what a wonderful world
08/12/2011
e se comer fosse sempre vegetais frescos e frutos do mar grelhados e queijos e pão integral e azeite e chocolate? e se beber fosse sempre água e vinhos e café e chá? e se a alegria fosse sempre encontrar pessoas queridas, com música, onde todos os tipos, de todas as idades, fossem bem vindos e se sentissem bem, sem hora pra acabar ou pra começar, sem firula? e se namorar fosse sempre com um homem maravilhoso, bem humorado e gostoso, cúmplice, carinhoso e parceiro? e se viajar fosse sempre para se perder de vista e colocar outros olhares nos olhos? e se chover fosse só para lavar e matar a sede da terra e se o sol banhasse as águas limpas e as areias brancas, brilhando realmente para todos, em igual intensidade? e se o vento só ventasse para carregar o mal pra lá e o bem pra cá? e se todos os dias dessa vida a gente acordasse de olhos bem abertos para o que tem, e não para o que não tem?
Ilusão de ótica
28/08/2011
Toda vez que você chegava perto de mim
Era um arrebol na minha frente
O vermelho de todos os crepúsculos
De todas as alvoradas
Nada se mantinha de pé no meu campo visual
De olhos obliterados
Eu me atirava
Como quem pula de uma janela, vendada
Como quem se joga de um trampolim
Numa piscina funda e dourada
Toda vez que você chegava perto de mim
Eu me sentia aberta
Como uma orquídea lilás
Como uma planta carnívora
Que espera, doce e molhada
Pela sua presa
Tudo se tornava quente à nossa volta
Derretíamos icebergs distantes
Provocávamos avalanches
As neves de todos os picos, melavam
Aguavam de tanto calor
Toda vez que você chegava perto de mim
Era a música de deus
Que me acordava
Trazendo-me de volta à vida
Preenchendo os meus silêncios com beleza
Os vizinhos acordavam com o nosso som
Acordávamos os dias, como os passarinhos
Chorávamos de rir
Mil faltas, mil excessos
E a nossa sensação de raridade
Por isso, naqueles dias
Depois que você saiu
Jurei que você voltava
Jurei que você voltava
sonho
19/08/2011
cânhamo egípcio, 500 fios, brancos lencóis,
noites inquietas, claras de lua, quentes demais
cortinas paradas, varandas abertas
o tecoteco do ventilador
mosquiteiro de voile
durmabem, espirais de fumaça
ruas desertas e casas abertas
praias de areia bem branca e azuis
mãos, as tuas, em mim
sonhos, perdidos, os meus,
e sol

fio da meada
25/04/2011
Minha irmã me ensinou que Flaubert disse: “Tenha cuidado com a tristeza. É um vício.” Depois disso, nunca mais esqueci de driblar os pensamentos que podem acordar tristezas, tirá-las dos esconderijos onde estão, e dar-lhes à luz. A tristeza tem lá seu colorido, seu sabor. É farta e disponível. E vicia. Se a gente puxar o fio da tristeza de dentro da gente, ele apresenta uma a uma, feito lenços saindo da cartola do mágico, feito bandeirinhas de São João, feito lampadinha de árvore de natal: uma seguidinha da outra.
Tristeza não tem fim. Está sempre lá, cheia de motivos. Tímida e chorosa, num cantinho, ou doida pra brilhar, dançando em cima do queijo, espaçosa. Uma tristeza convida a outra pra entrar: “fica à vontade, querida, aqui tem espaço para todas nós!” E ela entra, arma sua barraca e acampa na sala. Quando uma alegriazinha qualquer bate à porta, elas abrem e dizem: “não tem ninguém em casa”, e blam!
Morro de medo de tristeza, pq quando começa não para mais, e aí ela me invade como o inimigo invade uma cidade, me toma e me ocupa, mesmo os melhores lugares de mim. Sequestrada por ela, refém da tristeza, paralisada, vejo a vida real passando lá longe, imperfeita, mas também cheia das alegrias que pisoteamos, todos os dias, em busca da felicidade.
ebony and ivory
06/04/2011
A minha mão parecia a mais branca das brancas quando nossos dedos se entrelaçavam ou quando ele enfiava o rosto na palma da minha mão, que abria cuidadosamente e beijava, demoradamente e com devoção, olhos fechados, como quem beija o centro de tudo. A pele dele era preta, sem metáforas. No dedo anelar direito, ele tinha uma aliança fina, lisa, e uma larga, desenhada. Prata. A minha tinha sóis e luas, no dedão da mão direita. O braço era magro e rijo, glabro, suave ao toque, pétala de flor. A luz artificial fazia o negro do rosto brilhar em tom de cobre escuro, de cobre no tempo. De que reino distante terá vindo essa turmalina? (Nasci na Rocinha, moro no Estácio) Se alguém quer matar-me de amor que me mate na Lapa. O nariz de aba larga, olhos amendoados, firmes e pequenos. Lábios cor de açaí, fartos, contornados a mão, irrigados, viçosos, dizendo: beijo. Sabia que a correnteza daquele rio ia envolver o que encontrasse pela frente. Línguas, lábios carnudos, lábios molhados, lábios quentes, dentes. A cabeça a zonzear: socorro, vou mergulhar. “Adoro seus olhos, sua luz de dentro, deixa eu te beijar”, vc pediu, me olhando nos olhos e segurando minha mão. “Me beija, me beija por favor”, vc pediu. E aí vc deu um gole no gengibre e aí a sua boca minha boca sua língua minha língua. Tudo. Seguiram-se explosões subatômicas, fumo, vinho, ópio, flautas de pã, fogueiras para o Gamo-Rei, cantos de sereia. Miscigenação. Sua boca feita pra minha feita pra sua. Tenho medo de deixar vc me tocar mais longe e mais fundo. Posso desfalecer com a pressão exata dos dedos, com os segredos ditos no ouvido e, acima de tudo, com o carinho extremo no trato, afeto tesão quentura e ritmo. “Seu beijo é aurora boreal”, vc sussurra num rap que improvisa pra mim. Por um instante, ocupamos o mesmo lugar no espaço. Nos beijamos de mãos dadas, solenes e castos, olhamos dentro dos olhos, calamos. “A luz da sua retina me ilumina”, você versa. O beijo esquenta, a pulsação muda, o gemido escapa: vc pra mim. A manhã grita, ruidosa, os ônibus cheios guinchando os freios na Lapa. Nós orbitando, distantes dali, as estrelas de primeira grandeza daquela constelação, café sem açúcar, pão na chapa. Brilhávamos, incandescidos pela química das misturas. Aqui agora tudo. Agora que nos tocamos, estamos condenados. Trocamos as alianças. Na secretária eletrônica: “Seu beijo é aurora boreal. Volta, mulher, volta pra mim”.
corrida com obstáculos
23/02/2011
os pensamentos se empilhavam feito panquecas de lenhadores canadenses, enquanto eu tentava dormir. nada. qdo o despertador acordou, nao acreditei, mas enqto fazia um café, tinha que lavar logo toda a louça da festa e deixar a casa mazomeno apresentável pra reunião de trabalho que ia acontecer à noite, senão não dava tempo. e tb tinha que colocar roupa na máquina, deixar a toalha de molho – o vinho manchou - lavar e guardar as panelas, os copos, talheres.
Ai, a divulgação, os releases. E tb passar uma vassoura, um pano no chão, molhar as plantas, lavar panos de serviço e toalhas de banho, e ainda me preparar pra coletiva de imprensa, meio out of tune and out of time na nova casa. ainda tem aquela salada? textos pra aprontar e roteiros pra repensar. preciso retocar as raízes. na minha cabeça só uma música, nada a ver com nada, me ocupando o pensamento. ainda fui correr na praia, só meia horinha, pra manter a fé no sol e no passo. Ok, mas só se demorar 10 min pra todo o resto: arrumar o equipo, banho, vestido, fruta, taxi, trabalho. A pergunta de sempre: por que estou aqui e não ali?
ahhhh, para, moço! preciso passar no banco e pegar o cachê do cara que ainda nao paguei e q passa de madrugada pra receber! e tirar a roupa da máquina, revisar e entregar a matéria, fazer um café antes da longa reuniao cheia de conversas do coração (não esquecer do coração).
Durante o dia, ouço histórias de casais que cumprem seu destino, de amigos tristes e felizes, ouço tb novidades incríveis e nem consigo ouvir com a atenção merecida, reencontro amigos queridos de vidas passadas, morremos de rir com o broder nicolai: vodca, rodela de limão, pó de café e açucar depois do show. os pensamentos continuam empilhados, não posso esquecer de nada. Lá no fundo, o repertorio do disco solo, meia dúzia de culpas, o repertório do conjunto, dieta, saudade da sobrinha, dureza, vida real, recompensas, tristezinhas, emails bons, família, afagos. no fim de tudo, dou de cara com uma garrafa de bordeaux, na gaveta de verduras, esquecida da festa. ê, vidão!
rainha do mar
30/12/2010
depois de suar com os pés na areia, medito com os pés no mar. a praia é a minha mais silenciosa e ruidosa casa, onde manda a água, mãe da natureza. Faço o ciclo das minhas águas, chorando pra iemanjá me conceder as graças que tanto desejo, chorando pra agradecer, chorando pra descansar. As ondas batem nas minhas pernas ao som do mar e à luz do céu profundo. Os ultimos raios fosforescentes de 2010 douram o mar do Leblon e as infinitas favelas da cidade, qual árvores de natal pra sempre incrustradas nas encostas.
me dou conta de que tudo é uma bobagem pq o mar está ali, do mesmo jeito, há milênios, e nem te ligo pra essa coisa de datas, de sucesso ou de fracasso. A areia também nao sabe de nada, está lá, areiando desde o fiat lux. Os verdadeiros inocentes do Leblon. Mesmo assim aproveito a oportunidade de zerar o contador e, motivada pelo espírito coletivo de renovação, peço a Iemanjá que seja possível ressignificar o que se esgotou, e que a vida re-exploda em mim, nos múltiplos e sucessivos réveillons de cada dia, que o tal universo de possibilidades seja para todos e que os famintos de todas as fomes tenham do que se alimentar.
Peço que eu mesma saiba ser bastante grata e feliz, que eu perceba o tamanho da minha riqueza, que eu reconheça meu próprio sucesso, que eu me ame, que eu valorize minha existência, que eu me sacie com o que a vida me alimenta e saiba honrar o assento efêmero que recebi nessa carruagem de fogo, a cada momento, num mundo que, para sobreviver, zera a si mesmo, se regenera e reinventa o tempo todo (Why then, oh, why can’t I?). O universo está em explosão permanente, bombando há anos-luz, explodindo supernovas e cavando buracos negros onde tudo é força, tudo é energia. E nós, grãos infinitesimais, tendendo a poeira cósmica, somos feitos dessa mesma matéria explosiva. Nem por isso deixa de ser bonito a gente achar que é importante.
Feliz ano novo
infância
29/11/2010
essa calçada é minha. Posso andar de skate, sozinha, mas só se eu jurar que não vou atravessar a rua. Tá, eu juro. A minha mãe fica no bar da esquina tomando cerveja com os amigos. Ela adora que eu fique muito tempo andando de skate e eu adoro que ela fique muito tempo tomando cerveja com os amigos. Quando já tá ficando tarde, ela fala: “vamos ficar mais um pouquinho?” êba
Eu posso andar sozinha de skate sem atravessar a rua, mas só nesse lado do quarteirão. É bom ir quase até a outra esquina, porque a rua é meio descidinha, e aí eu pego impulso, e quando chego na esquina do bar onde minha mãe tá tomando cerveja com os amigos, eu pulo do skate e ela berra: “cuidado, menina!” “Tá” eu respondo pegando o skate correndo e subindo a rua com ele debaixo do braço. É um pouco longe e às vezes dá medo de ir sozinha, mas nao faz mal, porque é irado quando eu pego impulso lá na esquina e venho zunindo até o bar com um frio na barriga.
Na frente do edifício azul tem uma parte da calçada que dá um salto, tipo um degrau redondo, e eu pego impulso e pulo antes do skate cair no buraco e já saio na frente da portaria de grade verde. Maneiro é quando eu to sozinha, porque senão eu toda hora tenho que emprestar o skate e não to a fim.
to torcendo pra minha mae tomar mais uma cerveja, aí ela demora mais ainda, compra um sorvete, uma coca, uma bala e eu vou ficando. Às vezes a gente fica até de noite, é irado. E aí quando eu ando de skate de noite é mais maneiro, porque a rua é só minha mesmo e eu saio voando pela pista, meu tênis de lantejoula rosa brilha e eu voando, voando, voando, voando, voando. Irado.
a gira
18/11/2010
no sonho, girávamos bem lentamente numa ampla cadeira giratória, lenta como a terra, as translações e os movimentos de rotação. Talvez fosse um balanço de vime pra dois, pendente do teto, ou uma namoradeira antiga, girando em câmera lenta, assento floridinho, rosa chá e azul acinzentado.
Talvez fosse uma cama redonda, travesseiros de plumas das barbas azuis de gansos alvos, como alvas eram as paredes caiadas daquele quarto, branco como os lençóis de 500 fios de algodão egípcio. Varandas nos dois lados, portas abertas e janelas azuis, ventando cortinados e mosquiteiros. Entre o céu e nós, de quina, os cacos vermelhos de telha do telhado, o escoadouro das chuvas mirando no ralo. A encosta é grega: pedra e sal, branco e azul, agua e luz.
Era eu e vc, às gargalhadas, rolando de rir enquanto nosso quarto girava, nossa cama rodava e o reggae rolava trazendo a justiça para o mundo. Coisa fina esse sonho que eu tive. Eu e você por sobre um mar azul piscina, a areia branca invadindo a piscina do mar azul, filtrando a cor, filtrando o sol, o sol ardendo, aquela felicidade da pele. fibra ótica.
oversharing
26/10/2010
tenho certeza de que privacidade é um conceito que caducou com a internet. Quem viu, viu, quem não viu… nunca mais. Perdemos para sempre a noção da privacidade, conceito e valor. Definitivamente, o que era bom em segredo é muito melhor em público. Mas por que será que tenho a impressão de que essa comunicação é um empilhamento de monólogos sem feedback, onde os interlocutores podem ou não interlocutar, que dá na mesma, o que interessa é ter algo a dizer. A gente vai continuar postando detalhes de todos nós, para alguém ou ninguém ler, simplesmente porque dá a sensação de movimento, pq agora a vida tem que ser evidentemente legal e todo mundo precisa saber o quanto.
Perdi completamente a noção da vida sem essa exposição, pq tenho um pc desde os primórdios dos pcs, sempre estive em todas, nunca tive dificuldade com a linguagem de internet e fiz aquele percurso natural de descoberta, acompanhando como usuária, a evoluçao da própria tecnologia. Vi de perto o surgimento das redes de relacionamento, desde o tempo do icq, do irc, das salas temáticas de bate-papo, até o momento atual. Tenho tudo: orkut, FB, twitter, site, myspace, youtube e este blog. Nunca desligo o computador e sinceramente nao acho que isso vá mudar, pq a cada dia fica mais natural ver o mundo via web. E sem a internet, atualmente, uma cantora não existe.
A internet faz pelas pessoas o que a TV fazia antigamente, entretém, só que com a programação à escolha, individual, disponível fulltime com o adicional da interatividade. Pensou em solidão? Pensou certo.
PS: Minha sobrinha, de 9 anos, outro dia resmungou: “Poxa, nunca recebi uma carta! Só da Caixa Econômica Federal!” Mandei a carta, recheada de recortes, cartões, fotos. Souvenir de tia, pra ela ver como era a vida no tempo da privacidade.
turista intencional
12/09/2010
estar turista é um estado transitório, desconfortável, porém inevitável. Por mais que vc não queira, no dia em que vc pisa num país estranho, numa cidade que desconhece, num lugar cujas regras não domina, perdoe a má palavra, vc é turista!
turista tem um ar parvo, bobo-alegre, ávido, bem disposto, pronto pra tudo, animadão. Gente que está ali para aproveitar de tudo, ao máximo. Acorda cedo e dorme tarde. Topa todas, bate palma nas músicas típicas, se veste mal, tênis velho, moletom, para ficar o dia todo confortável. Bebe demais na praia, passa mal, arrisca passos que nunca dançou, experimenta comidas e bebidas diferentes, se deixa queimar demais ao sol, compra cds de artistas locais que nunca vai ouvir, faz tererê no cabelo, arrisca tatuagens de henna, compra imãs de geladeira, camisetas, canecas de mau gosto… Lembranças daquele momento da vida em que ele não estava oficialmente vivendo a própria vida. Férias tem um ar carnavalesco, de libertação para alguns. E para outros, tem um peso pesado, do dinheiro economizado, arduamente, para pagar aqueles dias de alforria, antes de voltar à escravidão que esta vida contemporânea de liberdades nos impôs.
Estou turista. Atônita com a quantidade de comida que vai pro lixo na farra do boi das churrascarias, com o tantão de doces incomíveis do café colonial, das 220 espécies de comida alemã que servem na mesma refeição, com a sequência de fondues, de sopas, tudo servido na mesa, da mesa pro lixo. O excesso, o abuso, o muito, o transbordamento de todos os desejos de férias de tudo. All you can eat, tudo o que você aguentar, dizem os americanos, cheios de bacons e gelatinas azuis no café da manhã. De férias, a galera encara até gelatina azul.
Pessoas que jamais se encontrariam passam um dia inteiro juntas, dentro de uma van, forçando um contato amistoso, afinado pela situação comum a todos: ser turista. Cearenses confraternizam com gaúchos que confraternizam com mineiros de São Paulo. Todos falam super bem das suas cidades, exibindo seus dotes, como se fossem filhas prontas a casar. Todos invejam os cariocas, menos os baianos, que têm a maior auto-estima do país. Todos se amam dentro de uma van de excursão de dia inteiro. Alguns trocam emails e telefones, tiram fotos abraçados e fazem juras de amizade que jamais se concretizarão. No almoço onde o vinho é liberado, passam do ponto, em nome das férias. Não importa. Naquele momento, coração aberto, todos estão prontos e livres.
E se vivêssemos, dia após dia, com o desprendimento parvo das férias, com o coração aberto ao novo, alma leve e disponibilidade para experimentar o que não conhecemos, curiosos, sem julgamentos, com a maior boa vontade dos mundos?
Quero olhar o mundo com olhos de turista. Turista da minha própria vida, do meu cotidiano, sem nunca perder o olhar primeiro. Feliz, embriagada de sol demais e cheia de sede de liberdade, aventura e confraternização.
Devia ser sempre assim: nós, turistas. A vida, férias.
talentos e destalentos
19/08/2010
Quando era bem novinha, na vida passada em que fui bailarina, eu dei muita aula de balé, pra baby class e adultos. Dei aula até de dança afro, que estranhamente psicodancei pra substituir a Dil Costa, minha professora interrompida por uma intempérie da vida.
Alongamento, alongamento em dupla, clássico, jazz e sapateado, minha especialidade! Eu dançava super bem, tinha inteligência corporal, fluidez. Mas a vida toda no eterno engorda-emagrece-engorda, apesar de toda inútil neurolinguística, percebi que não tinha physique du rôle para o mercado da dança, que acabei abandonando, embora ainda ame dançar. E também, reparei que eu era uma má professora, burocrática, sem saco.
Como morei na Inglaterra, também dei aulas de inglês. Odiava com toda paixão. Acho que os alunos também, porque eles, assim como os clientes da funerária, nunca voltaram. Depois que estudei música, fiz uma super formação para professores, na Pró-Arte, excelente para quem tem… talento para dar aula. Dei aula de musicalização em colégio, em pré-escola e até em creche. Toquei violão para bebês, no berçário. Metade chorava de medo, o resto, dormia. Precisada de ganhar a vida e pagar as contas, eu acordava aos prantos, na hora de ir pra creche, como se fosse enfrentar leões famintos. “Mas são apenas bebês!!!” – dizia meu ex, ao me ver acordar em pânico total, no dia de dar aula pras crianças que engatinhavam em volta de mim, no piso fofinho da creche. Tinha verdadeiro terror das crianças maiores, embora eu me entenda bem com crianças, em geral. Eu fantasiava que a diretora da escola ia entrar na sala, acompanhada de guardas, e gritar: “Prendam essa impostora!”
Resolvi dar aulas particulares. Nada como adultos escolhedores e interessados. Qual o quê! Meus alunos pagavam adiantado e sumiam! Eu era escalada pra bater papo, pra ouvir confidências, pra sair pra beber, até pra festa de seres andróginos eu fui convidada. Mas aula que é bom, nada!
Em verdade, em verdade vos digo: odeio dar aula e sou péssima professora. Menor saco, menor entusiasmo. Recentemente, quando eu disse que não dou aula (de canto), ouvi: ”Ah, é, sua egoísta? Quer o que sabe só pra si, né?” Fiquei bolada. Na tentativa de ressignificar conceitos, arrisquei novamente. Quem sabe, num novo momento? Água! A aluna sumiu depois da segunda aula. E eu encerrei esse capítulo da minha história, definitivamente. E é por isso que a alternativa nº1 de quem trabalha com música não é uma alternativa pra mim. Aí eu fui cozinhar. Mas isso já é outra história…
chuva
06/06/2010
água de moringa*
11/01/2010
Coloquei os lábios ao redor do bico do apito de cerâmica em forma de galinha que, quando é soprado cheio d’água, soa como o trinado de um pássaro. Mágica. Enchi o apito de água, encostei-o nos lábios e soprei, querendo ouvir novamente o som que ouvi na pracinha de Tiradentes, no dia em que comprei minha moringa, um domingo ardido de sol. Meus lábios úmidos grudaram naquela cerâmica fria, porosa, seca. Delicadamente fui descolando a pele fina, da boca, daquela aspereza desértica do barro cozido e rústico, sem acabamento, sem verniz. Puxei o lábio com cuidado, muito lentamente, pra não romper a pele da boca. Desgrudei com sucesso o lábio inferior e, depois, o superior. E mergulhei com pressa o apito inteiro dentro de um pote cheio de água. Ele borbulhava, sorvia a água, mudava de cor, fazendo uma musica peculiar, parecida também com canários piando. Deixei o pássaro submerso e fui me ocupar da moringa.
Vinha de viagem, encantada com as maravilhas do barro cozido, recipientes, potes, panelas, apitos. Mãos moldando o barro, um deus moldando o homem, a ciranda da criação, de mão em mão.
Sempre quis ter uma moringa na minha mesinha de cabeceira. Pra olhar pra ela, por anos e anos a fio, e pensar: envelheci. Envelhecemos. Ter uma moringa na cabeceira é coisa de gente velha.
Por hora, quero a minha água com jeito de sombra, apesar do verão tórrido que se anuncia. E a moringa, cheia de sombra e água fresca, na minha cabeceira.
Penso em varandas por sobre um gramado em leve declive, com umas duas ou três árvores frondosas no sopé, e um pneu pendurado por uma corda, fazendo as vezes de balanço em uma delas. Um banco troncho de madeira na sombra generosa da outra árvore, onde se desejava mesmo uma cadeira de balanço pra Pixinguinha, pra Clementina, pra Villa-lobos. Pra montar uma mesa e colocar uma jarra de limonada muito gelada, de suco de pitanga, e um prato cheio de laranjas bem madurinhas pra se chupar cuspindo os caroços em algum alvo no meio do mato.
E ver a brisa fraca da tarde quente soprando, de vez em quando, as pontinhas das folhas. Os galhos imóveis, a superfície do lago sem marolas, os peixes de boca aberta, as abelhas abelhando, as jabuticabas jabuticabando, e o cachorro.
Mesa na sombra, sobre a qual se coloca uma moringa cheia, de onde se serve um copo de água pra tomar pensando. A moringa, quando está seca, precisa ser preenchida de água, como se ela mesma estivesse sedenta daquela primeira sede, plena da mesma secura que me grudou os lábios no apito. Quando se enche uma moringa de água pela primeira vez, ela canta. O canto da moringa é um dobrado delicado, que soa a ondas do mar, a uma revoada de pássaros por sobre as nossas cabeças e a respiração. A moringa também morre de sede.
Até agora guardo nos lábios a secura do barro. Tomo um gole d’água e penso, precoce: É… O tempo… Passou…
*provavelmente já publiquei isso, mas mudei umas vírgulas… melhorou
elo perdido
07/11/2009
este post tem trilha sonora. ouça enquanto lê, veja depois, ou tudo junto.
quando os sábios do futuro aportarem por aqui, o deserto terá virado mar, e o mar terá virado sertão. E quem sabe então o Rio será uma cidade areienta e pedregosa, uma espécie de Petra, com aquele Cristo gigante lá em cima, a cidade toda de areia, montanhas, ruinas de favelas, favelas e mais favelas incrustradas nas pedras, atravessando morros e vales, acompanhando avenidas intermináveis. E quilometros de areia bem branca e fina onde, muito lá no passado, quando só fazia 40 º, havia lindas verdes praias azuis, pq onde agora é areia antes era mar. Tinha maria-farinha e tinha tatuí. E peixe.
Fósseis de cariocas estarão petrificados em areia e sal, que o tempo e o sol escorchante moldaram, permitindo que a pele ficasse apenas seca, como um bacalhau qualquer. Os sábios encontrarão as múmias dos moradores do Leblon, de Ipanema, de Ramos, da Barra, do Recreio, do Leme, do Pontal, e do Flamengo, da Urca, da Ilha… E perceberão que o povo que habitava aquele lugar, homens e mulheres a partir da puberdade, usava tatuagens como marca tribal. E que havia a tribo dos dragões, a tribo das flores, a tribo das fadas, a tribo dos japoneses, a tribo dos nomes próprios nos antebraços e do sobrenome do clã cruzando as costas. A tribo de Jesus. E a tribo de Jah.
Cztalogarão a turma que escrevia sãnscrito, o pessoal que cultuava caveiras e uns q colocavam rostos de outras pessoas nos braços, nas costelas, nas coxas. Tinha uns tatuados como os povos dos mares do sul, com os mesmos monocromatismos dos maui e dos aborígenes. E aí eles desenvolverão teorias incríveis sobre a diáspora dos povos e sobre os hábitos socio-culturais dos que habitavam essas praias.

para um amor no recife
21/10/2009
este post tem trilha sonora:
Você, barman-DJ-modelo da boate hype. Eu, cantora do Rio, em temporada na cidade. Dois na moda naquele momento e lugar.
Sopa de cabeça de peixe na praia do Pina, no velho puteiro, paredes azuis, sedução. Vc largando sua namorada gata pra ficar comigo, a gente na moto: tenho medo, vai devagar. A gente amanhecendo, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Almoço no motel, cama redonda: Mãe, desmarca meus alunos, to pegada aqui…
Meu Mauricio de Nassau, meu descobridor dos sete mares. Pernambucano do interior. Lindo. Louro. Galego do zôio azul. Meu James Dean do agreste, rebelde, caladão. “Saudaditu”, você dizia.
Calado, me levou pra comer peixe seco salgado com cachaça e limão, numa casa de chão de cimento e paredes cor de rosa, TV ligada, forró tocando no rádio, santos na parede, cerveja muito gelada. Ficamos bêbados, nos apaixonamos, nos beijamos, ralando os cotovelos nos muros das casas do caminho, pulando no banco de trás do carro, aimeudeus, quero morar aqui. Fica comigo, fica aqui.
Aí você sorriu pela primeira vez. Ganhei, pensei! Tá comigo, é meu! Era no pé de uma ladeira. Tinha uma igreja por perto. E mais ladeiras e igrejas. Peguei as malas na bela casa de Olinda, obrigada-amei-foi-lindo e partimos, de fusca emprestado, você dirigindo e feliz, me levando pra casa, pra mais uma semana, mais uma só, tá? Centro antigo de Recife, seu apê rachado com mais dois: – mãe, desmarca meus alunos de novo, vou ficar mais uma semana, muitas paradas rolando…
Café da manhã duas da tarde, cará com manteiga, queijo coalho, ovo frito, café doce, fraco e ralo no copo de requeijão. Maconha. Chuveiro quente. Vc me exibindo: essa é minha mulher. Eu prosa de ser a sua mulher, de saltos enormes nas pedras do chão da velha Recife.
Impossível dormir naquele quarto onde o sol se plantava bem de frente, na hora em que a gente deitava e se pegava, e pegava fogo nas paredes brancas, a cortina velha, despencando. Calor, ventilador barulhento, beijo na boca, maconha, o corpo grudento. Culpa, tesão. Galego dos zôio azul. Delícia, grude, calor, Recife. Casa comigo pra sempre.
A sua irmã me puxou e falou em off, no almoço de domingo: Casa com ele, menina, dá logo um filho pra ele. Nunca vi esse homem tão feliz! Mudou até a cara!
Você tinha 26 anos. Vamos fugir? Quero que vc conheça minha cidade, minha mãe, quero casar com você, ir morar no interior e te fazer um monte de filho, até morrer. Sim, vamos. Nunca amei ninguém assim. O hotel barato no centrão velho, nossa festinha particular, o lençol que mal cobria o colchão, a TV do quarto ao lado, sexo com amor o dia todo, chuveiro gelado, suco de umbu. Nossos filhos subindo em árvores, felizes, uísque, noites em claro, juras de amor. E como choramos…
Tenho que ir, a grana acabou, vai me ver… queria ir com você… volto logo, é até barato se pensar… a próxima é a minha vez… vou, me espera… vem… vai…
Ainda guardo o seu retrato. Fazia muito calor. Eu tinha 25 anos.
Meu amor eu não me esqueço /Não se esqueça, por favor… (Para um amor no Recife, Paulinho da Viola)

profissão de fé
10/07/2009
Legiões de pessoas solitárias. Multidões que não sabem nada de nada. Gente que vive só para achar o que comer na próxima fome. O mundo de gente que entra numa igreja para ser salva. E todas as pessoas que choram quando ouvem o pastor da TV abençoar o copo d’água. Pessoas que calculam como gastariam o prêmio da mega sena. Os que se casam. E todo mundo que joga uma flor no mar esperando uma graça de volta. Os que fazem discurso de noite do Oscar pro espelho. Os que acreditam em vidas passadas, em reencarnação, em vida eterna. Os que falam com mortos, os que prevêem o futuro de vivos. E todas as pessoas que sonham em ter filhos. E todos os que fazem discos e livros e fotos e quadros e músicas e poemas e peças de teatro e dança. Todos os que planejam viajar. Os que sonham em pescar, na aposentadoria. Os que se preparam para o futuro. Os aproveitadores. Todos aqueles que têm um time do coração. Os homeopáticos, os alopáticos, os vegetarianos e os carnívoros. E todos os que fazem terapia. Os felizes, os infelizes. Os que comemoram a passagem do ano e o aniversário.
A vida, essa questão de fé.

mediterrânea
11/05/2009
…li seu post e lembrei de uma felicidade profunda que eu me dei a sentir, em detalhes, quando um dia imaginei queu pudesse ir praquela ilha do filme Mediterrâneo, sabe?, e passar todos os dias sob o sol. Aquela brisa balançando as mangas das camisas penduradas na corda, dançando o lençol branco no varal, bailando os filós das cortinas. Microborboletas errando em bando por entre gerânios vermelhos nas jardineiras brancas. Sempre um amanhecer orvalhado e fresco, soando a passaradas. Dias coloridos, idas ao mercado onde se compra semente, raiz, caule, folha, flor e fruto. Chapéu de palha de aba ampla, bicicleta de cestinha. Entardeceres ora avermelhados ora dourados, rosados ou roxos, decorando céus de azul cobalto. As chuvas, prazenteiras. As noites, claras. Caminhos floridos, laranja madura na beira da estrada. Manjerona e alecrim nos canteiros do quintal. Lâmpadas penduradas nos fios.
Andar o resto da vida de saias coloridas bem rodadas, batas brancas, ombros de fora, sandálias amarradas nos tornozelos, cabelos longos, perfumados e cacheados, boca vermelha, brincos de ouro. Na hora das refeições, debaixo da sombra de uma árvore frondosa no quintal, servir a mesa de madeira meio troncha. Queijo de cabra, azeite, figos, vinho, azeitonas, peixe, tomate, uva, rúcula e pão. Café forte. A fonte é modesta, de pedra cor de pedra, estátua no centro, limo e líquen. A ninfa está abraçada à ânfora que deita um fio de água pra sempre no fundo da fonte, onde moedas refletem o sol. Bancos de madeira, garrafões de vinho, almofadas listradas, jarra de louça branca cheia de água de beber. Às noite de lua, sanfonas, violinos, flautas, pandeiros, bandolins. Os homens e as mulheres dançam, os homens e as mulheres falam. Uns falam alto. Outros fumam, comem, jogam, flertam, bebem, falam palavrão, namoram, gargalham. Às noites sem luar, cantoras cantam histórias que viveram, mas ninguém sabe. Todos escutam. Uns choram, uns dançam, uns riem. Os dias nunca se acabam, a noite nunca tem fim e a música é boa.
Lá embaixo, turquesa e calcáreo. O mar que nos abraça. O campanário da igreja recorta o horizonte cobalto. Casas brancas ocupam a encosta escarpada, a luz amarela sai das janelas abertas. Estrelas mudam de lugar o tempo todo. Algumas caem, mas sempre deixam um rastro de poeira brilhante.

por que vc acha a internet legal?
03/04/2009

ok, computer














