Caro leitor,
23/05/2012
vida real
24/03/2012
Caro leitor,
Vc sabia que eu sou cantora? Uma profissão da qual muito me orgulho. Mas confesso que adorei quando uma leitora do blog apareceu num show dizendo que era fã dos meus textos e qdo soube que eu cantava, foi conferir. Em geral não misturo as estações, pq não quero usar este blog como mais um canal de divulgação. Mas vou fazer isso, só por hoje.
Pois então, aqui vai o link para uma página, no Soundcloud, onde é possível ouvir músicas de todas as fases da minha carreira. Está tudo organizado em três sets: Jazz, MPB e Samba; Black, soul, funk; e O Amor de uns tempos pra cá, com as músicas do meu disco em duo com o Nabuco, de 2007.
Fiquem à vontade para ouvir e comentar! As músicas de minha autoria podem ser baixadas, as outras vc pode ouvir online. Não tem que se inscrever, não tem que preencher, nem pagar nada, é só clicar na setinha laranja do play e pronto! Se gostarem, compartilhem com os amigos. A melhor divulgação de um artista é o boca-a-boca.
Estou finalizando meu novo CD solo, Jamba, que está lindo de morrer e sai, em breve, pela Mills Records , com arte de outra colega de blog: Beá Meira. Estou ansiosa para mostrar pra todo mundo! Enquanto isso, continuo no Triboz sempre no primeiro sábado do mês, cantando músicas lindas.
Clique aqui pra ouvir.
Essa aí sou eu. um beijo, daqui, do mundo real
A Influência do Jazz
24/03/2011
cantoras*
22/03/2011
cantoras sofrem. cantoras ficam inseguras. cantoras choram um pouquinho. cantoras sentem dobrado. cantoras sentem medo e confessam. cantoras carregam malas enormes mesmo para fazerem show na sua própria cidade. cantoras erram e pedem pra parar o show e recomeçar a música. cantoras são intensas. cantoras querem ser amadas. cantoras adoram aplauso. cantoras fecham os olhinhos pra sentir melhor. cantoras amam que seu público simplesmente ame o que ela faz. cantoras são fofas. cantoras não se importam com dinheiro. cantoras amam sobre todas as coisas do céu e da terra, cantar.
*minha homenagem ao/às cantor(as) do festival A Influência do jazz, de cantores de música brasileira influenciados pelo jazz, que está rolando na Sala Baden, produção minha. eu “se identifiquei” com el(e)as…
my way
11/03/2011
atolada com a produção/divulgação/administração/social do festival do convite aí de baixo, ensaio pro meu show no festival, escolha de repertório pro disco solo, revisão de texto de um livro pra entregar ontem meio-dia, apuração pra duas matérias giga pra veja, seleção de repertório e banda pra um show off-topic, homenageando o ronaldo bastos, um livro só meu em construção, dieta eterna, malhação obrigatória, familia e amigos pra dar conta.
e eu sonhando com uma longa viagem de carro, por paragens distantes cujo nome nem sei.
convite
10/03/2011
out
10/03/2011
corrida com obstáculos
23/02/2011
os pensamentos se empilhavam feito panquecas de lenhadores canadenses, enquanto eu tentava dormir. nada. qdo o despertador acordou, nao acreditei, mas enqto fazia um café, tinha que lavar logo toda a louça da festa e deixar a casa mazomeno apresentável pra reunião de trabalho que ia acontecer à noite, senão não dava tempo. e tb tinha que colocar roupa na máquina, deixar a toalha de molho – o vinho manchou - lavar e guardar as panelas, os copos, talheres.
Ai, a divulgação, os releases. E tb passar uma vassoura, um pano no chão, molhar as plantas, lavar panos de serviço e toalhas de banho, e ainda me preparar pra coletiva de imprensa, meio out of tune and out of time na nova casa. ainda tem aquela salada? textos pra aprontar e roteiros pra repensar. preciso retocar as raízes. na minha cabeça só uma música, nada a ver com nada, me ocupando o pensamento. ainda fui correr na praia, só meia horinha, pra manter a fé no sol e no passo. Ok, mas só se demorar 10 min pra todo o resto: arrumar o equipo, banho, vestido, fruta, taxi, trabalho. A pergunta de sempre: por que estou aqui e não ali?
ahhhh, para, moço! preciso passar no banco e pegar o cachê do cara que ainda nao paguei e q passa de madrugada pra receber! e tirar a roupa da máquina, revisar e entregar a matéria, fazer um café antes da longa reuniao cheia de conversas do coração (não esquecer do coração).
Durante o dia, ouço histórias de casais que cumprem seu destino, de amigos tristes e felizes, ouço tb novidades incríveis e nem consigo ouvir com a atenção merecida, reencontro amigos queridos de vidas passadas, morremos de rir com o broder nicolai: vodca, rodela de limão, pó de café e açucar depois do show. os pensamentos continuam empilhados, não posso esquecer de nada. Lá no fundo, o repertorio do disco solo, meia dúzia de culpas, o repertório do conjunto, dieta, saudade da sobrinha, dureza, vida real, recompensas, tristezinhas, emails bons, família, afagos. no fim de tudo, dou de cara com uma garrafa de bordeaux, na gaveta de verduras, esquecida da festa. ê, vidão!
Lapa: samba, furdunço e mito
02/02/2011
Dia desses, ouvi alguem dizer que o “samba da Lapa” é da Lapa por uma questão circunstancial. Concordo. A Lapa era uma terra de ninguém, imóveis abandonados, caindo aos pedaços, desvalorizada e perigosa. Sem vizinhança pra reclamar como na Copacabana do Bip Bip, no Botafogo do Mandrake, em Santa Teresa, onde antes da Lapa havia rodas e mais rodas, desde que o samba é samba. Sem falar em todo subúrbio, baixada, zona norte e oeste que sempre tiveram suas rodas de samba. E desde os anos 80, doa a quem doer, muita gente já tinha começado a redescobrir o samba pelo viés do pagode, a música popular da moda naquele momento. Esse negócio de botar um chapéu pra se sentir malandro veio depois.
A Lapa começou a re-existir com o povo do Circo Voador, do Tá na Rua, da FEBARJ, uma soma de forças que chamou a atenção com o bafafá em torno da Fundição e do Corredor Cultural. Isso, quando o Semente era o melhor restaurante nipo-natureba do mundo, e o Capela era um boteco barato. O Arco da Velha tinha samba em meados dos anos 80, mas era pontual. Tudo é um grande processo, sem dono, nem nome, com bases em fatores menos românticos do que se vende. Não mitifico nada nem caio no papo da imprensa, que adora inventar um “movimento”. Quando o samba aterrissou ali, empurrado por vários fatores, a Lapa era um bairro neutro, barato, central e, portanto, sem os estigmas tradicionalmente atribuídos ao zoneamento da cidade.
O samba é a única cena musical que existe no Rio de Janeiro, concentrada na Lapa. E talvez por isso, sem desmerecer o poder do samba, haja tanto samba e tanto sambista na cidade. Esta cidade sem casa de show, sem teatro, sem bar com música ao vivo, sem respeito ao músico. Quem faz música pra ouvir, quem elabora roteiro de show, quem preza emissão, arranjo e dinâmica, não tem onde trabalhar sistematicamente. A Lapa não se equipou pra isso e nem pretende. Apesar disso, tem trabalho, palco, público, cachê e troca profissional pro músico. A tal da cena musical. Enquanto as casas da cidade fecham, uma após a outra, pq não aguentam os encargos, a Lapa sobrevive cada vez mais lotada e turística, cada vez se repetindo mais. Isso é ruim? Sei lá. Las Vegas é aquela cafonice, tem um bilhão de cassinos e megashows diários em várias sessões. Umas pessoas trabalham, outras se divertem, uns gastam, outros ganham e pronto, a roda gira. Mas em Vegas o som deve ser bom e não toca só um estilo. A Lapa não aprendeu essa lição pq ela vende diversão, zoeira, furdunço e mitos. O público adora os mitos. Com sua informalidade, a Lapa desconstruiu a imagem do artista. O samba é o grande artista.
A Lapa virou uma grife de inclusão na alegria e na brasilidade. Se vc não vai à Lapa, vc não sabe o que é se divertir de verdade. Muito além das poucas (boas) casas, a rua está cheia de vendedores de latão e cheiro de xixi. Muita roda de samba e boteco chinfrim, onde a cerveja é barata, onde tem “gente bonita em clima de paquera”, onde a música rola pra manter o consumo alto e a diversão. Mas não me iludo. O público acidental, aquele da diversão, pode migrar a qq momento para uma nova moda. E quem aprendeu a gostar de samba vai continuar gostando, pq samba quando é bom, é realmente a melhor diversão. Muito além da Lapa e seus mitos.
A minha Modern Sound
14/12/2010
Cantei durante cinco anos na Modern Sound, todos os sábados, fiz exatamente 265 shows na casa. Em 2001 inaugurei o horário da tarde, de 16h às 20h, com a Délia Fischer e o Zé Luiz Maia, ainda sem bateria, pra ver se funcionava. Fui a primeira e única cantora fixa da casa, que só tinha instrumental nos outros dias. No começo não ia ninguém. Seis meses depois ganhamos o direito à bateria. Entrou o Kleberson Caetano.Vi o lugar pegar, devagar, e chegar a ter 200 pessoas, sábado após sábado, bombando! Dois anos depois, a Delia saiu, entrou o Paulo Malaguti Pauleira. O Kleberson saiu, entrou o Cacá Colon. O Zé ficou impedido de continuar, entrou o Mattosão. Hoje tenho dois baixistas, um luxo!
Eu que sempre ouvi de tudo, sempre me apaixonei por estilos e praias diversas, tive uma oportunidade que raramente é dada a uma cantora: residência, formação de público, teste de repertório, numa casa excelente. O que era pra ser música ambiente virou show. O repertório foi crescendo pra todos os lados: muitos standards de jazz, mpb, samba, Tom Jobim, Cole Porter, Cartola, Toninho Horta, Joyce, Thelonious Monk, Carole King, James Taylor, Stevie Wonder, Chico Buarque, tudo o que se pode imaginar. Tocamos a seleção de Bossa Nova do Ruy Castro, que disse que quando morresse, em vez de ir pro céu, queria ir pra M.S. Tomamos muitas caipirinhas, comemos muito salmão com alcaparras, muito carpaccio, muita cerveja gelada, até fumar podia.
Amadureci como artista, experimentei emissões, respirações, projeções, timbres, ganhei intimidade com o fazer música sob qq intempérie. Deprimida, feliz, doente, cansada, maravilhosa, de saco cheio, apaixonada, sempre lá. Fiquei 5 anos sem sair à noite na sexta, pra ficar pronta pro sabado. Recebemos canjas de tts músicos maravilhosos, que eu nem saberia mais enumerar, mas lembro do Mike Shapiro, do Idriss Boudrioua que ficava pra tocar You don’t know what love is, do Carlos Balla, do Itamar Assiere, do Alex Rocha, do Bruno Migliari, do Marcelo Costa, da Leny Andrade, do Marcelo Mariano, do Henrique Band, do Glaucus Linx, e muitos mais que fariam essa lista ficar imensa e estrelada.
Tinha gente que ia toda semana, anos e anos a fio. Isso sem falar nos amigos que fizeram da Modern um ponto de encontro. Todo sábado eu recebia visitas deliciosas, que viravam noitadas intermináveis depois que a casa fechava. Vi minha sobrinha crescer ali, correndo entre as mesas e os discos. Fizemos casamentos, uma amiga saiu de lá pra maternidade, tivemos amores, desamores, amantes, desamantes, tudo aconteceu!
Serei eternamente grata à Modern Sound e a tudo o que vivi naqueles felizes 5 anos, que de certa forma perduram até hoje, no patrimônio profissional mais valioso que construí na minha vida, o agora Andrea Dutra Quarteto, que em 2011 faz 10 anos de atividades, com a bola lá no alto, agora residente mensal no especialissimo Triboz, onde continuamos a nossa saga de tocar música bonita, seja ela qual for. Eu, Pauleira, Mattoso e o Cassius Theperson, que assumiu a bateria no ano passado.. Todo primeiro sábado do mês.
Qual não foi a minha surpresa quando cheguei pra cantar no Triboz e vi aquelas carinhas do tempo da Modern, na platéia, ainda fiéis. Muita emoção, muita felicidade.
O show sempre vai continuar, mas agora, quando o fechamento da Modern Sound é fato a ser consumado no dia 31, não pude deixar de me emocionar com o filme da minha vida, que passou dentro de mim, com a melhor trilha sonora que alguém já concebeu. Music in me.
alô, mamãe!!!
28/07/2010
Eu nem sempre advogo em causa própria por aqui, mas desta vez é irresistível! É a primeira vez que tenho uma música numa trilha de novela. A música, que está na trilha de Tititi, é A linha e o linho, de Gilberto Gil, que eu gravei no CD O amor de uns tempos pra cá, em duo com o Marcus Nabuco, em 2007.
A gente acha mó barato qdo recebe a notícia, depois não dá muita importância, mas na hora em que a música toca pela primeira vez, dá um pang daqueles…
Eis o link para a cena.
Aos torcedores, meu cordial obrigada!
série cantoras – temporada 6
24/05/2010
Fatima Guedes reina soberana, rainha imperatriz da composição popular brasileira. Ela borda lindas melodias, doma harmonias e preenche o palco com a certeza absoluta de tudo o que é. Intérprete vigorosa e entregue, ela paira muito acima de nós, humildes servos, ajoelhados aos seus pés. Ela é o topo da cadeia alimentar.
Fatima merece um trono todo de ouro, uma estátua em praça pública, um monumento. A música dela sempre me encantou. Mas agora que eu sou uma mulher feita, a música dela reverbera dentro de mim com propriedade. Ali estão todas as filigranas de tudo, decupadas pelo olhar arguto dela.
Fatima faz música para adultos, para os vivos, para nós, os aprendizes. Quase acabei com os guardanapos da Lapinha, de tanto que chorei. Um choro que começava com a música e ia ecoando lá dentro de mim, cantora, mulher, vida difícil, a minha coleção de frustrações, os mil sonhos que nunca se realizarão. Os amores que não tive, os que tive, os que perdi. Tudo passou dentro de mim, rio caudaloso da minha emoção aflorada, vinho tinto, solidão retumbando dentro do peito.
Olhando pra ela ali, cantando as músicas mais lindas do mundo, chorei por ela, pensando em quanta frustração ela deve colecionar neste país de surdos, esse mercado risível, esse amadorismo permanente com que se trata a boa música e os bons músicos neste país. Dificilimo encontrar um CD dela para comprar. No youtube, só material caseiro. Ela, a mais genial, linda, completa, inteira. Uma mulher preciosamente comum, sem firulas, sem brincos, sem sapato, vivendo aos turbilhões. Fatima, no meu altar vc é deusa. De mim, vc tem todo o reconhecimento que merece. E, humildemente, junto minha voz ao seu canto: “Eu também quero ser, quem não quer? Quero ser feliz”.
é desconcertante rever o grande amor
27/04/2010
aceito a generosa oferta de um amigo para fazer, na base da amizade, um video release sobre minha carreira, peça publicitária fundamental e cara nos dias de hoje, uma espécie de cartão de visita virtual, chamado por alguns de EPK, electronic press kit.
- Reúne tudo seu, de todos os tempos, videos, fotos, recortes de jornais, o que vc tiver documentado.
Apreensiva, fico parada em frente ao armário onde guardo 20 anos de fitas velhas de video, recortes de jornais elogiando, metendo o malho, documentando a vida toda. As fotos estão numa mala imitação de Louis Vuitton, que ganhei e nunca usei pq acho uó de cafona.
Tenho medo de abrir a porta e ser soterrada por uma avalanche de lembranças, de saudades, de frustrações, de esquecimentos confortáveis. Detesto rever o passado. Sou contra filmar festas de aniversário. Não gosto de rever nada. O tempo grita comigo e eu abaixo a cabeça, vencida. Meu tempo é right here right now.
Decido que hoje não tenho condições emocionais de rever minha carreira, muito menos de ser simplesmente técnica e mandar ver na arqueologia pessoal sem me envolver. Eu sou do tipo que chora quando arruma estante de livro, pq vou lembrando de situações, de pessoas, de coisas que enriqueceram a minha bi(bli)ografia.
Continuo, como diz o joão, making memories, mas quase não guardo recortes de jornal, pq aquela papelada amarela vai me dando uma sensação de antiguidade que me lembra a casa do Serguei, em Saquarema, onde todas as paredes eram revestidas por recortes de jornal sobre ele, bandeiras com a língua dos Stones, autógrafos da Janis… coisas antiquíssimas, testemunhas da passagem inexorável do tempo, o pior inimigo da minha atualidade. Embora eu esteja num momento feliz da minha carreira, não estou pronta para rever o grande amor. Hoje, só amanhã…
Meu Pãozinho de Açúcar
12/04/2010
Nosso Pãozinho de Açúcar saiu do forno. Esse é o nome do DVD do Arranco de Varsóvia cantando Martinho da Vila. O primeiro show é amanhã, dia 13, no Teatro Carlos Gomes, às 19h. Sou suspeita, mas o negócio é lindo de morrer, prove um pedacinho do Pãozinho aqui ó:
vale tudo – it’s war!
14/03/2010
fui cantar numa casa na Lapa, baile começando depois de meia noite, acabando depois das 3. Trabalho normal pra um cantor da noite. Vez por outra pinta uma empreitada dessas e eu vou, pq vcs sabem: eu poderia estar roubando, mas prefiro ganhar meu dinheirinho cantando.
A casa estava fervendo, faixa etária sub-30. Quando eu subi no palco, reparei que os meninos eram bonitos e malhados, camiseta justa pra mostrar o bração. As meninas também bonitonas, vestidinho, cabelão. Todos tiram fotos de si mesmos o tempo todo. Fazem boquinha, entortam a cabecinha e clic! Tudo sexo, tudo sedução.
Eles bebem, como bebem! Bebem, literalmente, de cair. E olha que eu ando com gente que bebe, com bacharel em boemia, gente grande. Mas os meninos e as meninas compram um combo de garrafas de vodca com latas de red bull e bebem até perderem os reflexos.
Passei a noite inteira sendo assediada, interrompida, incomodada por uns 4 ou 5 débeis mentais que estavam navegando por instrumentos, sem conseguir mais nem ficar em pé, me chamando, querendo subir no palco, me pedindo pra tirar foto com eles, insandecidos sem noção. Completamente dopados e inconscientes e alcoolizados. Testosterona, energético e álcool em mega doses, quadro feio de se assistir. (penso na mãe da criatura vendo o filho nesse estado. Ela nem sonha…)
Valentes, se achando lindos e lindas, foi um perdendo a linha depois do outro, tropeçando, arrumando confusão, gatinhas passando mal no banheiro, um strike de mal gosto. Eu vejo tudo do palco, ao longo da noite. É assim, não é bom nem ruim.
No andar de baixo, missão cumprida, peço o x-músico com guaraná. No telão, um campeonato de Vale Tudo mostra lutadores que fazem cara de mau e armam o pavão pra bater e apanhar na frente de todo mundo. Aquela cara de mau, sabe? Que a gente faz quando é criança? Eles fazem essa cara seriamente, um pro outro, como se fossem dois cachorros de rinha rosnando, dois galos de briga atiçados, prontos pra matar e morrer. A mim parece cômico, ridículo.
O brasileiro ensopapa o chicano de bigodinho chinês, soca a cara dele salivando de prazer até o sangue jorrar e a torcida agradecida se encantar. Meu estomago virou e revirou com a sequencia de socos, me arrepiei, virei de costas. Violência aplaudida e cultivada, que vale milhões, em nome do esporte. Tipo a Santa Inquisição, em nome de deus.
Pela escada lateral do bar um menino rola e cai ao lado da lata de lixo, outros vêm correndo e gritando, um deles cai de cara no chão, outro pega o cone de segurança pra tacar no adversário. A turma do deixa-disso aparece, eles saem ganindo como cães, fazendo aquela mesma cara de mau que eu tinha visto na TV. Essa é a noitada maneira do cara, que ele repete semanalmente. A night to remember e pra contar pra todo mundo: “mermãão, bebemos pra carai, saímo na porrada, véi, irado”.
Quando a câmera se aproxima do lutador vitorioso, ele capricha na cara de mau e passa o polegar de um lado a outro do pescoço, como quem diz: cortei a cabeça dele fora. E com as duas mãos faz, pra lente, um gesto chamando o mundo pra porrada: pode vir, vem se tu é macho. E sai triunfante, carregado nos ombros por meia dúzia de mucamos orgulhosos.
It’s war. Salve-se quem puder, e aos seus.
são só dois lados da mesma viagem
10/03/2010
acordo famosa, foto no jornal, mil emails, telefonemas, twits, facebooks, orkuts. Brincar disso é uma delícia quando a gente é artista e passa a vida entrando e saindo do lugar ao sol. Aparecer dá a ilusão do esperado reconhecimento. Fofíssimas, as pessoas escrevem: Vc merece!
A arte não é um trabalho comum. As intempéries mudam as coisas de uma hora para outra. Público não é cliente, a lógica é outra. Os intermediários do marketing, que deveriam estar pensando em como transformar público em cliente, não trabalham nem investem em artista “alternativo”. Estão todos pensando em como fazer a Maria Gadu aparecer ainda mais. Portanto, sistematizar esse fazer “alternativo” ao ponto de esperar que a arte supra necessidades financeiras, no Brasil, tem se tornado a pedra no sapato de muitos músicos que têm se visto obrigados a diversificar os negócios, por pura falta de dinheiro circulando no meio. E de lugares para as pessoas irem pagar para nos ver. Nesse ponto, a internet ainda não serve para nada além de divulgar os trabalhos, indiscriminadamente, lotar as caixas postais de eflyers e links e fazer o artista entrar na lista de spammers do freguês. E fazer com que ninguém mais queira comprar música.
Aparecer assim no jornal dá, ao público leigo, a falsa impressão de que se “chegou lá”. Artista que sou, adoro (mereço) esse afago, me permito aproveitar o doce sabor da fama pelos 15 ou 20 minutos que ela se dá para mim, vez por outra. Embora cantar não tenha nada a ver com nada disso, mas com um sopro interno, uma centelha que se acende e vai turbinando o dínamo por dentro, movimento retilíneo ascendente infinito. Magnetismo, eletricidade e endorfina. Cantar é a droga mais poderosa que já experimentei.
aqui entre nós
09/03/2010
eu quero ter um milhão de amigos
18/11/2009
um amigo me liga: “déda, sonhei que vc tava no palco do Canecão, que tava lotado de gente te aplaudindo de pé, e de repente, o Gilberto Gil entrava no palco pra te abraçar, tipo te dando mó moral…”
outro me fala: “…durou só uns segundos, mas eu sei, tenho certeza de que sonhei com vc no palco de um teatro em Paris, cantando ao lado do Dizzy Gillespie. Na platéia, ao meu lado, Cole Porter dizia, em bom portuglês arrastado: “Essa mulherrr canta para carálio…”
Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar…
o príncipe, o músico e o crooner
29/10/2009
ontem à noite fui ao Carioca da Gema ver/ouvir o cantor Roberto Silva, conhecido como o Príncipe do Samba, atualmente com 91 anos e em plena forma física e vocal. Emocionante pensar na quilometragem dele, nas coisas que ele já viveu e viu, nos milhões de shows, de músicas e de gente que ele cruzou. E cantar ainda é o que ele faz, depois de tantos e tantos anos, feliz da vida, soberano como no tempo do rádio. A casa poderia estar muito mais cheia, mas foi uma linda noite em que vários músicos foram prestigiar o mestre. O Carioca da Gema tem dessas coisas por causa do seu dono, o Tiago, que trata o músico com um respeito que eu nunca tinha visto antes, como a mola mestra da casa e da famigerada noite da Lapa.
No Capela, madrugada, mesa de músicos: Sou casado com a música - disse um amigo - ela é a única que eu nunca vou largar. Faço minhas as palavras dele. Chamei um taxi. Papo vai, papo vem, o motorista me fala que foi felicissimo como crooner, que cantou durante 40 anos. Falou da vida de cantor que tanto amava, saudoso, com a voz embargada: faz tempo, ele disse. Contei do show do Roberto Silva, ele quase chorou. Conhece de cor toda a obra do mestre e disse que teria estacionado o carro para ver o Príncipe cantar, se soubesse. Ele deve ter lá seus 70 anos, imagino… mulato, magrinho, cabelo pintado e alisado, pulseira de prata…
Falamos em como a vida do músico é linda porque a música (alou: a música, não o mercado musical) não seleciona as pessoas pela sua formação, sua procedência, sua cor, suas posses, sua aparência ou seu conhecimento. O microcosmo da música reúne gente de todo tipo. Não é necessário ser inteligente, e nem mesmo ter bom caráter pra fazer música boa. A música é uma inteligência em si. É um estilo de vida. Ninguém é músico sem querer ou gostar ou só pra sobreviver. Fora aquela meia dúzia de estrelas de primeira grandeza, a grande maioria de nós, os músicos do mundo real, vive mesmo é na dureza, latindo pra economizar cachorro. E não abre.




















![eu quero ter um milh]ao de amigos e bem mais forte poder cantar! foto de cristiano soares eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar](http://avantderniere.files.wordpress.com/2009/11/jp__deda_021.jpg?w=460)
