O ciúme (Guilherme de Almeida)
28/04/2009
Minha melhor lembrança é esse instante no qual
Pela primeira vez me entrou pela retina
Tua silhueta provocante e fina
Como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
Que a gente se habitua a achar apenas bela
E que é quase banal.
E agora que te tenho em minhas mãos e sei
Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
Que os teus sentidos são cinco brinquedos
Com que brinquei;
Agora que não mais me és inédita, agora
Que compreendo que tal como te vira outrora
Nunca mais te verei;
Agora que de ti, por muito que me dês,
Já não podes dar a impressão que me deste,
A primeira impressão que me fizeste,
Louco, talvez,
Tenho ciúme de quem não te conhece ainda
E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela
Primeira vez.

minha irmã
22/04/2009
Se não fosse pela minha irmã, eu não teria ouvido falar no violinista que escuto agora, o belga Arthur Grumiaux. Não teria ganhado o CD do Concerto de Ravel em Gm e outro do Satie. Também nunca teria morado em Paris e provado os éclairs perfeitos do Lenôtre. Não teria ouvido falar de claro-escuro. Não teria lido Freud, nem Hermann Hesse. Nem Monteiro Lobato. Mas também não teria sido obrigada a brincar de “maninha” e de “korak”, isso teria sido bom. Sem ela seria impossível fazer aquele número de botinha de veludo molhado vermelho e mini-mini ;) ou de pijama de calhambeque.
Se não fosse por ela eu não teria estudado canto e não teria feito análise quando precisei. E não teria tido roadie nos shows, carona pros músicos, carro para a produção. Sem falar em grana. Se não fosse pela minha irmã, eu não teria lido um terço dos livros que li, visto um terço dos filmes que vi e nem escutado ELP, Genesis e Cat Stevens. Nem teria, aos 22 anos, corrido pra chegar a tempo de ver o Pavarotti em La Bohème, na Ópera de Paris. Não teria sido chamada na xinxa, muitas vezes. Nem saberia que detesto lieds e Kurt Weill e Brecht. E nem acharia super normal uma pessoa viajar, falar idiomas, querer melhorar, ganhar o mundo, sem esnobismo, sem afetação. Ela me ensinou a achar legal ter cultura e inteligência. Talvez eu nem conhecesse Cole Porter. Se não fosse por ela eu não estaria indo ao homeopata bruxo que eu amo. Com ela dou as maiores gargalhadas da vida, e ligo pra comentar uns comentários que só com ela, mesmo.
Last, but not least, se não fosse pela minha irmã eu não teria a minha sobrinha. E ela ainda diz que sou eu que animo a vida dela…

o dia do livro perdido
20/04/2009
outro dia entrei num taxi, com um livro na mão, com o intuito de esquecê-lo ali mesmo no banco de trás. Avisei ao motorista que era pra ele ler ou dar pra um passageiro. Ele morreu de rir, topou na hora. Eu escrevi um bilhete para o proximo leitor, coloquei meu nome, local e data e torço para que o livro esteja por aí, rolando de mão em mão. Faltou chipar o livro. Adoro imaginar por onde ele anda, quem o leu, quem o recusou.
A idéia não é original, há movimentos chamados de bookcrossing - cruzamento de livros - em todo o mundo. Acho uma ótima idéia para ser copiada. Neste dia 23, um monte de gente vai esquecer livros pelo mundo, para outras pessoas pegarem e lerem e passarem adiante.
Eu conheci uma pessoa cultíssima que não mantinha uma biblioteca, embora tivesse adquirido e lido milhares de livros na vida. Guardava os essenciais, os livros de consulta, os favoritos. Os outros todos emprestava a perder de vista, sem querer devolução, e estimulava a corrente, pra deixar o livro cumprir seu destino de ilustrar muitas vidas. Acho lindo.
E morro de rir de lembrar que um fulano famoso aí, dono de uma grife cafona aí, mandou fazer uma biblioteca em casa, daquelas até o teto, e encheu tudo com livros sob medida. Como? Ué, encomendou as lombadas de couro gravadas em dourado, só títulos de clássicos da literatura mundial, muitas obras completas, Proust, Freud, Marx, Shakespeare. Tudo pra impressionar as visitas. As lombadas eram vazias, sem livro dentro. Coisa mais cafona do mundo…
Então vamos lá? Dia 23 é dia de esquecer um livro em algum lugar e de pedir a São Jorge, nosso padrinho, que nos dê força pra guerrear como é preciso.

rio ♥ são paulo
15/04/2009










povo da praia
06/04/2009
outro dia passou por mim um mendigo, muitas roupas superpostas que ficariam lindas na passarela do Fashion Rio. Paramos pra esperar o sinal fechar. Eu, de bicicleta, ia a uma reunião em Copacabana. Ele indo pra praia, provavelmente catar as latinhas que recolhia num sacão de lixo preto. O cabelo desgrenhadérrimo. Os pés, descalços.
Parou do meu lado, simpático: “Copacabana está em guerra hoje. Mais uma vez”. “Pois é…” tive que concordar porque, de fato, Copacabana amanhecera novamente debaixo de tiros. ”Ainda bem que eu vim pro Leblon de helicóptero”, disse ele, despedindo-se com um aceno, um sorriso aberto, postura altiva e altaneira, rumo à areia da praia.
E eu, que morro de medo de helicóptero, montei na minha bicicletinha e pedalei rumo à guerra de Copacabana.

é como uma música parada sobre uma montanha em movimento
por que vc acha a internet legal?
03/04/2009

ok, computer