Que fim levou a gripe suína?
17/12/2009
Só pra reforçar a teoria do meu médico, e que eu defendi durante a gripe suína, que era tudo um puta exagero, que eles só estavam alardeando tanto, tudo, pra desencalhar a montanha de Tamiflu que eles produziram pra gripe aviária e que tb nao matou gente como eles desejavam, ops, pensavam. Isso é pra gente aprender a parar de acreditar em tudo o que a imprensa diz e a usar reflexão e discernimento na hora de selecionar as informações em que vai acreditar, principalmente quando se trata da indústria alimentícia e farmacêutica. As indústrias vivem de vender produtos, a imprensa vende notícia e uma notícia pode mudar o mundo. Mas uma coisa é o fato, outra, a notícia…
Um programa bem legal é o Observatório da Imprensa, que o Alberto Dines edita e apresenta na TV Brasil, e que tb é um site incrível, que vale a pena ser frequentado.
show dos bairros*
05/12/2009
Carioca bairrista é pleonasmo. Todo carioca bate no peito e morre de orgulho de viver onde vive, onde quer que seja, porque ser carioca é um atributo e tanto. Tá valendo uma grana no mercado internacional.
Mas sinceramente, to ficando com o saco na lua do povo que acha que detém o conhecimento de onde o samba é mais samba, onde o boteco é mais boteco, onde o carioca é mais carioca. Tem uma turma de xiitas cultuados por aí, que debocham de tudo o que é além túnel. Sociólogos (!), jornalistas(!) e historiadores (!) que pregam o preconceito e a intolerância e que se autorizaram a serem os guardiões do “verdadeiro” samba, do “verdadeiro” botequim e da “verdadeira” carioquice . No Leblon, patricinhas mimadas, em Ipanema, gatinhas alienadas frequentadoras de pé-limpo, quá quá… Poderíamos então definir a Tijuca como o bairro dos assassinos, dado o índice de violência do bairro? Acho que não, né?
Pois eu vou dizer o que eu acho. Acho que dizer que a zona norte define o Rio é uma forçação de barra daquelas, simplesmente porque não tem praia na zona norte e o Rio sem praia nao é o Rio. Assim como o Rio sem Maracanã não é Rio. O Rio é tudo. Minha família se instalou em Ipanema quando tudo era um areal meio remoto e cheio de casas simples com cadeiras na calçada. Será que eu deveria esconder minhas origens ou pedir repatriação na zona norte, pra ser “verdadeiramente” carioca? E deixem a Barra da Tijuca fora disso, pq o papo aqui é sobre os preconceitos antigos, não sobre os novos.
Já ouvi os xiitas dizerem que atitude carioca, mermo, é tomar cerveja, comer pé de galinha, cuspir no chão e arrotar livremente num pé-sujo da zona norte, onde as pessoas são mais cariocas e morrem de calor sem reclamar, pq sempre podem levantar a camisa e coçar as panças, felizes, sem problemas estéticos. Não tenho problemas com a Tijuca ou com botequim. Frequento os dois. Mas tenho problema com gente que se acha melhor do que os outros, seja na zona sul ou na zona norte. E tenho, sim, problemas estéticos com gente que arrota e cospe no chão. Ou nos outros.
Pronto, falei!
*show dos bairros era um programa de rádio que tocava músicas escolhidas por ouvintes identificados pelos bairros de onde ligavam, tipo assim: Andrea, do Leblon, dedica a música Brasileiro da Gema, de Tuninho Galante e Marceu Vieira, gravada por Ana Costa, para os xiitas da Tijuca.
no que vc está pensando agora?
29/11/2009
A febre do momento é o Facebook. O Orkut perde terreno, vertiginosamente, e tenta mudar a cara pra se parecer com o primo mais novo e mais descolado. Não vai conseguir. O FAcebook programou a derrota final do Orkut, no Brasil, para janeiro. Até lá terá dominado o Brasil, a índia e mais alguns territórios à sua escolha. Assim como o ICQ era moda e perdeu pro MSN, assim como o chat do IRC caiu em desuso. Não que não seja bom, mas a internet não é exatamente um lugar para se cultivar velhas tradições.
Na Inglaterra, qdo vc pede pra desativar seu perfil do Facebook, eles perguntam pq e dão opções em múltipla escolha. Uma delas é “social drama”, o que significa que a pessoa ficou louca, viciada, entubada e passou a viver mais no Facebook do que na vida. É o dia todo fazendo quizz, escrevendo e lendo sobre microacontecimentos, jogando farmville, recebendo dicas e piadinhas. De maneira que o sujeito quase abdica da vida real para entrar nessa segunda vida, onde todos são importantes e falam de si mesmos o tempo todo.
O que mais se pergunta nos sites de relacionamento, é: no que vc está pensando agora ou o que vc está fazendo agora? Na vida real, não tem ninguém perguntando pra gente, permanentemente, o que a gente tá pensando e fazendo e achando. Na vida real, precisamos de interlocutores interessados, dar um telefonema, sair pra conversar. A internet criou uma falsa sensação de importância para todos, de instant celeb e pior, de escuta afetiva. Pessoas passam o dia todo dizendo: estou engarrafada na Lagoa, estou acordando e indo pro trabalho, estou doida pra chegar o fim de semana pra pedalar, estou com saudade do meu amor, estou num relacionamento sério, estou solteiro, estou cansada, vou jantar e dormir. Outras lêem, pq tb querem falar de si. E querem bisbilhotar, muito e sempre.
A internet transformou o mundo, os relacionamentos e agora também a autoimagem das pessoas. Não temos ainda noção das transformações sociais que essa vivência sem volta acarretará, mas uma coisa é certa: não existe nada mais chato do que saber de todas as desimportâncias diárias da vida de todo mundo, de gente que nem é sua amiga, mas que está na sua lista de amigos…
lendas universais
08/10/2009
se fosse verdade…
… que tem gente que é abduzida por ETs, eu saberia de pelo menos algum conhecido de algum conhecido que já foi abduzido. Nem isso…
… que existe gente que fala com os mortos, eu conheceria alguém ou um amigo de alguém que falou com um morto. Todo mundo chama um morto querido no desespero. Nunca soube de algum que tivesse respondido, nem por respeito ao desespero do ente querido…
… que faz mal cair n’água depois do almoço, a gente teria ficado sabendo de alguém que caiu duro na piscina depois do almoço, no churrascão de domingo ou na praia. Tanta piscina e praia neste país, e nada…
… que fazer careta é um perigo pq pode bater um vento e a pessoa ficar assim pra sempre, a gente teria uma notícia sobre isso, que fosse, no jornal…
E olha que eu conheço gente, ein, muuuuuita gente…

black is beautiful*
08/09/2009
eu nao tive colegas negros na escola, na faculdade tinha um único negro na turma. Na pró-arte, onde estudei música, também nao tive colegas negros. Professor negro, só de dança e de capoeira ou de pandeiro. Cresci em Ipanema. Os negros da minha infância e juventude eram subalternos, quase sempre. Eu fui a primeira da minha família toda e do meu círculo de amizades a ter um namorado negro.
Felizmente, por causa da minha carreira de cantora, tenho a chance de conhecer pessoas de todos as procedências e frequento lugares onde tá todo mundo junto e misturado pela música. Tenho amigos de vários cantos da cidade. Aqui no leblon, onde moro, ainda impera o apartheid econômico, os pretos ainda sao subalternos ou da favela. ou ricos e famosos.
Isso tudo pra dizer que fiquei feliz da vida, dia desses, ao entrar na redação de um jornal e ver vários jornalistas negros. Sinto uma espécie de alívio e de felicidade suprema ao pensar que a realidade, não só o discurso, pode finalmente estar mudando. Racismo meu reparar nisso?
*black is beautiful, música de marcos e paulo sérgio valle. Eu gravei, querem ouvir? tem no myspace: http://www.myspace.com/andreadutra

norman rockwell
guerra dos sexos
02/07/2009
Homens e mulheres são considerados sexos opostos. Engraçado serem opostos e não contíguos ou complementares ou qq outra coisa assim, mais amigável. Opostos. Vejamos o que diz o Aurélio:
oposto
1. Que está em frente; fronteiro
2. Contrário, inverso, contraposto
3. Contraditório (1): Estas afirmações não combinam: são opostas.
4. O que é contrário; inverso
complementar
1. Que serve de complemento.
2. Pertencente ou relativo a complemento.
3. Que sucede ao elementar. [Sin. ger.: complementário.]
contíguo
1. Que está em contato; unido.
2. Próximo, vizinho, adjacente
Por que opostos, por quê?

a praia e the green lamp
16/06/2009
Quando nasci, morávamos em Copacabana. Antes dos 4 anos de idade já morava em Ipanema, de onde só sai aos 20 e tantos para um exílio no bas fond de Copacabana, morando sozinha pela primeira vez, no Lido, sub-bairro de Copa onde o pau come, a vaca tosse, a onça bebe água e a cobra fuma. Mas tem praia. Fiquei 4 anos. De lá vim pra cá, pro Leblon, onde estou há 12 anos e a 3 quadras da praia. Pretendo ficar.
A vida toda vivi na praia, depois parei de ir, viciei, desviciei, reviciei, andei, corri, nadei, pedalei, usei de todas as formas e pra tudo. Uma longa história de amor, ausências incluídas. Atualmente estamos in love forever.
Na caminhada de hoje, segunda, 15h, frio do cacete, último fiapo de sol, um monte de gente estava estudando na praia. Canetinha marcadora de texto, xerox grampeado, livro, lápis, borracha… Me lembro de ir estudar pro Vestibular, sob protestos do meu pai, na praia. Estendia a canga, despejava o mochilão cheio de apostilas e livros, como se fosse na toalha da mesa da sala e pronto! Passava o dia ali. Passei pra Federal, sorry!
Na mesma hora pensei nas bibliotecas de filme americano, com aquela luminária default verde (sabe aquela?*), e olhei a praia vazia, e vi como é legal a pessoa poder estudar e levantar os olhos pra refletir no horizonte, misturar os pensamentos na paisagem, dar um mergulhinho pra refrescar, tomar um mate e comer biscoito Globo. Sempre com o foco no estudo, dona da própria concentração. Ser seu próprio silêncio de biblioteca.

Angra dos Reis, RJ, ontem
*fui procurar no google uma foto da tal luminária e descobri que a green lamp tem até um site só pra ela, feito por gente que, como eu, acha estranhíssimo esse objeto cênico ser tão frequente. Quer saber qual é? Vai lá http://findthegreenlamp.com
coisas coisadas
26/05/2009
por que os vendedores ambulantes da praia ficam anunciando o que vendem o tempo todo, mesmo quando não tem ninguém? Ligam um automático quando pisam na areia?
por que os trocadores das abomináveis vans ficam com meio corpo pra fora da janela, com a van em alta velocidade, na pista de fora, gritando o itinerário a ser percorrido? É tipo só pra fazer divulgação?
por que os banheiros da praia fecham antes dos quiosques que vendem bebida? é pro povo fazer xixi ali na areia, mermo?
por que uma operadora de celular avisa: “para terminar, desligue”? existe alguma outra forma de terminar uma ligação telefônica? a pessoa fala tchau e fica na linha?

sagrado cenário onde tudo acontece
o dia do livro perdido – o desfecho
03/05/2009
aí embaixo tem um outro post com esse título, em que falo sobre o bookcrossing day, na semana passada. Eu tinha que vir contar o que me aconteceu nesse dia. Na pressa de sair, peguei uma edição de bolso de Os Maias, um brinde que ganhei e nunca abri, pq já tinha outra edição do livro. No taxi onde eu pretendia esquecer o livro, abri a embalagem e escrevi a dedicatória: “Depois de ler, esqueça este livro em algum lugar, para que outra pessoa possa lê-lo”. Foi qdo fechei a capa e li, claro como água: Os Maias, vol 2… Deixei o vol 1 em casa. Aí é sacanagem, né?

afoguei as mágoas nos frutos do mar da adega pérola
o dia do livro perdido
20/04/2009
outro dia entrei num taxi, com um livro na mão, com o intuito de esquecê-lo ali mesmo no banco de trás. Avisei ao motorista que era pra ele ler ou dar pra um passageiro. Ele morreu de rir, topou na hora. Eu escrevi um bilhete para o proximo leitor, coloquei meu nome, local e data e torço para que o livro esteja por aí, rolando de mão em mão. Faltou chipar o livro. Adoro imaginar por onde ele anda, quem o leu, quem o recusou.
A idéia não é original, há movimentos chamados de bookcrossing - cruzamento de livros - em todo o mundo. Acho uma ótima idéia para ser copiada. Neste dia 23, um monte de gente vai esquecer livros pelo mundo, para outras pessoas pegarem e lerem e passarem adiante.
Eu conheci uma pessoa cultíssima que não mantinha uma biblioteca, embora tivesse adquirido e lido milhares de livros na vida. Guardava os essenciais, os livros de consulta, os favoritos. Os outros todos emprestava a perder de vista, sem querer devolução, e estimulava a corrente, pra deixar o livro cumprir seu destino de ilustrar muitas vidas. Acho lindo.
E morro de rir de lembrar que um fulano famoso aí, dono de uma grife cafona aí, mandou fazer uma biblioteca em casa, daquelas até o teto, e encheu tudo com livros sob medida. Como? Ué, encomendou as lombadas de couro gravadas em dourado, só títulos de clássicos da literatura mundial, muitas obras completas, Proust, Freud, Marx, Shakespeare. Tudo pra impressionar as visitas. As lombadas eram vazias, sem livro dentro. Coisa mais cafona do mundo…
Então vamos lá? Dia 23 é dia de esquecer um livro em algum lugar e de pedir a São Jorge, nosso padrinho, que nos dê força pra guerrear como é preciso.



