lendas universais
08/10/2009
se fosse verdade…
… que tem gente que é abduzida por ETs, eu saberia de pelo menos algum conhecido de algum conhecido que já foi abduzido. Nem isso…
… que existe gente que fala com os mortos, eu conheceria alguém ou um amigo de alguém que falou com um morto. Todo mundo chama um morto querido no desespero. Nunca soube de algum que tivesse respondido, nem por respeito ao desespero do ente querido…
… que faz mal cair n’água depois do almoço, a gente teria ficado sabendo de alguém que caiu duro na piscina depois do almoço, no churrascão de domingo ou na praia. Tanta piscina e praia neste país, e nada…
… que fazer careta é um perigo pq pode bater um vento e a pessoa ficar assim pra sempre, a gente teria uma notícia sobre isso, que fosse, no jornal…
E olha que eu conheço gente, ein, muuuuuita gente…

black is beautiful*
08/09/2009
eu nao tive colegas negros na escola, na faculdade tinha um único negro na turma. Na pró-arte, onde estudei música, também nao tive colegas negros. Professor negro, só de dança e de capoeira ou de pandeiro. Cresci em Ipanema. Os negros da minha infância e juventude eram subalternos, quase sempre. Eu fui a primeira da minha família toda e do meu círculo de amizades a ter um namorado negro.
Felizmente, por causa da minha carreira de cantora, tenho a chance de conhecer pessoas de todos as procedências e frequento lugares onde tá todo mundo junto e misturado pela música. Tenho amigos de vários cantos da cidade. Aqui no leblon, onde moro, ainda impera o apartheid econômico, os pretos ainda sao subalternos ou da favela. ou ricos e famosos.
Isso tudo pra dizer que fiquei feliz da vida, dia desses, ao entrar na redação de um jornal e ver vários jornalistas negros. Sinto uma espécie de alívio e de felicidade suprema ao pensar que a realidade, não só o discurso, pode finalmente estar mudando. Racismo meu reparar nisso?
*black is beautiful, música de marcos e paulo sérgio valle. Eu gravei, querem ouvir? tem no myspace: http://www.myspace.com/andreadutra

norman rockwell
guerra dos sexos
02/07/2009
Homens e mulheres são considerados sexos opostos. Engraçado serem opostos e não contíguos ou complementares ou qq outra coisa assim, mais amigável. Opostos. Vejamos o que diz o Aurélio:
oposto
1. Que está em frente; fronteiro
2. Contrário, inverso, contraposto
3. Contraditório (1): Estas afirmações não combinam: são opostas.
4. O que é contrário; inverso
complementar
1. Que serve de complemento.
2. Pertencente ou relativo a complemento.
3. Que sucede ao elementar. [Sin. ger.: complementário.]
contíguo
1. Que está em contato; unido.
2. Próximo, vizinho, adjacente
Por que opostos, por quê?

a praia e the green lamp
16/06/2009
Quando nasci, morávamos em Copacabana. Antes dos 4 anos de idade já morava em Ipanema, de onde só sai aos 20 e tantos para um exílio no bas fond de Copacabana, morando sozinha pela primeira vez, no Lido, sub-bairro de Copa onde o pau come, a vaca tosse, a onça bebe água e a cobra fuma. Mas tem praia. Fiquei 4 anos. De lá vim pra cá, pro Leblon, onde estou há 12 anos e a 3 quadras da praia. Pretendo ficar.
A vida toda vivi na praia, depois parei de ir, viciei, desviciei, reviciei, andei, corri, nadei, pedalei, usei de todas as formas e pra tudo. Uma longa história de amor, ausências incluídas. Atualmente estamos in love forever.
Na caminhada de hoje, segunda, 15h, frio do cacete, último fiapo de sol, um monte de gente estava estudando na praia. Canetinha marcadora de texto, xerox grampeado, livro, lápis, borracha… Me lembro de ir estudar pro Vestibular, sob protestos do meu pai, na praia. Estendia a canga, despejava o mochilão cheio de apostilas e livros, como se fosse na toalha da mesa da sala e pronto! Passava o dia ali. Passei pra Federal, sorry!
Na mesma hora pensei nas bibliotecas de filme americano, com aquela luminária default verde (sabe aquela?*), e olhei a praia vazia, e vi como é legal a pessoa poder estudar e levantar os olhos pra refletir no horizonte, misturar os pensamentos na paisagem, dar um mergulhinho pra refrescar, tomar um mate e comer biscoito Globo. Sempre com o foco no estudo, dona da própria concentração. Ser seu próprio silêncio de biblioteca.

Angra dos Reis, RJ, ontem
*fui procurar no google uma foto da tal luminária e descobri que a green lamp tem até um site só pra ela, feito por gente que, como eu, acha estranhíssimo esse objeto cênico ser tão frequente. Quer saber qual é? Vai lá http://findthegreenlamp.com
coisas coisadas
26/05/2009
por que os vendedores ambulantes da praia ficam anunciando o que vendem o tempo todo, mesmo quando não tem ninguém? Ligam um automático quando pisam na areia?
por que os trocadores das abomináveis vans ficam com meio corpo pra fora da janela, com a van em alta velocidade, na pista de fora, gritando o itinerário a ser percorrido? É tipo só pra fazer divulgação?
por que os banheiros da praia fecham antes dos quiosques que vendem bebida? é pro povo fazer xixi ali na areia, mermo?
por que uma operadora de celular avisa: “para terminar, desligue”? existe alguma outra forma de terminar uma ligação telefônica? a pessoa fala tchau e fica na linha?

sagrado cenário onde tudo acontece
o dia do livro perdido – o desfecho
03/05/2009
aí embaixo tem um outro post com esse título, em que falo sobre o bookcrossing day, na semana passada. Eu tinha que vir contar o que me aconteceu nesse dia. Na pressa de sair, peguei uma edição de bolso de Os Maias, um brinde que ganhei e nunca abri, pq já tinha outra edição do livro. No taxi onde eu pretendia esquecer o livro, abri a embalagem e escrevi a dedicatória: “Depois de ler, esqueça este livro em algum lugar, para que outra pessoa possa lê-lo”. Foi qdo fechei a capa e li, claro como água: Os Maias, vol 2… Deixei o vol 1 em casa. Aí é sacanagem, né?

afoguei as mágoas nos frutos do mar da adega pérola
o dia do livro perdido
20/04/2009
outro dia entrei num taxi, com um livro na mão, com o intuito de esquecê-lo ali mesmo no banco de trás. Avisei ao motorista que era pra ele ler ou dar pra um passageiro. Ele morreu de rir, topou na hora. Eu escrevi um bilhete para o proximo leitor, coloquei meu nome, local e data e torço para que o livro esteja por aí, rolando de mão em mão. Faltou chipar o livro. Adoro imaginar por onde ele anda, quem o leu, quem o recusou.
A idéia não é original, há movimentos chamados de bookcrossing - cruzamento de livros - em todo o mundo. Acho uma ótima idéia para ser copiada. Neste dia 23, um monte de gente vai esquecer livros pelo mundo, para outras pessoas pegarem e lerem e passarem adiante.
Eu conheci uma pessoa cultíssima que não mantinha uma biblioteca, embora tivesse adquirido e lido milhares de livros na vida. Guardava os essenciais, os livros de consulta, os favoritos. Os outros todos emprestava a perder de vista, sem querer devolução, e estimulava a corrente, pra deixar o livro cumprir seu destino de ilustrar muitas vidas. Acho lindo.
E morro de rir de lembrar que um fulano famoso aí, dono de uma grife cafona aí, mandou fazer uma biblioteca em casa, daquelas até o teto, e encheu tudo com livros sob medida. Como? Ué, encomendou as lombadas de couro gravadas em dourado, só títulos de clássicos da literatura mundial, muitas obras completas, Proust, Freud, Marx, Shakespeare. Tudo pra impressionar as visitas. As lombadas eram vazias, sem livro dentro. Coisa mais cafona do mundo…
Então vamos lá? Dia 23 é dia de esquecer um livro em algum lugar e de pedir a São Jorge, nosso padrinho, que nos dê força pra guerrear como é preciso.
