eu nao tive colegas negros na escola, na faculdade tinha um único negro na turma. Na pró-arte, onde estudei música, também nao tive colegas negros. Professor negro, só de dança e de capoeira ou de pandeiro. Cresci em Ipanema. Os negros da minha infância e juventude eram subalternos, quase sempre. Eu fui a primeira da minha família toda e do meu círculo de amizades a ter um namorado negro.

Felizmente, por causa da minha carreira de cantora, tenho a chance de conhecer pessoas de todos as procedências e frequento  lugares onde tá todo mundo junto e misturado pela música. Tenho amigos de vários cantos da cidade. Aqui no leblon, onde moro, ainda impera o apartheid econômico, os pretos ainda sao subalternos ou da favela. ou ricos e famosos.

Isso tudo pra dizer que fiquei feliz da vida, dia desses, ao entrar na redação de um jornal e ver vários jornalistas negros. Sinto uma espécie de alívio e de felicidade suprema ao pensar que a realidade, não só o discurso, pode finalmente estar mudando.  Racismo meu reparar nisso?

*black is beautiful, música de marcos e paulo sérgio valle. Eu gravei, querem ouvir? tem no myspace:  http://www.myspace.com/andreadutra

preta, preta, pretinha

norman rockwell

natureza viva

31/08/2009

olho pro ceu e vejo como é bom ver as estrelas na escuridão garota eu vou pra california viver a vida sobre as ondas

diga, espelho meu, se há na avenida alguem mais feliz que eu

 O Rio de Janeiro como ele é: sem photoshop, sem flash, sem overdubs

kashmir

26/08/2009

imagino encantadores de cobra e seus cestos de palha e bancas de temperos incríveis, montanhas de pós de todas as cores e perfumes, patchouli e curry e homens de olhos de kajal e roupas brancas enroladas pelo corpo e turbantes lindos, alvos, e mulheres de olhos de serpente, semicobertas com a seda mais pura, tingida com cores que nunca se viu, bordada com fios de ouro, ou o algodão finíssimo tingido de ocre e de vermelho escuro e há um forte cheiro de incenso massala no ar, e as vacas abanam seus rabos sentadas no meio da rua.

a bordo do tapete vc tb pode viajar, amor

eu sempre utilizo erika baduh. ela é a minha tradutora de moods íntimas, como bill evans.

ele esteve aqui em casa hj, mero acaso, depois de tantas idas e vindas e terminadas definitivas: “bota uma música aí”…

“ah, escolhe vc aí , enqto eu sirvo o vinho”, eu disse.

então ele escolheu erika baduh. a minha erika baduh:  I’m an orange moon, I’m brighter than before…  

ele sempre me ganha, sempre, mesmo quando estou jogando em casa. fenomenos da bioquímica.

erika canta ainda, depois de ele já ter partido: this is how I look without makeup, ela diz. Sei como é, amiga, sei muito bem como é tirar a maquiagem.

um cheiro de amor espalhado no ar a me enlouquecer, quisera viesse do mar e nao de vc

tenho a sensação horrível de que amanhã vou acordar com 80 anos, assim, no mesmo piscar de olhos que me projetou dos 20 aos 40 anos, num flash. e ser cantora é como ser atleta, chega uma hora que o trabalho vai parando de rolar, até não rolar mais. é só olhar em volta. eu tenho uma sede infinita de cantar. aposentadoria é coisa pra quem precisa se livrar de 40 anos de prisão fazendo a mesma coisa chata. o cara dá uma banana pro passado e vai pescar, nunca mais quer ver aquela chatice pela frente. um cantor se aposentaria de quê?

tenho uma amiga que diz que em certas coisas não se pensa, pra gente conseguir acordar e levantar da cama todo dia. mas ela consegue fazer isso. eu, não. enquanto penso sem parar, busco, desesperadamente, realizar o irrealizável: esticar o tempo pra caber mais. revoltada, não me contento com o que tenho. é muito pouco pra minha sede. à força tento apaziguar o espírito, trabalho duro, e espero todos os dias pelo milagre da mudança. 

não consigo aplacar essa dor nem com malhação pesada, nem com meditação, nem com mudança de vida, nem com alimentação viva, nem com sexo, nem com amor, nem com homeopatia, nem com bolinha, nem com foco, nem com trabalho, nem com caretice e nem com doideira. com nada.  só cantando.

já conheço as pedras do caminho e sei também que ali sozinho eu vou ficar, tanto pior

João me conta que leu o livro Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West, de Gregory Maguire, que conta a história da Bruxa Malvada do Oeste ou, no original, The Wicked Witch of the West, do Mágico de Oz, antes de ela virar bruxa, antes de Oz. Antes de se tornar aquela figura abjeta, ela era uma moça normal, que foi rejeitada por todo mundo, desde sempre, por ter nascido verde. E por isso, por essa rejeição à sua particularidade, ela se tornou bruxa.

Caio aos prantos, ao telefone, com essa frase: “rejeitada por ter nascido verde” e morro de pena da bruxa malvada do oeste, como se finalmente eu tivesse entendido um velho sentimento meu: eu sei o que é ter nascido verde, eu sou a bruxa malvada do oeste! Passei as maiores e mais solitárias infelicidades por ser verde. Passei as maiores frustrações tentando ser de outra cor. Assim como todo mundo e suas nuances de cores absolutamente pessoais. Todos nós somos uma cor no arco-íris que é o mundo real, este que habitamos, com suas true colours.

I have a dream, disse Martin Luther King, sonhando com o dia em que brancos e negros sentarão, realmente, à mesma mesa. Eu também tenho um sonho: que as pessoas nunca mais sejam rejeitadas e precisem virar bruxas por terem nascido brancas, negras, amarelas, azuis, vermelhas ou verdes.

oi, amiga

oi, amiga

Meu orgulho

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Gritos e sussuros, de Bergman, que é hors concours nessa categoria

Dançando no escuro, de Lars Von Trier

Dogville, de Lars Von Trier (ih, ele de novo)

Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky

Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu

A liberdade é azul, de Kieslowski

sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar?

Uma coisa é certa: quem nunca presenciou ou participou do processo de criação e realização de um produto audiovisual, não faz a menor idéia da trabalheira que dá fazer um disco, um filme, uma novela, um dvd e afins. 

Em verdade vos digo: pra conseguir um bom resultado, a gente tem que pegar na enxada e capinar sem dó. Em música, por exemplo. O produtor e o engenheiro de som decidem de que lado do estéreo do seu som você vai ouvir cada um dos instrumentos de uma música. Um por um, faixa a faixa. Isso é apenas um dos detalhes sórdidos desse processo, de que vou privar-lhes. Senão seria como dar a fórmula do arco da ponte aos transeuntes. Os bastidores não dizem respeito ao público, o público quer passar na ponte e ouvir os discos.

Não é só ter uma linda idéia, chamar os amigos pra ensaiar na garagem, fazer uns shows, gravar um disco, botar uma musica na novela e saltar para a fama. Não funciona assim. Realizar é uma arte à parte. E requer um talento especial. Quanto menos grana, mais o artista tem que se envolver em todas as etapas do processo. Estamos virando uns superartistas. Entendemos de contrato, de produção gráfica, de direção de arte, de figurino, de cenário, de assessoria de imprensa, de vendas, de divulgação e de internet. Capinamos. Mas de salto alto, batonzinho na boca e sorriso nos lábios.

As profissões artísticas, não sem razão, tem uma aura de felicidade e celebração que faz as pessoas acharem que artista não trabalha e que aquilo tudo nasce prontinho et voilá!  É só descer do palco carregada, envolta em (falso) mink e brilhantes, entrar numa limusine  e correr para o champanhe e as piscinas cheias de rapazes incríveis.

Pensando bem, já estou há tempo demais na fase de enxada. Quando começa a parte da piscina? ;)

ele está entre nós

ele está entre nós

livre associação

17/07/2009

preciso de um sapato novo, baixo e fechado e de um alto de bico redondinho, bem fofo, mas odeio todos que vejo. e acho caro. tem dias em que sinto uma pena e uma saudade de doer, mas de doer, mesmo. meu cabelo está uma cafonice só, sabe cabelo meigo? onde fica o ctrl+z? parece que nunca mais vou amar e ser amada. preciso urgentemente de férias de verdade. maldição de ex-marido é pior que praga de sogra. procura-se um gatinho achado na Lapa e perdido em Santa Teresa, no Curvelo. Paga-se bem. ”vc virou a Beyoncé!” foi a melhor do ano, so far.  preciso urgentemente de um produtor-padrinho. quero viajar pelo mundo cantando em mil festivais maravilhosos e conhecendo pessoas e vivendo o que há pra viver. onde fica a porta de entrada? aquela do Caneca tb foi fofa, mas foi no ano passado! preciso de uma editora pra editar meus livros, acho que são bons. a praia ainda é o melhor lugar do mundo. queria conseguir dizer o texto que fica parado no balaozinho acima da minha cabeça, enquanto eu falo a fala de outro personagem. não ter nada é um conforto, a bagagem é leve. eu tenho um vidão de cinema, ninguém nem imagina. se eu conto, parece mentira, então nem conto. ou será o vício dessa lente que me dá esse olhar? toda mulher é meio leila diniz. o mais dificil de tudo são os cálculos do porvir, os lançamentos futuros da vida. quem sabe ou pode fazê-los?

desde o dia em que passei numa esquina, pisei num despacho, bem que procuro a cadência e não acho