ciranda

16/12/2011

minha amiga c. gosta da magia e sedução da noite. mora na lapa, trabalha na lapa. pra sair do trabalho e ir pra casa precisa, necessariamente, passar pelo furdunço mais abissal, onde todo mundo que ela conhece está celebrando a vida eterna. resistir, quem há de?

Ela me manda uma mensagem, via chat, estranhando sua inusitada placidez: “vc acha muito esquisito a pessoa, de repente, ficar calma e decidir passar o réveillon na roça?”

respondo que, nao, nao acho nem um pouco estranho mudar de itinerário. em volta de mim, meus grandes amigos estão todos em pleno ato de refazer os roteiros. embora apegada e canceriana, sinto segurança na mudança, fator humano, que procura melhores atalhos o tempo todo. é a excelência da raça, tentar outras saídas. meu handicap é ser volúvel, reconheço muito bem o valor da mudança, da liberdade de mudar de tudo.

faz muito sentido a cadência onde a vida traz movimento que traz mudança que traz liberdade que traz curiosidade que traz descoberta  que traz transformação que traz novidade que traz coragem que traz fé que traz vida.

 

*foto de mosaico feito por Lia Silveira.

 

claridade

10/12/2011

meu coração está claro. não tenho mais nenhuma preocupação com nada daquilo. tudo se mostra como simplesmente é: a música, a vida, a beleza, as escolhas, os resultados das escolhas. bons resultados. maus resultados. todos bons.

tenho um sonho recorrente, de escadas em espiral, de elevadores pro sem-fim, de vistas de janelas de apartamentos altos, para a paisagem triste dos fundos, das áreas de serviço com roupas penduradas em secadores pensos, e garagens cinzas, e venezianas quebradas, basculantes de vidro crespo, esquadrias de alumínio, ninhos de pombos,  becos e passagens por onde parece impossível penetrar. e eu pra sempre subindo e descendo e achando o poço do elevador e a ultima saída da escada de serviço. pelo porão, pelo telhado, pela emergência. sempre assim, além do limite. me esgueirando, claustrofóbica, rumo à luz e ao ar livre.

de onde estou hoje, sorrindo de mim, aviso aos demônios dos sonhos que não quero mais sonhar com espirais infinitas deceptivas. quero só que me indiquem as boas saídas.

tenho tanta felicidade e conforto que posso, humildemente, simplesmente relaxar e pedir: só mais uma taça de tinto, por favor.

e se comer fosse sempre vegetais frescos e frutos do mar grelhados e queijos e pão integral e azeite e chocolate? e se beber fosse sempre água e vinhos e  café e chá? e se a alegria fosse sempre encontrar pessoas queridas, com música, onde todos os tipos, de todas as idades, fossem bem vindos e se sentissem bem, sem hora pra acabar ou pra começar, sem firula? e se namorar fosse sempre com um homem maravilhoso, bem humorado e gostoso, cúmplice, carinhoso e parceiro? e se viajar fosse sempre para se perder de vista e colocar outros olhares nos olhos? e se chover fosse só para lavar e matar a sede da terra e se o sol banhasse as águas limpas e as areias brancas, brilhando realmente para todos, em igual intensidade? e se o vento só ventasse para carregar o mal pra lá e o bem pra cá? e se todos os dias dessa vida a gente acordasse de olhos bem abertos para o que tem, e não para o que não tem?

alguém comenta que a fulana perdeu o marido pq “não se cuidou”. Não se cuidar, aí, significa que a mulher não manteve a aparência que devia: malhada e magra. “A concorrência é forte”, dizem, “mulher tem que correr atrás, senão perde o marido” blá blá.  Carinho, amor, amizade, parceria, tesão, nada disso importa, só o corpo com tudo em cima. Não adianta ficar bonitinha, arrumadinha, cheirosinha. Não adianta ser gente fina, companheira, trabalhar feito uma escrava pra pagar conta, criar filhos, nada disso adianta. Tem que estar com tudo em cima. Fico imaginando que essa mesma pessoa deve achar que, por estar fora desse padrão, eu não mereço mesmo ter um marido. Se quisesse ter um marido, eu deveria “correr atrás” pra ganhar da concorrência. Interessante essa seleção natural de gente. Mulheres não magras e malhadas merecem mesmo perder o marido. Talvez devessem ser eliminadas, para aí termos uma sociedade toda de “gente bonita”. Neguinho inverteu completamente os valores ou é impressão minha? E o homem? Pra esse tipo de mulher, homem pode tudo, pode qq coisa, pode até ter outra(s) mulher(es) na rua, contanto que volte. A mulherada sempre perdoa. Qualquer semelhança com os anos 50 é mera coincidência.  Coisas do modernérrimo sec XXI…

 

 

 

 

the BB way

23/11/2011

reza a lenda que as empregadas marroquinas são silenciosas, invisíveis, imperceptíveis. Andam pela casa sem que ninguém as note. Tenho sonhado com esse despercebimento.  Jamais dans la vie eu tinha sentido esse ímpeto Greta Garbo, esse I want to be alone tão profundo, essa vontade Brigitte Bardot, de descer do palco e ir me ocupar de focas. Brilhar, neste momento, não me pertence. Não tenho dentro de mim a matéria com a qual se fabrica o brilho. Kafka. Um dia acordei e não era mais meu corpo, minha vida, eu. Não, não tem consolo, nem volta, nem choro, nem vela. Quero silêncio, sombra e uma pausa de mil compassos.

 

um post de peso

25/10/2011

Qdo minha mãe me levou, pela primeira vez, ao médico de regime, eu tinha uns 13 anos. Ele disse: “tadinha, está horrível!” Ela disse: “A família do meu marido é de gordos…” Ele disse: “É… a culpa é sempre do marido…” Fui a mil médicos desde então.

Uma maldição genética. Guardei, a vida toda, temor e ódio profundo dessa herança. Eu só comecei a ser gorda, mesmo, a partir dos 9 anos, quando comecei minha primeira dieta. Aos 3, qdo eu tinha apenas bochechas de bebê, meu tio – gordo – me apelidou de Gorda. Era um jeito de ser carinhoso. Gorda.  Se fosse hoje, seria bullying.  Ser gorda me aterrorizou a vida toda, aquele shape familiar me assombrou e, enfim, meu pesadelo se realizou!

Engordei muito, cada vez mais, emagreci muito. Inúmeras vezes, sempre achando que era a última vez. Me exibi, me escondi. Desisti da dança: gorda não dança. Vivi a maior parte da minha vida envergonhada de mim, andando na beirinha do mundo, mudando de calçada, tentando me recolher à minha insignificância de casta inferior, de gorda-sem-vergonha. Silenciei. Sonhei. Fracassei. Não é nada fácil ser uma garota gorda no Rio de Janeiro, cidade onde é obrigatório ser gostosa e passar a vida de biquíni, de vestido de alcinha e de shortinho. Passei dez anos de roupa preta e pele branca, uma saída honrosa do imperialismo tropical carioca. Sofri bullying de mim mesma, odiei meu corpo a vida toda. Sempre tive minha deficiência apontada pelos olhares e comentários da família, dos amigos, e até pelo porteiro desconhecido: “Tem uma moça forte aqui na portaria”.

Fui agredida como A gorda, na rua, muitas vezes. Houve pessoas q pararam seus carros, abriram os vidros, desaceleraram, só pra me sacanear qdo eu estava pedalando ou caminhando ou até correndo na praia: “Vai, baleeeia, tu tem é que correr até a África” ou “Vai arriar o pneu da bicicleeetaaaaa, sua escroooota!” Nunca contei pra ninguém porque, de certa forma, achei que era o que eu merecia ouvir. Tomava aquele tiro frio e chorava na bicicleta, mas continuava. Sempre que emagreci, pessoas que nem falavam comigo me enxergaram, outras quiseram até me namorar. Eu sempre achei que eles estavam certos. Tento entender todos os lados, meus e deles. Todos os pesos e medidas. Coisa de gordo isso de ser compreensivo demais.

Se houvesse um milagre, me candidataria, mas não acredito em milagres. Nem naqueles que eu mesma operei, pq dentro de mim, existe alguma coisa que jamais mudou e que, a essa altura, acho que jamais mudará. Antes, nem queria emagrecer, para não passar pela infelicidade certa de engordar. Hoje, sem forças pra mudar tudo de novo, vejo aquele velho pesadelo tomar o lugar do meu sonho, no espelho. Na minha idade, será que não está na hora de começar a me aceitar?

Pra conseguir sobreviver, armei uma carapaça de poder e coragem e subi no palco. Perdi alguns trabalhos por ser gorda e compreendi, pq sempre carreguei a sensação de ser “nigger of the world”, e me recolhi, com a submissão dos que se compreendem inferiores. Semi-invisível, desfeminilizada pelo mundo, aprendi a ser uma gorda legal, de personalidade. A confidente do amigo gatinho que tava a fim da amiga gatinha. A boa cia, bom papo, bom copo, um tipo de mulher-cão, melhor amiga do homem. Mas nunca a convidada para o reservado do restaurante japonês. Fui infeliz no amor a vida toda. Minha sensação de inferioridade pautou a minha vida afetiva.

Sofri, mas inventei um lugar pra existir. Fiz de tudo pra mudar, mudei por alguns períodos em que quase acreditei na transformação definitiva, mas sempre sucumbi e, dentro e mim, alguma coisa sempre me impulsionou de volta à velha forma. Nunca foi confortável ser eu mesma, mas sobrevivi, mesmo deficiente. Meu handicap foi ser inteligente, multitalentosa. E como todas as pessoas sobre a terra, mesmo as marcadas, tenho meus momentos de distração e felicidade.

Leio as pessoas falando do sobrepeso, do outrora amado Ronaldinho, com nojo, com desprezo, com sarcasmo. As pessoas têm horror a gente gorda, mulher gorda, então… piadas, livros, humor negro. Também tenho preconceito contra gordo, é óbvio, depois de tanta discriminação, rejeição e infelicidade. Mas estou aqui escrevendo sobre isso, tornando pública essa intimidade, pq de repente senti essa necessidade. Pq sei que tem um monte de gente que passa por isso e pq todas as outras pessoas não têm a menor idéia do que é passar por isso. Nesta sociedade, não acredito que seja possível ser gorda e feliz. É proibido estar acima do peso. A gente sublima, desiste, disfarça mas, no fundo, não abandona o sonho do milagre da metamorfose, de se misturar na multidão, de vestido de alcinha que, aliás, nunca usei.

Cansei de me desprezar, de me odiar, de me desculpar, de me esquivar, de me esconder, de sofrer por não ser quem eu não consigo ser. Por mais que todos os olhares, revistas, jornais e sites me mandem ser, desde que me entendo por gente. Cansei de viver tentando me entender e me explicar. Mais de 10 anos de terapias. E a vida toda de buscas, de tentativas silenciosas e disciplinadas de reprogramação, de rezas, esperanças e promessas, de projeção astral, de auto-sugestão, de hipnose, de deprê, de mudanças, dietas, bolinhas, drogas e radicalismos. Tudo.

Vivo tentando encontrar a cura para o meu defeito – ou seria pecado? – original. 30 anos lutando contra mim mesma. Rejeitada por mim mesma e pelo mundo, durante 30 anos, sem conseguir me modificar nem um milímetro. Até a astróloga fala: “com esse mapa, vc sempre vai ser farta”. Dureza.

Isso já doeu de arrancar pedaço. Agora dói um pouco menos. Sei que a recaída de um gordo é a maior entre os grandes viciados em drogas: 90% emagrecem e, depois de um tempo, reengordam. A vida tb comprova: quantos gordos, que vc conhece, emagreceram e nunca mais engordaram? Dos meus, nenhum, nem os que operaram o estômago. Então pq o mundo não pode simplesmente admitir que há gordos e magros e pretos e brancos e altos e baixos e gays e heteros. Todo iguais nas suas diferenças.

Antes que eu me condene à infelicidade da exclusão perpétua, de me recolher à vergonha do fracasso, e escolher viver à sombra permanente, me escorando nos cantos onde me sinto invisível, ou num personagem visível demais, hors concours, eu queria só conseguir me aceitar, relaxar, pra viver em paz. E queria falar sobre isso, pq esse tem sido um segredo insuportável de guardar. Sou a evidência física da sua existência. Olhando em volta, depois de tudo o que já vi, buscando algum conforto na inevitável maturidade, tenho certeza de que a vida é muito maior do que um número na balança ou numa etiqueta do guarda roupas. Talvez falando isso em voz alta, assumindo isso publicamente, eu consiga acreditar e me libertar para, enfim, ter paz.

Autoestima, voz, vida, talento, fazer meu trabalho, fazer sexo, amar e ser amada, correr, pedalar gorda ou magra, ir à praia de biquíni, pular carnaval, ser mulher. Quero o meu direito de ir e vir.

I’m not in love

18/10/2011

preciso me apaixonar urgente. preciso me apaixonar pra sharpear a cor da vida. pra voltar a achar bonitas umas músicas, umas frases, pra apreciar Jorge Vercillo, sempre falando de amor como uma epifania, um momento da ascenção, de iluminação. Pra encolher a barriga. E tb pra ficar horas me olhando no espelho, horas passando creme nas pernas, tirando sobrancelha, fazendo unhas.  horas feliz. com aquele canhão de luz apontando de dentro pra fora. quentura. aquela falta de fome, aquele fastio, cheio de borboletas no estômago. e também para andar sorrindo na rua, para estranhos. e pra ter a felicidade de esperar o telefone tocar, e ele tocar. ficar apaixonada é um inferno, uma montanha russa, um desassossego, um aluguel. muito mais legal do que a paz-eterna-amém.

 

quereres

13/10/2011

uma longa viagem pela Rota do Sol, de carro

uma reforma completa no meu apartamento

um apartamento pra chamar de meu

R$ 20 mil agoora

uma reforma completa em mim, na clinica do rômulo mene

um mês no kurotel com a minha irmã do ladinho

a cura

um empresário com dinheiro no bolso, bons contatos e visão de mercado

muito trabalho bacana e bem remunerado, dentro e fora do Brasil

um namorado maravilhoso

ouviram, amigos do além? a todos, meu cordial obrigada

*foto de arte de Thereza Dutra

a moura torta*

04/10/2011

Sempre achei as mulheres bonitas seres da primeira divisão. Sempre me achei a patinha feia, no máximo a gordinha simpática, que saía sozinha da festa. Segunda divisão. Desprovida da qualidade “gatinha”, passei a vida achando que as meninas lindas eram as princesinhas e eu, a borralheira, a moura torta. Achava uma coisa maravilhosa ser gatinha.  Só pelo prazer de ser linda e de ser desejada pelos seres masculinos da primeira divisão. E de sair bem acompanhada da festa. Bom, isso seria realmente bom. Mas quando fiquei dourada e gostosa,  nada mudou. Continuei saindo sozinha da festa. Ou mal acompanhada. Patinha feia é gen dominante, mal secreto.

Com o tempo, a gente vai vendo mil coisas e descobre que, embora o mundo trate melhor as pessoas bonitas, a vida é a mãe da biodiversidade, que a todos acolhe, mesmo as patinhas feias, as borralheiras e as mouras tortas. E que outros atributos perduram no tempo, para além da beleza. O que de certa forma é uma libertação, pq quando a gente nao é mais tão jovem, tudo isso dói menos. A gente tem que achar leveza nessa brincadeira. Em algum momento, é favorável que a gente simplesmente aceite as nossas limitações e siga em frente, com alegria, enxergando além. Lutar contra a natureza, e contra o tempo, é esforço vão. As pessoas não são inquebráveis, inoxidáveis. E tenho horror a sair por aí de cara branca, usando filtro solar fator 80, pra chegar aos 90 mais gatinha, coisa que eu nunca fui, mesmo. Dessa, to livre!

 

 

*personagem da literatura infantil, bruxa feia caolha e manca.

 

quase milonga

02/10/2011

todas as vezes em que eu usar esse perfume hei de lembrar daquele vestido preto, e de você, numa ladeira da Lapa, me puxando pra vc, dizendo: “esse cheiro, esse cheiro, que cheiro é esse, menina?” (fazia tempo que eu não era mais menina).

e depois um beijo, outro beijo, um cheiro. Por dentro de mim, uma lembrança de buenos aires, de onde eu acabara de chegar, cheia de tango. Vc dançou comigo, sem saber, quase milonga: “me tira daqui, me leva, eu não sei dançar…”

E sabia. Sabia, sim.

Dancei

R.E.M.

13/09/2011

tenho tido pesadelos, todas as noites. dentro da minha cabeça há um circo de horrores, uma galeria de espelhos, uma feira livre, uma cidade no alto de um penhasco,  uma praia acidentada, um cais e uma estação de trem. e sentimentos de inadequação, como na adolescência.

no passado, durante anos, tive pesadelos.  tantos, que não dormia, nem de noite, nem de dia. os piores terrores noturnos. e diurnos. os piores. pensei em escrever pro stephen king, pra dar umas idéias sobre coisas horríveis pra escrever nos contos. nao sei como sobrevivi, assim, inteira e maneira. qdo fui  morar sozinha, passou, sublimei. ou quando mudei de casa. (à voir.)

o fato é que pessoas assim, como eu, são dadas a essas suscetibilidades. nem sei explicar, mas um pesadelo desses é um dia inteiro de trabalho, é um amontoado de energias pra desembaralhar durante dias. cansa. esgota a pessoa. queria ser passada num filtro, numa moringa.

voltar a ter pesadelos diários, agora, me dá uma sensação de return to forever. daqui, penso, exausta: será, que, afinal, havia mensagens significativas naqueles sonhos? (à voir)

PS: antonio disse: “vc carrega uma tristeza, mesmo quando está feliz.”

eu digo (mas não pro antonio):  “I under rated u. hate u(me)  4 that.”  blam!

 

jardim dos sonhos

08/09/2011

sonhei que estava com a minha irmã no apê onde moramos e crescemos. Eu resolvia limpar o sofá. Quando eu tirava as almofadas, eu encontrava umas pluminhas pretas, que eu tentava tirar com um espanador, sem sucesso. Eu dizia: “meu deus, como isso pode estar sujo assim?” E ela: “Não, isso não é sujeira! Isso são flores.” E como acontece nos sonhos, apareceram florezinhas roxas nas plumas pretas e quando olhei novamente, havia ali borboletas. Minha irmã disse: “É que pra cada borboleta que nasce, nasce uma flor. Elas são chamadas de consoladoras”

Minha irmã sempre me consola com a possibilidade de um jardim.

a gira

05/09/2011

a roda gira numa velocidade frenética. sei que nao é assim pra todo mundo. mas as pessoas também não estão prestando atenção ao que está em volta. a vida é suficiente. dinheiro, não. por isso é melhor ser do que ter. ser não acaba e pode mudar o tempo todo. a gente chora, é mais um giro da roda. depois ela para em outros lugares, melhores e piores, on and on. pisar o chão, cantar uma canção, comer um doce, mergulhar no mar, como dar valor ao banal, como ter certeza de que os sentidos estão plenos, ligados para perceber a tonalidade de cada elemento que nos atravessa e apreciar a sua particularidade e impermanência? difícil é focar no que o tempo trás, não no que ele tira. há glamur na vida, mesmo de cara lavada e tênis. mesmo sem um puto no bolso. de repente, pintar as unhas me pareceu uma coisa estranhíssima, logo eu, que nunca economizei nos adjetivos. os amigos nos mostram quem somos, porque os escolhemos e porque fomos escolhidos por eles. algumas amizades merecem ser mantidas por questões históricas, para que possamos nos reconhecer depois que a gente tiver se modificado completamente. fazer amigos novos é uma das boas coisas pra se fazer na vida, sempre. favor nao confundir intimidade com invasão de privacidade. gosto mais de mim quando a pomba gira está de frente. ah, os homens gostam, sim, das gordinhas.


Ilusão de ótica

28/08/2011

Toda vez que você chegava perto de mim

Era um arrebol na minha frente

O vermelho de todos os crepúsculos

De todas as alvoradas

Nada se mantinha de pé no meu campo visual

De olhos obliterados

Eu me atirava

Como quem pula de uma janela, vendada

Como quem se joga de um trampolim

Numa piscina funda e dourada


Toda vez que você chegava perto de mim

Eu me sentia aberta

Como uma orquídea lilás

Como uma planta carnívora

Que espera, doce e molhada

Pela sua presa

Tudo se tornava quente à nossa volta

Derretíamos icebergs distantes

Provocávamos avalanches

As neves de todos os picos, melavam

Aguavam de tanto calor


Toda vez que você chegava perto de mim

Era a música de deus

Que me acordava

Trazendo-me de volta à vida

Preenchendo os meus silêncios com beleza

Os vizinhos acordavam com o nosso som

Acordávamos os dias, como os passarinhos

Chorávamos de rir

Mil faltas, mil excessos

E a nossa sensação de raridade


Por isso, naqueles dias

Depois que você saiu

Jurei que você voltava

Jurei que você voltava

testemunho

25/08/2011

por que só existem igrejas para reunir aqueles que se sentem pessoalmente atendidos por deus e socorridos por seus supostos milagres? ou para aqueles que estão na fila do atendimento?

Por que não há uma igreja que reúna aqueles que passaram a vida batalhando, se dedicando, crendo em milagres, rezando, pedindo, meditando, fazendo novenas. acendendo velas, fazendo promessas, acreditando fervorosamente, do fundo do ser, sem jamais serem atendidos por ninguém. Para quem nada aconteceu, nenhum milagre foi realizado e nenhuma graça alcançada. Só o dia-a-dia. Mas quanto mais ferrada, mais a pessoa crê. Crer é a tal da última esperança que morre. E professar o não-crer implica o medo de ser ouvido – e castigado – pelo deus-pai. Na dúvida, né? Vai que o cara era o próximo da fila e foi reclamar logo na hora do atendimento.

Fé insuficiente, dirão. Dedicação insuficiente, dirão. E quem detém o medidor de fé e de dedicação? E quem atribui o respectivo resultado? Ah, é o próprio crente que faz tudo? Então fé = atitude.  Para quem consegue/pode/sabe agir. Pra todos os outros, a reza.

Todas as vezes em que fui ajudada, foi por gente que me ama, a quem sou gratíssima. Todos deste plano humano. “A vida é um dom”, dizem, “não seja ingrata”, mas sei que a vida também pode ser um estorvo interminável, um trabalho de Sísifo. Na maior parte das vezes, mesmo focada e correta, não fui soberana, não pude escolher os resultados do jogo, por melhor que tenha jogado. Jogo insuficiente, dirão.

Não adianta a ilusão do timão. Quem navega é o mar.

amor

21/08/2011

por que ele nao pode simplesmente se oferecer, romper o silêncio, anunciando a chegada,  quebrando a frieza dos dias que se repetem, iguais, por igual? o telefone poderia tocar, chamando, deixando aquele recado que ocupa toda a secretária eletrônica. Ou podia um email chegar avisando: “chegou, agora é com vc”. Uma faixa na praça, uma pichação no muro, o asfalto caiado em frente à janela, um carro de som dando voltas no quarteirão, avisando: “Amor, cheguei”. E por que não?

Uns ensinam: se vc quer encontrar amor, acredite na magia. Vc acredita. E nada. Outros dizem: ponha os pés no chão, pare de sonhar. Vc finca o pé no chão. Nada. Sinalize! Mostre o que pretende, se posicione.  Ops. Não, não sinalize! Não atropele acontecimentos, não queime etapas. Olhe em volta, com cuidado, seu vizinho de baia, seu colega de turma, procure mais perto do que vc imagina, debaixo do seu nariz. Pare de procurar!  Quem procura, espanta. O segredo é  querer, muito. Mas não pode demonstrar, senão, assusta. Primeiro vc tem que se amar, depois ser amado, depois amar o outro. Encontre um motivo pra viver, o resto vem no bojo. Opostos se atraem, as diferenças são complementares. O amor é cego. Melhor é achar alguem beeem parecido com vc.  Iguais se entendem de cara, quanto mais diferentes, mais difícil. Quanto mais iguais, mais brigas. Perdi alguma instrução?

sonho

19/08/2011

 cânhamo egípcio, 500 fios, brancos  lencóis,

noites inquietas, claras de lua, quentes demais

cortinas paradas, varandas abertas

o tecoteco do ventilador

 mosquiteiro de voile

 durmabem, espirais de fumaça

ruas desertas e casas abertas

praias de areia bem branca e azuis

mãos, as tuas, em mim

sonhos, perdidos, os meus,

e sol

 

 

 

 

 

parole parole

15/08/2011

ando anotando posts mentalmente, me satisfaço em ter idéias e registrá-las por dentro. logo depois desaparecem, mas eu nem me incomodo com isso. hoje mesmo eu pensei numa coisa que seria legal de colocar em palavras,  mas aí, de uma hora pra outra, a idéia se perdeu de mim. Estamos numa fase assim: as palavras não estão atraentes pra mim. E nem eu pra elas. Mantemos nossa distância segura, o cordial dia a dia, muitas vezes trabalhando juntas, outras só no blá blá blá cotidiano.  Parole, parole, parole.

plano B

25/07/2011

O andar 71/2 do Quero ser John Malkovich;  uma coisa entre uma coisa e outra coisa;

A plataforma 9 3/4, onde Harry Potter embarca pra Hogwarts, escola de magia;

O guarda-roupas das Crônicas de Nárnia e lindas florestas encantadas onde se refugiar;

A Terra do Nunca e o congelamento do tempo;

A Terra Média, dos Hobbits, com as casinhas redondinhas e fofas e fumacinha saindo da chaminé;

Pandora, de Avatar, e suas anêmonas flutuantes e seus rios fluorescentes;

Shangri-lá e suas fontes murmurantes.

Supra-realidade: procura-se. Paga-se bem.

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