que los hay…
09/05/2012
ela tropeça numa lâmpada, dessas que têm gênio dentro, e nem vê. tá tão ocupada com a vida, tão assim, sem acreditar em magia, que atropela aquela lâmpada que luzia no meio da rua, meio dia, do nada. lâmpada é o catzu, to com pressa. Sem querer, libertou o gênio.
o gênio, que habita a lâmpada, indignado pelo desprezo, vai atrás dela: ”fia, tu tem noção do perigo? to aqui há 10 mil anos, preso nessa garrafinha, esperando o dia em que um pobre mortal desesperado me encontre e me liberte, achando que esse é o dia mais feliz da vida dele, e tu me despreza, assim, passa por cima, nem olha pra trás? isso não tá certo, não! tenho obrigação histórica de servir a quem me acha, sou seu escravo, mesmo sem querer.”
“dá um tempo, gasparzinho, que eu to toda bookada. e tb não acredito em nada disso. o que vc quer? dinheiro não tenho, nem parentes importantes, minha carreira é um fracasso, minha conta bancária está no vermelho há 22 anos e eu não tenho onde cair morta e nem pra onde ir. vaza!”
“vc não tá entendendo, to aqui pra isso, pra resolver sua vida! pede aí, pede qq coisa. o que vc quer? tudo pra já! pede! peeede!”
“sai fora, pluft, me amarrota que eu to passada, e qdo eu me espalho ninguém me junta!”
“pede, faz um pedido, um sonho impossível qq, é só falar, só falar uma palavra! fala, patroa! que que te custa?” o gênio falava, desesperado, enqto corria atrás dela, que nem tchum pro assunto. “…patroinha, é dinheiro, amor, fama, sucesso, casa, saúde, viagem, marido, palácio, jardim, navio, avião?…. fala só a palavra, só pra me testar, me deixa te provar que eu sou seu escrav0 e vc é minha dona, que seu desejo é uma ordem, me libera aí!”
‘”que mané escravo?! E eu não tenho desejos, não tenho tempo pra sonhar, nem acredito em gênios. fá-fé-fi-fó-fui, partiu feroz!”
E assim, ela foi correr atrás das coisas da vida, e o gênio ficou pê da vida, esperando, mais 10 mil anos, por alguém que ainda acredite em magia.
No dia seguinte, qdo parou pra atravessar uma rua, entre um não e outro, ela lembrou do episódio e riu sozinha: “gênio, ahahahah, quem dera…”
fumo
06/03/2012
Preciso ler um poema arrebatador, preciso ouvir uma música que me penetre a alma, preciso ver um filme que me faça chorar muito. Preciso ajudar crianças em risco social, preciso dar atenção à minha família, preciso consertar o piso do meu apartamento e o pedal de sustain do piano. Preciso urgentemente ouvir os CDs que comprei e nunca, os livros que se amontoam na minha cabeceira e nada, os amigos que não vejo, a paz que nunca encontro.
Ontem ele passou o dia, a noite e a madrugada comigo, me vendo trabalhar, jogando beijos de longe. Me beijou na boca, na frente de todo mundo e disse: “vamos ter um filho, vamos logo? Imagina os cílios…”, ele disse, piscando aqueles olhos cinza-azeitona, com kajal de nascença, as pestanas espessas e longas, coisa mais linda que eu já vi. Pisquei os meus, porque também nasci de rímel: “Vamos, vamos sim!” “E se for menina, ele disse? Tem um nome?” “Cecília, Clarissa, um monte”, eu disse. “E menino?” “Menino quero o nome do meu pai”, romantizei. “Tá ótimo”, ele disse. Era a primeira vez que nos beijávamos. Era a primeira vez que nos beijávamos.
“Vamos ensaiar”, eu disse, “antes de ter um filho vamos ensaiar?”. “Sim, vamos marcar uns ensaios”, ele falou, como se a gente estivesse armando de montar uma banda nova. “Mas filho, só tenho com marido”, eu disse. “Então, vamos casar”, ele disse.
Palavras saem da boca como se escapulissem de dentro por vontade própria, vazias de sentido caem no chão, misturam-se ao som alto do bar, sobem à cabeça com vodca e lima da pérsia. Feito fumaça, rarefeitas, volatilizam e caem no esquecimento um minuto depois
o valor dos valores
05/12/2011
alguém comenta que a fulana perdeu o marido pq “não se cuidou”. Não se cuidar, aí, significa que a mulher não manteve a aparência que devia: malhada e magra. “A concorrência é forte”, dizem, “mulher tem que correr atrás, senão perde o marido” blá blá. Carinho, amor, amizade, parceria, tesão, nada disso importa, só o corpo com tudo em cima. Não adianta ficar bonitinha, arrumadinha, cheirosinha. Não adianta ser gente fina, companheira, trabalhar feito uma escrava pra pagar conta, criar filhos, nada disso adianta. Tem que estar com tudo em cima. Fico imaginando que essa mesma pessoa deve achar que, por estar fora desse padrão, eu não mereço mesmo ter um marido. Se quisesse ter um marido, eu deveria “correr atrás” pra ganhar da concorrência. Interessante essa seleção natural de gente. Mulheres não magras e malhadas merecem mesmo perder o marido. Talvez devessem ser eliminadas, para aí termos uma sociedade toda de “gente bonita”. Neguinho inverteu completamente os valores ou é impressão minha? E o homem? Pra esse tipo de mulher, homem pode tudo, pode qq coisa, pode até ter outra(s) mulher(es) na rua, contanto que volte. A mulherada sempre perdoa. Qualquer semelhança com os anos 50 é mera coincidência. Coisas do modernérrimo sec XXI…
Ilusão de ótica
28/08/2011
Toda vez que você chegava perto de mim
Era um arrebol na minha frente
O vermelho de todos os crepúsculos
De todas as alvoradas
Nada se mantinha de pé no meu campo visual
De olhos obliterados
Eu me atirava
Como quem pula de uma janela, vendada
Como quem se joga de um trampolim
Numa piscina funda e dourada
Toda vez que você chegava perto de mim
Eu me sentia aberta
Como uma orquídea lilás
Como uma planta carnívora
Que espera, doce e molhada
Pela sua presa
Tudo se tornava quente à nossa volta
Derretíamos icebergs distantes
Provocávamos avalanches
As neves de todos os picos, melavam
Aguavam de tanto calor
Toda vez que você chegava perto de mim
Era a música de deus
Que me acordava
Trazendo-me de volta à vida
Preenchendo os meus silêncios com beleza
Os vizinhos acordavam com o nosso som
Acordávamos os dias, como os passarinhos
Chorávamos de rir
Mil faltas, mil excessos
E a nossa sensação de raridade
Por isso, naqueles dias
Depois que você saiu
Jurei que você voltava
Jurei que você voltava
amor
21/08/2011
por que ele nao pode simplesmente se oferecer, romper o silêncio, anunciando a chegada, quebrando a frieza dos dias que se repetem, iguais, por igual? o telefone poderia tocar, chamando, deixando aquele recado que ocupa toda a secretária eletrônica. Ou podia um email chegar avisando: “chegou, agora é com vc”. Uma faixa na praça, uma pichação no muro, o asfalto caiado em frente à janela, um carro de som dando voltas no quarteirão, avisando: “Amor, cheguei”. E por que não?
Uns ensinam: se vc quer encontrar amor, acredite na magia. Vc acredita. E nada. Outros dizem: ponha os pés no chão, pare de sonhar. Vc finca o pé no chão. Nada. Sinalize! Mostre o que pretende, se posicione. Ops. Não, não sinalize! Não atropele acontecimentos, não queime etapas. Olhe em volta, com cuidado, seu vizinho de baia, seu colega de turma, procure mais perto do que vc imagina, debaixo do seu nariz. Pare de procurar! Quem procura, espanta. O segredo é querer, muito. Mas não pode demonstrar, senão, assusta. Primeiro vc tem que se amar, depois ser amado, depois amar o outro. Encontre um motivo pra viver, o resto vem no bojo. Opostos se atraem, as diferenças são complementares. O amor é cego. Melhor é achar alguem beeem parecido com vc. Iguais se entendem de cara, quanto mais diferentes, mais difícil. Quanto mais iguais, mais brigas. Perdi alguma instrução?
o amor nos tempos do vale tudo
07/07/2011
todos os meus amigos, homens, mulheres, de qq idade e orientação sexual reclamam da mesma coisa: ninguém quer se comprometer. nem o encontro mais mágico, nem as sincronicidades, nem as afinidades, nem os carinhos, nada faz a pessoa amada ficar ou voltar em três dias. todo mundo já começa avisando que “no momento não to querendo me amarrar a ninguém”. Mesmo que vc seja a oitava maravilha do mundo. aliás, ninguém quer a oitava maravilha do mundo pra chamar de sua.
uma outra tendência é namoro com mais de duas pessoas, ao mesmo tempo. casais de três, multidisciplinares. dois com ela, duas com ele, um por cima, outro por baixo e vamo que vamo. substitui um, outro fica no banco. todo mundo bissexual. já estou me sentindo duplamente do século passado pq, além de ser, ops, heterossexual , tb sou monogâmica (com o perdão da má palavra). já fui abordada tipo: “e aí, gata, vc faz a três?” e eu: “não”. ele, com desdém: “mas por quêêê???” eu: “é que eu desconcentro”. A outra modalidade de relacionamento é um namoro aberto, onde todo mundo pode fazer biscate, a la vontê, desde o dia 1 da história. A outra novidade é que muitos homens gays, que nunca pegaram mulher na vida, agora estão experimentando pra ver como é. sem corporativismos.
essa obrigação de aproveitar a vida, de se esbaldar. tanto estímulo, imagem, zoeira, rotatividade, festa, luxúria, sensualidade, permissividade, sinestesia, oferta, drogas, delícias, consumo. a sensação de estar perdendo alguma coisa, ao optar por outra, sugere que o melhor, mesmo, é ficar com tudo. e nem sei se tá certo ou errado. eis a questão
meu laiaraiá
11/05/2011
estou no meio de um ensaio quando a introdução de uma música me catapulta para a inspiração. A idéia cai dentro de mim como moedas tilintando no caça-níqueis. Como de costume, cutuco imagens, paralelamente a tudo o que estiver fazendo e, assim que posso, escrevo até que o texto ache a tradução exata, nem mais, nem menos, para o feeling da inspiração. Com música é a mesma coisa. Um incômodo peculiar. Tento reter a sensação, depurá-la até que ela vire palavra ou música.
Dentro de mim, passeio tão somente pelo que me motivou e seu efeito: a música, a onda que me cobriu, a sensação que ela me deu, as lembranças que ela despejou no meu colo em pleno ensaio. Ele. Saudades dele. Daquele ele. Daquela eu.
Mas o dia foi profissional, um monte de atribuições para dar conta. Véspera de shows diferentes, foco, concentração, objetivo. Vida de cantora. Chego do ensaio, pinto o cabelo e faço mechas enroladas no papel laminado, seráquevaidarcerto?
No tempo de pausa, faço o que tem na geladeira, cogumelos e legumes, salteados, enquanto ouço músicas que preciso aprender. Quando toca o alarme lavo o cabelo, faço hidratação e escova. Faço rolinhos pra manter o cabelo, já que, amanhã, tenho partituras pra arrumar e pastas dos músicos pra fazer, e isso leva tempo. Tb tem unha pra fazer. Os esmaltes nao duram mais que dois dias, é isso? Vermelho, então… Vou pintar de vermelho-cantora. Já cantei muitas vezes lá, mas não tenho intimidade com o Rio Scenarium. Tem também o repertório dos outros shows pra decidir.
O cabelo ficou lindo, a comida maravilhosa, o repertório parece bom. Mas quando sentei pra escrever, aquela inspiração – estranho – me pareceu passada, passado. O que era mesmo que eu ia dizer? Perdi o timming, o mote, a onda baixou, a saudade passou. Já não era sem tempo.
that guy’s in love with u
16/04/2011
nos esbarramos, mais uma vez na vida, depois de tudo, agora na fila do banheiro.
vc está bêbado, eu estou bêbada. a música está alta. vc diz:
- “vc foi a mulher com quem tudo foi mais de verdade comigo, sem eu precisar mudar nada, e por isso eu acho que vc nem existe.”
sorrio, garbosa. acho que somos especiais, um quase-casal assim, de qualidade interestelar.
(nosso amigo bêbado diz, baixinho, abraçado a nós dois, na fila do banheiro: “vcs vão parar de tentar?” sorrisos, tapinhas, pô, qualé?)
Vc conclui: “mas se vc fosse a minha mulher, será que vc não seria igual a qq mulher?”
O benefício da dúvida, que bênção…
in a sentimental mood
16/02/2011
vc mostrando as coisas que eu nunca vi, eu mostrando as coisas que vc nunca viu. risadas. encontro mais que perfeito. na cozinha, mesa sempre posta, vinho, cerveja, queijo azul, pão sueco, tomatinho, azeite. a gente mudava de lugar e falava, falava, falava, falava. troca a música, ah, troca você. e de repente era perfeito não falar mais nada e eu cair dentro de vc, vc de mim. e depois a gente tomava sorvete de chocolate ou eu fazia ganache. e a gente fumava e bebia litros e mais litros de água, fosse naquele verão árido da despedida ou naquele inverno doce em que vc gostou de mim e disse: “Assim, me apaixono e fico”. “Fica, fica!”, eu desejava, fervorosa e muda, enqto a gente se abraçava e se beijava fundo e eu fechava os olhos com força, emanando: “Fica, fica”, e aí, antes que eu pudesse dizer qq coisa, vc me sedava, me enredava, me ganhava, me levava. Nada daquilo era meu, nem seu. Acho que foi por isso mesmo que eu nunca disse, em voz alta: “Fica!”.
E se tivesse dito? E se tivesse dito?
paixão
09/11/2010
Tem gente que fala que a paixão é um inferno, mas eu discordo. Pra mim, a melhor coisa da vida é ficar apaixonada. Depois que passa a paixão a pessoa vira gente e é aquilo, né? Todo mundo tem pentelho, só a bailarina que não tem.
Eu fico maravilhosa apaixonada. Emagreço, componho, escrevo sem parar e me sinto linda, pronta, quente, animada, energizada, no topo da cadeia alimentar. Até o cabelo brilha, os olhos irradiam luz e do centro do peito sai uma rosa vermelha e perfumada. Cafona e superior, é assim que me sinto apaixonada. E livre.
Da ultima vez em que me apaixonei mesmo, bom, deixa pra lá, até hoje nao anotei a placa do veículo que me abalroou.
Sinto no ar um cheirinho de paixão. Como uma adolescente fico pensando que magias eu poderia fazer para trazer a pessoa amada em três dias. Ou menos. Não tenho cara de pedir uma coisa dessas pros deuses, pq depois que a gente lê umas coisas aí, a gente aprende que nem sempre o que a gente quer é que é o bom. Ai, que saco.
Entao mudo a reza: Atenção, deuses do amor, afrodite, vênus, cupido, lembrem-se de mim e joguem uma flor com meu cheiro no colo daquele moreno. Se ele gostar, ele é meu!
O segredo dos meus olhos
16/10/2010
Eles trocaram uns 4 segundos de olhar profundo. Viveram, no passado, uma intensa, conturbada e boa história de sexo e paixão. Em 4 segundos, o olhar que trocaram abriu a cortina e deixou passar o filme. Os olhares disseram, um para o outro: eu sei daquilo tudo. O olhar foi direto ao centro das emoções sem moral e sem racionalidades, onde tudo se justifica pelo que o corpo pede, pelo que o coração sente, pelo que é impossível julgar ou proibir. Mesmo que tudo indique que nada daquilo vai se repetir, mesmo assim. Provavelmente, nunca tocarão no assunto. Mas os olhos se tocarão. E tocarão, eles mesmos, no assunto e falarão a lingua do olhar.
A fala do olhar desconhece censuras e disfarces. O olhar não sabe mentir como as palavras sabem. Quantos segredos se manterão guardados à beira do olhar, compartilhados apenas por quem os viu? Trama de olhares. Olhares inconfessos. Olhares e segredos trocados em silêncio, consentidos. Votos confirmados, amores confessados, saudades, desejos. Tudo lá.
Foram apenas uns 4 segundos. Talvez 3.
lush life
03/08/2010
Acima de todas as coisas quero cantar o que quero cantar e ganhar dinheiro com isso agora, o suficiente pra me sustentar e viver confortavelmente. Só isso. Definitivamente, não preciso de carrão, de diamantes, de personal coach, de bolsa Louis Vuitton, de calça Diesel, de sapato Manolo Blahnik, de férias em NY. Nem preciso jantar no Antiquarius ou beber Dom Perignon. Acho mó mico pagar R$ 500 num par de óculos e sair por aí ostentando aquele Prada enooorme do lado da cara. Mico.
Não quero uma casa no campo, não quero jatinho, não quero apê na Avenue Foch. Troco tudo isso pelo luxo da liberdade. Preciso de pouco. Isso é querer muito? Não me amarra dinheiro, não. Mas formosura.
Não quero garantir o futuro. Quero garantir o presente. A vida, a alegria, a liberdade de usufruir da vida, plenamente, e quero agora! E quero cantando.
Tá bem, to só desabafando, agora tenho que ir finalizar um texto, tenho prazo pra cumprir, mil coisas pra arrumar pra gravação de um videoclipe, amanhã.
Adaptação, realidade, vida adulta. Infinitamente chato demais. Fim.
nós que amávamos a intensidade
14/06/2010
meu melhor amigo está deprimido, perdido nos labirintos da vida. Vida adulta chata, realidade. A vida adulta tb tem me assustado e suas atribuições me metem medo. Eu e minha irmã temos nos preocupado com a família. Falar nos aproxima e conforta. Às vezes eu choro escondida.
meu outro melhor amigo vai ter um encontro. Torcemos pra que seja tudo lindo gostoso e feliz, pessoa legal, que mereça ele e trate ele bem. Estamos todos muito cansando de tantas tentativas e erros (e qtos erros…)
minha melhor amiga está ansiosa, apaixonada, sofrendo, fumando um cigarro atras do outro. está desesperada para ser feliz, como todos nós: “mas por que não posso ter tudo ao mesmo tempo?” pode, claro. então, vamos encantar a vida
eu tb ando buscando a centelha da paixão que nos faz melhores compositores e cantores e torna a vida mais colorida. vou atrás das emoções, estou tentando me manter bem viva.
enquanto tudo isso, a manhã expulsava a noite que pairava sobre a princesinha do mar. you see, eles não sabiam que era impossível…
Mãe
09/05/2010
um dia eu comentei com a minha mãe: “poxa, me deu uma vontade de comer queijo camembert. Fui comprar, achei tão caro… desisti”
no mesmo dia, à noite, qdo eu chego em casa, o porteiro vem me entregar uma sacola. Dentro havia dois queijos camembert, uma caixinha de torradinhas e um bilhete:
“Se eu pudesse realizar seus desejos tão facilmente como posso realizar esse, eu seria mais feliz!”
This is it
25/02/2010
“Cinemamente” falando, tô sempre atrasada. Só vi o filme do Michael Jackson, o This is it, ontem. Com atraso, me dei conta de tudo e chorei copiosamente, impressionada com a doçura, o profissionalismo, a humanidade, a dedicação, a humildade e a qualidade do artista que ele foi. O que me lembrou, claro, da cantora que manda o guru chegar antes, no teatro, pra limpar o ar que ela vai respirar. Ou da outra cantora que dá esporro ao vivo no seu esparro-diretor musical, a mesma que não se dirige pessoalmente a músicos e staff, mas qdo morrer quer virar um orixá, por ter uma vida espiritual imaculada. E haja novena e haja procissão pra lavar o pecado da soberba, um dos piores que conheço.
Mas o que me bateu mais fundo, o mais comovente, foi sentir o amor dele pelo que ele fazia. A felicidade dele em estar ali, dando vazão a toda capacidade, full power, cercado dos melhores do mundo em tudo. Profissionais competentes, dedicados e igualmente felizes por estarem ali no pico do cume do topo da cadeia da excelência. Oportunidade rara, que nós artistas perseguimos e muito raramente encontramos.
Chorei de peninha dele ao pensar que a morte roubou dele esse fazer. Pro artista, o fazer é soberano. Me senti próxima dele, porque sei o que é o prazer de cantar e estar no palco, mesmo nas minhas modestas condições. Temos algo em comum, afinal. Eu que não creio, pensei nele como uma espécie de anjo de todos os artistas, que por toda a eternidade deitará seu manto, cravejado de cristais swarovsky, sobre os palcos, como um espírito bom, só pra fazer circular e filtrar aquela energia tão peculiar e deliciosa. Ele deve estar em algum lugar, louco pra subir num palco e arrasar. Ah, deve…
Se ele quiser, no meu próximo show, humildemente me empresto pra ele matar as saudades do palco através de mim. Como um cavalo de santo. For the love, Maicon! L-O-V-E!
That’s it!
o que quer uma mulher
23/06/2009
nos últimos dias ouvi, de 4 homens entre 30 e 41 anos, a mesma queixa: que as mulheres só querem saber de sexo.
Um deles disse: as mulheres de 20 aprenderam a transar vendo filme de sacanagem na internet, é a referência delas. Acham que o legal é xingar, gemer alto, pedir tapa na cara, fazer caras e bocas. Best performance para um oscar erótico, mas pouco eficaz no quesito intimidade, que afinal, é what it’s all about. E não passam disso.
Outro disse que as mulheres de trinta começam pela cama. Julgam o cara pela performance e nunca mais olham pra ele, caso ele nao seja o que elas queriam que ele fosse. Invariavelmente, um garanhão incansável. Reclamou que elas banalizaram o sexo. Menor sensibilidade para o ser por trás da ferramenta.
O de 41 falou: vc convida a mulher pra ir na sua casa, tomar um vinho, ouvir um som, cozinhar, faz um clima, e ela passa o tempo todo te olhando a perguntar: “quando é que vc vai me levar pra cama?”
o outro, de 36, disse que dispensou uma mulher porque ela perguntou pra ele, enquanto ele tocava uma linda canção ao violão: “vc não vai me comer hoje, não?” Ele ofereceu a porta da rua, gentilmente. Insultado, reduzido ao falo, revoltou-se.
Aqui cabe aquela frase: cuidado com o que você deseja, porque pode acontecer. Não foi isso o que o homem médio sempre desejou? Mulheres que dessem sem frescura, sem cinema e jantar com champagne? Mulheres que desaparecessem depois da transa, como por encanto? Outros morriam de rir repetindo que fulano disse que paga a puta para ela ir embora depois da transa, não pelo sexo. O outro dizia: a mulher ideal se transforma em pizza lá pela meia noite e meia. Pois então, taí o que vc queria. Queria?
Já as mulheres reclamam que querem dar e os homens não querem mais comer, estão todas insatisfeitas, dizendo que os homens correm de compromisso mesmo qdo elas não querem compromisso e nunca ficam tempo suficiente para saber. Há quem lamente que, para alcançar a igualdade entre os sexos, as mulheres copiaram os homens em tudo. E aí, erraram na mão, fazendo inclusive o que odiavam que os homens fizessem.
Vingança? Perda de fé? A mim parece que as mulheres simplesmente mudaram de lente e aprenderam que nem só de amor vive a cama. Lei do mercado, folks, proposta feita, proposta aceita.

segredo
05/06/2009
eu já paquerei um cara feio em busca de um jardim secreto

andei por andar andei e todo caminho deu no mar
O ciúme (Guilherme de Almeida)
28/04/2009
Minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
Que os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei;
Agora que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei;
Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não podes dar a impressão que me deste,
A primeira impressão que me fizeste,
Louco, talvez,
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela
Primeira vez.
confessionário
23/03/2009
- e aí, amigo, tá melhor?
- ah, to bem melhor. Ontem acabei indo até pra cama com outra. Foi até bom, sabe? Divertida, a moça. Batemos um papo cabeça, rimos, ouvimos jazz, tomamos vinho, mas sem frescura. Mulher gostosa, maneira. Manda bem. Fiquei ali, curtindo, quase a noite toda na boa. De vez em quando é que, pô, vinha a cara da outra na minha frente, na hora H, lembrava das paradas da gente junto, sabe? Dava uma desconcentrada… Mas pensando bem, assim, tipo na noite toda, eu devo ter pensando nela o quê? Umas 18 vezes, no total… Pô, bem melhor. Eu tava pensando nela as 16 horas de vigília e sonhando as 8 do sono…

quem poderá, em vão, calar a voz do coração?

















