elo perdido
07/11/2009
este post tem trilha sonora. ouça enquanto lê, veja depois, ou tudo junto.
quando os sábios do futuro aportarem por aqui, o deserto terá virado mar, e o mar terá virado sertão. E quem sabe então o Rio será uma cidade areienta e pedregosa, uma espécie de Petra, com aquele Cristo gigante lá em cima, a cidade toda de areia, montanhas, ruinas de favelas, favelas e mais favelas incrustradas nas pedras, atravessando morros e vales, acompanhando avenidas intermináveis. E quilometros de areia bem branca e fina onde, muito lá no passado, quando só fazia 40 º, havia lindas verdes praias azuis, pq onde agora é areia antes era mar. Tinha maria-farinha e tinha tatuí. E peixe.
Fósseis de cariocas estarão petrificados em areia e sal, que o tempo e o sol escorchante moldaram, permitindo que a pele ficasse apenas seca, como um bacalhau qualquer. Os sábios encontrarão as múmias dos moradores do Leblon, de Ipanema, de Ramos, da Barra, do Recreio, do Leme, do Pontal, e do Flamengo, da Urca, da Ilha… E perceberão que o povo que habitava aquele lugar, homens e mulheres a partir da puberdade, usava tatuagens como marca tribal. E que havia a tribo dos dragões, a tribo das flores, a tribo das fadas, a tribo dos japoneses, a tribo dos nomes próprios nos antebraços e do sobrenome do clã cruzando as costas. A tribo de Jesus. E a tribo de Jah.
Cztalogarão a turma que escrevia sãnscrito, o pessoal que cultuava caveiras e uns q colocavam rostos de outras pessoas nos braços, nas costelas, nas coxas. Tinha uns tatuados como os povos dos mares do sul, com os mesmos monocromatismos dos maui e dos aborígenes. E aí eles desenvolverão teorias incríveis sobre a diáspora dos povos e sobre os hábitos socio-culturais dos que habitavam essas praias.

para um amor no recife
21/10/2009
este post tem trilha sonora:
Você, barman-DJ-modelo da boate hype. Eu, cantora do Rio, em temporada na cidade. Dois na moda naquele momento e lugar.
Sopa de cabeça de peixe na praia do Pina, no velho puteiro, paredes azuis, sedução. Vc largando sua namorada gata pra ficar comigo, a gente na moto: tenho medo, vai devagar. A gente amanhecendo, cabelo ao vento, gente jovem reunida. Almoço no motel, cama redonda: Mãe, desmarca meus alunos, to pegada aqui…
Meu Mauricio de Nassau, meu descobridor dos sete mares. Pernambucano do interior. Lindo. Louro. Galego do zôio azul. Meu James Dean do agreste, rebelde, caladão. Saudaditu, você dizia.
Calado, me levou pra comer peixe seco salgado com cachaça e limão, numa casa de chão de cimento e paredes cor de rosa, TV ligada, forró tocando no rádio, santos na parede, cerveja muito gelada. Ficamos bêbados, nos apaixonamos, nos beijamos, ralando os cotovelos nos muros das casas do caminho, pulando no banco de trás do carro, aimeudeus, quero morar aqui. Fica comigo, fica aqui.
Aí você sorriu pela primeira vez. Ganhei, pensei! Tá comigo, é meu! Era no pé de uma ladeira. Tinha uma igreja por perto. E mais ladeiras e igrejas. Peguei as malas na bela casa de Olinda, obrigada-amei-foi-lindo e partimos, de fusca emprestado, você dirigindo e feliz, me levando pra casa, pra mais uma semana, mais uma só, tá? Centro antigo de Recife, seu apê rachado com mais dois: – mãe, desmarca meus alunos de novo, vou ficar mais uma semana, muitas paradas rolando…
Café da manhã duas da tarde, cará com manteiga, queijo coalho, ovo frito, café doce, fraco e ralo no copo de requeijão. Maconha. Chuveiro quente. Vc me exibindo: essa é minha mulher. Eu prosa de ser a sua mulher, de saltos enormes nas pedras do chão da velha Recife.
Impossível dormir naquele quarto onde o sol se plantava bem de frente, na hora em que a gente deitava e se pegava, e pegava fogo nas paredes brancas, a cortina velha, despencando. Calor, ventilador barulhento, beijo na boca, maconha, o corpo grudento. Culpa, tesão. Galego dos zôio azul. Delícia, grude, calor, Recife. Casa comigo pra sempre.
A sua irmã me puxou e falou em off, no almoço de domingo: Casa com ele, menina, dá logo um filho pra ele. Nunca vi esse homem tão feliz! Mudou até a cara!
Você tinha 26 anos. Vamos fugir? Quero que vc conheça minha cidade, minha mãe, quero casar com você, ir morar no interior e te fazer um monte de filho, até morrer. Sim, vamos. Nunca amei ninguém assim. O hotel barato no centrão velho, nossa festinha particular, o lençol que mal cobria o colchão, a TV do quarto ao lado, sexo com amor o dia todo, chuveiro gelado, suco de umbu. Nossos filhos subindo em árvores, felizes, uísque, noites em claro, juras de amor. E como choramos…
Tenho que ir, a grana acabou, vai me ver… queria ir com você… volto logo, é até barato se pensar… a próxima é a minha vez… vou, me espera… vem… vai…
Ainda guardo o seu retrato. Fazia muito calor. Eu tinha 25 anos.
Meu amor eu não me esqueço /Não se esqueça, por favor… (Para um amor no Recife, Paulinho da Viola)

profissão de fé
10/07/2009
Legiões de pessoas solitárias. Multidões que não sabem nada de nada. Gente que vive só para achar o que comer na próxima fome. O mundo de gente que entra numa igreja para ser salva. E todas as pessoas que choram quando ouvem o pastor da TV abençoar o copo d’água. Pessoas que calculam como gastariam o prêmio da mega sena. Os que se casam. E todo mundo que joga uma flor no mar esperando uma graça de volta. Os que fazem discurso de noite do Oscar pro espelho. Os que acreditam em vidas passadas, em reencarnação, em vida eterna. Os que falam com mortos, os que prevêem o futuro de vivos. E todas as pessoas que sonham em ter filhos. E todos os que fazem discos e livros e fotos e quadros e músicas e poemas e peças de teatro e dança. Todos os que planejam viajar. Os que sonham em pescar, na aposentadoria. Os que se preparam para o futuro. Os aproveitadores. Todos aqueles que têm um time do coração. Os homeopáticos, os alopáticos, os vegetarianos e os carnívoros. E todos os que fazem terapia. Os felizes, os infelizes. Os que comemoram a passagem do ano e o aniversário.
A vida, essa questão de fé.

mediterrânea
11/05/2009
…li seu post e lembrei de uma felicidade profunda que eu me dei a sentir, em detalhes, quando um dia imaginei queu pudesse ir praquela ilha do filme Mediterrâneo, sabe?, e passar todos os dias sob o sol. Aquela brisa balançando as mangas das camisas penduradas na corda, dançando o lençol branco no varal, bailando os filós das cortinas. Microborboletas errando em bando por entre gerânios vermelhos nas jardineiras brancas. Sempre um amanhecer orvalhado e fresco, soando a passaradas. Dias coloridos, idas ao mercado onde se compra semente, raiz, caule, folha, flor e fruto. Chapéu de palha de aba ampla, bicicleta de cestinha. Entardeceres ora avermelhados ora dourados, rosados ou roxos, decorando céus de azul cobalto. As chuvas, prazenteiras. As noites, claras. Caminhos floridos, laranja madura na beira da estrada. Manjerona e alecrim nos canteiros do quintal. Lâmpadas penduradas nos fios.
Andar o resto da vida de saias coloridas bem rodadas, batas brancas, ombros de fora, sandálias amarradas nos tornozelos, cabelos longos, perfumados e cacheados, boca vermelha, brincos de ouro. Na hora das refeições, debaixo da sombra de uma árvore frondosa no quintal, servir a mesa de madeira meio troncha. Queijo de cabra, azeite, figos, vinho, azeitonas, peixe, tomate, uva, rúcula e pão. Café forte. A fonte é modesta, de pedra cor de pedra, estátua no centro, limo e líquen. A ninfa está abraçada à ânfora que deita um fio de água pra sempre no fundo da fonte, onde moedas refletem o sol. Bancos de madeira, garrafões de vinho, almofadas listradas, jarra de louça branca cheia de água de beber. Às noite de lua, sanfonas, violinos, flautas, pandeiros, bandolins. Os homens e as mulheres dançam, os homens e as mulheres falam. Uns falam alto. Outros fumam, comem, jogam, flertam, bebem, falam palavrão, namoram, gargalham. Às noites sem luar, cantoras cantam histórias que viveram, mas ninguém sabe. Todos escutam. Uns choram, uns dançam, uns riem. Os dias nunca se acabam, a noite nunca tem fim e a música é boa.
Lá embaixo, turquesa e calcáreo. O mar que nos abraça. O campanário da igreja recorta o horizonte cobalto. Casas brancas ocupam a encosta escarpada, a luz amarela sai das janelas abertas. Estrelas mudam de lugar o tempo todo. Algumas caem, mas sempre deixam um rastro de poeira brilhante.

desculpe, foi engano
30/03/2009
Não era amor. Mas que parecia, ah, parecia…

o resto é mar, é tudo que eu não sei contar