas que enriqueceram a minha bi(bli)ografia.

Continuo, como diz o joão, making memories, mas quase não guardo recortes de jornal, pq aquela papelada amarela vai me dando uma sensação de antiguidade que me lembra a casa do Serguei, em Saquarema, onde todas as paredes eram revestidas por recortes de jornal sobre ele, bandeiras com a língua dos Stones, autógrafos da Janis… coisas antiquíssimas, testemunhas da passagem inexorável do tempo, o pior inimigo da minha atualidade. Embora eu esteja num momento feliz da minha carreira, não estou pronta para rever o grande amor. Hoje, só amanhã…

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