este post tem trilha sonora:

Você, barman-DJ-modelo da boate hype. Eu, cantora do Rio, em temporada na cidade. Dois na moda naquele momento e lugar.

Sopa de cabeça de peixe na praia do Pina, no velho puteiro, paredes azuis, sedução. Vc largando sua namorada gata pra ficar comigo, a gente na moto: tenho medo, vai devagar. A gente amanhecendo, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Almoço no motel, cama redonda: Mãe, desmarca meus alunos, to pegada aqui…

Meu Mauricio de Nassau, meu descobridor dos sete mares. Pernambucano do interior. Lindo. Louro. Galego do zôio azul. Meu James Dean do agreste, rebelde, caladão. Saudaditu, você dizia.

Calado, me levou pra comer peixe seco salgado com cachaça e limão, numa casa de chão de cimento e paredes cor de rosa, TV ligada, forró tocando no rádio, santos na parede, cerveja muito gelada. Ficamos bêbados, nos apaixonamos, nos beijamos, ralando os cotovelos nos muros das casas do caminho, pulando no banco de trás do carro, aimeudeus, quero morar aqui. Fica comigo, fica aqui.

Aí você sorriu pela primeira vez. Ganhei, pensei! Tá comigo, é meu! Era no pé de uma ladeira. Tinha uma igreja por perto. E mais ladeiras e igrejas. Peguei as malas na bela casa de Olinda, obrigada-amei-foi-lindo e partimos, de fusca emprestado, você dirigindo e feliz, me levando pra casa, pra mais uma semana, mais uma só, tá? Centro antigo de Recife, seu apê rachado com mais dois: – mãe, desmarca meus alunos de novo, vou ficar mais uma semana, muitas paradas rolando…

Café da manhã duas da tarde, cará com manteiga, queijo coalho, ovo frito, café doce, fraco e ralo no copo de requeijão. Maconha. Chuveiro quente. Vc me exibindo: essa é minha mulher. Eu prosa de ser a sua mulher, de saltos  enormes nas pedras do chão da velha Recife.

Impossível dormir naquele quarto onde o sol se plantava bem de frente, na hora em que a gente deitava e se pegava, e pegava fogo nas paredes brancas, a cortina velha, despencando. Calor, ventilador barulhento, beijo na boca, maconha, o corpo grudento. Culpa, tesão. Galego dos zôio azul. Delícia, grude, calor, Recife.  Casa comigo pra sempre.

A sua irmã me puxou e falou em off, no almoço de domingo: Casa com ele, menina, dá logo um filho pra ele. Nunca vi esse homem tão feliz! Mudou até a cara!

Você tinha 26 anos. Vamos fugir? Quero que vc conheça minha cidade, minha mãe, quero casar com você, ir morar no interior e te fazer um monte de filho, até morrer. Sim, vamos. Nunca amei ninguém assim. O hotel barato no centrão velho, nossa festinha particular, o lençol que mal cobria o colchão, a TV do quarto ao lado, sexo com amor o dia todo, chuveiro gelado, suco de umbu. Nossos filhos subindo em árvores, felizes, uísque, noites em claro, juras de amor. E como choramos…

Tenho que ir, a grana acabou, vai me ver… queria ir com você… volto logo, é até barato se pensar… a próxima é a minha vez… vou, me espera… vem… vai…

Ainda guardo o seu retrato. Fazia muito calor. Eu tinha 25 anos.

Meu amor eu não me esqueço /Não se esqueça, por favor… (Para um amor no Recife, Paulinho da Viola)

a razão porque mando um sorriso e não corro é que andei levando a vida quase morto quero curar a ferida quero estancar o sangue e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor meu amor eu não me esqueço não se esqueça por favor que eu voltarei depressa tão logo a noite acabe tão logo este tempo passe para beijar vc

toda ouvidos 3

17/10/2009

tem um morador de rua clássico aqui no Leblon. Jovem, altíssimo, magérrimo, muito sujo, sempre sentado na calçada da rua principal do bairro, a Ataulfo. Ele nao sorri de volta, nao reconhece vc, mesmo que vc o veja todo dia e q dê grana, comida, cumprimente. Ele olha através da gente.

Pessoas passavam pra lá e pra cá, na frente do Balada Sucos, completamente alheias à presença dele, sentado no meio da calçada. No meio fio, dois pombos pombeavam.

Quando eu passava do lado dele, escutei ele dizer pra ele mesmo: “É isso aí… cada pombo no seu ninho….”

nem que eu caminhasse até o leblon não iria encontrar

tenho horror a gente que pisa nos outros, que só pensa em si mesma, que trata os outros como utilitários. Tenho vontade de matar gente que menospreza gente  mas valoriza moda fama grana sobrenome.  Conheço umas criaturas, socialaites (com o perdão da má palavra), que eu vou te contar, não servem nem pra lavar o chão onde sua criadagem pisa pra buscar seus copos d’água. Salivo enqto sonho com a guilhotina de Maria Antonieta e penso numa lista de candidatos… enqto eles perdem a cabeça, nós, a plebe, comemos brioches. Nada mal…

pra que tanto orgulho, doutor, pra que tanta banca?

toda ouvidos 2

29/09/2009

mais uma conversa dos outros, dessa vez no supermercado:

um – (…) eu não tenho saco pra reclamar, pra chamar gerente, a gente perde muito tempo com essas coisas, se a gente pensar em qto tempo a gente já perde…

outro – eu nunca acho que eu to perdendo tempo, eu to sempre vivendo. To aqui, to vivendo o supermercado, to vivendo tudo, to aproveitando, tudo faz parte da vida…

todos os dias é um vai e vem, a vida se repete na estação

Meu orgulho

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medo de rainha

05/07/2009

 “Unmarried, I have no master, childless, I am a mother to my people, God give me the strength to bear this mighty freedom”, disse  Elizabeth no filme, portentosa, aterrorizada e toda poder.  Na volta pra casa chorei pela rua, pensando nela e em mim: deus me dê forças para suportar essa liberdade poderosa.

ontem comprei uma blusa em que se lê: “Sorry, but I’m the queen” ;) pisc

vento de maio, rainha dos raios de sol

(…)
You’ll remember me somehow
Though you don’t need me now
I will stay in your heart
And when things fall apart
You’ll remember one day
One day in your life
when you find that you’re always longing
for the love we used to share
just call my name
and I’ll be there

se lembra da fogueira, da fruta no capim, do sonho que vc sonhou pra mim?

nos últimos dias ouvi, de 4 homens entre 30 e 41 anos, a mesma queixa: que as mulheres só querem saber de sexo.

Um deles disse: as mulheres de 20 aprenderam a transar vendo filme de sacanagem na internet, é a referência delas. Acham que o legal é xingar, gemer alto, pedir tapa na cara, fazer caras e bocas. Best performance para um oscar erótico, mas pouco eficaz no quesito intimidade, que afinal, é what it’s all about. E não passam disso.

Outro disse que as mulheres de trinta começam pela cama. Julgam o cara pela performance e nunca mais olham pra ele, caso ele nao seja o que elas queriam que ele fosse. Invariavelmente, um garanhão incansável. Reclamou que elas banalizaram o sexo. Menor sensibilidade para o ser por trás da ferramenta.

O de 41 falou: vc convida a mulher pra ir na sua casa, tomar um vinho, ouvir um som, cozinhar, faz um clima, e ela passa o tempo todo te olhando a perguntar: “quando é que vc vai me levar pra cama?”

o outro, de 36, disse que dispensou uma mulher porque ela perguntou pra ele, enquanto ele tocava uma linda canção ao violão: “vc não vai me comer hoje, não?” Ele ofereceu a porta da rua, gentilmente. Insultado, reduzido ao falo, revoltou-se.

Aqui cabe aquela frase: cuidado com o que você deseja, porque pode acontecer. Não foi isso o que o homem médio sempre desejou? Mulheres que dessem sem frescura, sem cinema e jantar com champagne? Mulheres que desaparecessem depois da transa, como por encanto? Outros morriam de rir repetindo que fulano disse que paga a puta para ela ir embora depois da transa, não pelo sexo. O outro dizia: a mulher ideal se transforma em pizza lá pela meia noite e meia. Pois então, taí o que vc queria. Queria?

Já as mulheres reclamam que querem dar e os homens não querem mais comer, estão todas insatisfeitas, dizendo que os homens correm de compromisso mesmo qdo elas não querem compromisso e nunca ficam tempo suficiente para saber. Há quem lamente que, para alcançar a igualdade entre os sexos,  as mulheres copiaram os homens em tudo. E aí, erraram na mão, fazendo inclusive o que odiavam que os homens fizessem.

Vingança? Perda de fé? A mim parece que as mulheres simplesmente mudaram de lente e aprenderam que nem só de amor vive a cama. Lei do mercado, folks, proposta feita, proposta aceita.

me dê a mão vamos sair pra ver o sol, o sol

vi sim, vi sim!

vi sim, vi sim!

 Minha melhor lembrança é esse instante no qual

Pela primeira vez me entrou pela retina

Tua silhueta provocante e fina

Como um punhal.

Depois, passaste a ser unicamente aquela

Que a gente se habitua a achar apenas bela

E que é quase  banal.

E agora que te tenho em minhas mãos e sei

Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos

Que os teus sentidos são cinco brinquedos

Com que brinquei;  

Agora que não mais me és inédita, agora

Que compreendo que tal como te vira outrora

Nunca mais te verei;

Agora que de ti, por muito que me dês,

Já não podes dar a impressão que me deste,

A primeira impressão que me fizeste,

Louco, talvez,

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda

E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela

Primeira vez.

sua beleza é um avião, demais prum pobre coração