felicidade
14/05/2011
fio da meada
25/04/2011
Minha irmã me ensinou que Flaubert disse: “Tenha cuidado com a tristeza. É um vício.” Depois disso, nunca mais esqueci de driblar os pensamentos que podem acordar tristezas, tirá-las dos esconderijos onde estão, e dar-lhes à luz. A tristeza tem lá seu colorido, seu sabor. É farta e disponível. E vicia. Se a gente puxar o fio da tristeza de dentro da gente, ele apresenta uma a uma, feito lenços saindo da cartola do mágico, feito bandeirinhas de São João, feito lampadinha de árvore de natal: uma seguidinha da outra.
Tristeza não tem fim. Está sempre lá, cheia de motivos. Tímida e chorosa, num cantinho, ou doida pra brilhar, dançando em cima do queijo, espaçosa. Uma tristeza convida a outra pra entrar: “fica à vontade, querida, aqui tem espaço para todas nós!” E ela entra, arma sua barraca e acampa na sala. Quando uma alegriazinha qualquer bate à porta, elas abrem e dizem: “não tem ninguém em casa”, e blam!
Morro de medo de tristeza, pq quando começa não para mais, e aí ela me invade como o inimigo invade uma cidade, me toma e me ocupa, mesmo os melhores lugares de mim. Sequestrada por ela, refém da tristeza, paralisada, vejo a vida real passando lá longe, imperfeita, mas também cheia das alegrias que pisoteamos, todos os dias, em busca da felicidade.
raro e comum*
01/04/2011
não quero ter trabalho pra descobrir preciosidades raras e ocultas. estou cansada. quero abrir a janela e dar de cara com os micos, a amendoeira, a brisa do mar misturada com a dama da noite, e delas me fartar. preciosidades explícitas, dadas a qualquer um. posso até me divertir com delícias raras e finezas, mas escolho me deleitar com aquilo que não custa nada e que jamais se modifica. Terra, água, fogo e ar, sexo, amor, gargalhada, emoção e conversa. E música, né?
*canção de Fred Martins, que eu gravei no Amor de uns tempos pra cá
joio e trigo
03/02/2011
Avança, pula uma casa, perde a vez, volta vinte casas, recomeça. E vai aprendendo a jogar. Me sinto amadurecendo, aprendendo a ser eu mesma, diminuindo os filtros, tentando conciliar meu desejo de ser com o que é possível ser, respeitando atavismos, valores básicos, relaxando. Vigilante, mas sem ser tão madrasta, tão sargenta, tão madre-superiora. Tem uma hora em que a gente aprende a ver até onde dá pé e a partir de onde não dá mais. E eu sou rebelde, louca desvairada, sem começo nem fim. Bandida, solta na vida, sob medida.
Brigo muito comigo mesma e quero trégua. Quero relaxar, parar de me sentir perseguida por mim mesma, sempre insatisfeita. Quero acreditar que é possível ser feliz fora do quartel. Conflito é a base do movimento. A vida que tenho me faz gulosa, quero sempre mais, pq sempre acontece de tudo, muito, o tempo todo. Viciei. Fico pensando na brevidade do tempo, na vontade de viver tudo o que há pra viver. Fico pensando que um dia não vou mais me acabar de sambar. É o contrário de aproveitar o tempo perdido. Aproveito pra frente, acumulando pros dias de chuva.
Por um átimo eu me permito, me perdoo, me divirto comigo mesma, me admiro, me desejo e me convido pra dançar, só mais um pouquinho, enqto dura essa breve contradança. Ou esse vento.
o medo da tristeza
17/06/2010
No rádio do taxi toca Overjoyed. Estou tão overwhelmed com tantas intempéries, me sinto impotente, inútil e fraca e queria dar um reboot e mudar de fase. Me sinto pior ainda por isso, covarde e imprestável, pq não me sinto capaz de dar conta de tudo o que devo dar conta e nem é tanto assim, perto do que uns e outros aí passam… Caio no choro no banco de trás enquanto, do lado de fora, o sol volta a brilhar lindamente, esquentando um pouco do clima glacial que acossa o Leblon e meus ossos, um pouco pela tristeza de tudo, um pouco pela temperatura estranhamente gelada. Me sinto aliviada por não ter colocado filhos nessa roubada. Mesmo que a vida seja uma dádiva blá blá
Preciso lembrar de lembrar de saborear tudo com gosto, minuto a minuto, pq tudo passa correndo e o tempo devora e tritura todas as coisas em volta de nós. E a gente tem que ter felicidade simplesmente por ainda ter algumas coisas inteiras. Pq as coisas quebram e pronto. Depois que quebram, adeus. Não estou preparada para a vida, acho.
Minha amiga, aparentemente navegando pelas mesmas águas que eu, me pede: “me conta uma coisa bem boa? estou com medo da tristeza”. Tb to, querida, morrendo de medo! E contra tristeza, não há guarda-chuva, já disseram. Mas a gente tem uma faixa bônus: música. Música é a nossa melhor vingança.




